A desconstrução do construtor

Texto feito com base na música “Construção” de Chico Buarque.


Era uma abafada manhã de outubro. Rodolfo tentou abrir um olho, mas uma pequena crosta o impediu momentaneamente. Após uma esfregada preguiçosa da mão esquerda nos olhos (a direita estava entre as pernas complementando a posição fetal propícia para dormir), ele conseguiu abrir os dois. Ainda que tímidas, suas pupilas começaram a dilatar para enxergar o sol que testemunharia o seu próprio fim.

Sentiu algo diferente em seu espírito. Temeu a morte, mas logo lembrou que os boletos da escola particular de seus filhos estavam vencidos. Sempre se esforçou para ser bom pagador e gozar de uma boa fama nos botecos e barbearias da região. Porém, após uma queda de uma laje em que fazia um bico, ele ficou três meses parado com ambos os braços fraturados. Sem ser registrado, ficou sem nenhum benefício para sustentar a família. Os boletos começaram a aparecer bem no olho da mente de Rodolfo. Tentou afastar as imagens com uma porção de água gelada no rosto.

Enquanto o líquido descia pelo seu rosto ainda inchado, mais pensamentos tomaram conta de sua cabeça. Diferentes daqueles, mas talvez complementares. Lembrou de Sueli, sua amante, que mantinha um caso há mais de 7 meses às escondidas. Já eram sete meses com a consciência pesando quase que diariamente, só esquecia quando estava entorpecido. Sueli tinha 32 anos, Rodolfo 49 e Marcela 47. Marcela era sua esposa. Rodolfo amava Marcela e sempre desejou que ela fosse a única. Mas não era. Vivia um dilema esquisito.

A São Paulo dos anos 1940 era um tanto quanto rigorosa com homens e mulheres. Com os homens pois era uma época de desenvolvimento urbano e todos os trabalhos que sobravam aos rapazes eram braçais e muito violentos: construção de edifícios e arranha-céus sem tanta segurança e mais de 14 horas por dia. O imediatismo capitalista começou a fazer de Rodolfo sua vítima aos 13 anos de idade. A metrópole, porém, era ainda mais difícil para as mulheres. O auge do patriarcado encontrava-se na época. As moças eram apenas facilitadoras da vida de seu marido e Marcela sentia isso na pele todos os dias.

Com o marido acordando cedo para trabalhar na construção no centro de São Paulo, Marcela acordava mais cedo ainda única e exclusivamente para preparar-lhe café e arrumar a mesa com umas poucas bolachas com margarina (a desse dia inclusive estava para vencer em apenas dois dias).

Marcela, exausta, levantou e pensou algo como “por que eu me submeto a isso?”, mas logo que pensou na sua prole afastou por alguns minutos o pensamento.

Rodolfo acordou e assim que falou com ela e com os filhos, foi curiosamente carinhoso, como se já sentisse que algo estava para acontecer. Beijou a mulher como se fosse a única, mas na verdade, a contragosto dele, era apenas a última.

Pegou dois ônibus e um trem que o deixaram perto da obra. Ali começou a trabalhar. Batia, batia, batia. Levantava peso e sua pele negra clara queimada pelo sol começava a liberar o suor. Em poucos minutos, ele suava bicas.

Após trabalhar por cinco horas seguidas, olhou no relógio de bolso e reparou que se passaram apenas 40 minutos que estava na labuta. Odiou sua vida. Não aguentava mais a vida de peão. Era uma quinta-feira e logo lembrou-se que teria que trabalhar sem folga durante todo o final de semana. Odiou mais ainda sua vida.

Quando bateu 47 minutos de trabalho, sua cabeça fez questão de lembrar de sua mãe doente. Izilda sofria de Alzheimer, mas como não conhecia muito bem, ele simplesmente achava que a senhora estava ficando “tan tan”, como ele mesmo expressava. Sua mãe foi uma figura importante na sua vida e vê-la no ocaso de sua sanidade o perturbava profundamente. Odiou a vida como um todo. Odiou a ideia de que tudo estava próximo do fim.

De modo inédito, alegou uma forte dor de barriga e desceu dos muitos andaimes. Atingiu o nível do chão e olhando para cima e para os lados para ver se não estava sendo observado, entrou no Bar do Tinoco, que ficava em frente à construção. Como já conhecia o dono, resolveu pedir uma “cangibrina” (pinga) a fiado mesmo. Tomou em apenas um gole e fortes arranhões passaram pela sua garganta. Tossiu três vezes e acendeu um cigarro dentro do bar. Sentiu um calor tomando seu peito sobremaneira: a cachaça estava fazendo efeito. Ficou meio tonto e se odiou um pouco por tomar aquilo em um dia com sol em pleno fulgor.

Saiu do bar, suado e suando. Voltou a subir para seu posto de trabalho e após algumas cambaleadas perigosas, conseguiu se estabilizar.

Voltou a bater nas vigas de ferro com toda sua força e o barulho ensurdecedor entrava em sua mente com a força de um leão selvagem. O forte sol, a pouca refeição de manhã, a cachaça tomada e aquele barulho foram suficientes para desencadear uma dor de cabeça forte. Odiou mais ainda estar vivo.

Algumas horas se passaram e ele continuava com a marreta dando pancadas nas vigas de ferro. Ao meio dia chegou sua hora preferida: o almoço. Estava cansado demais mas mesmo assim desceu para saborear sua marmita feita com rancor por Marcela. A falta de dinheiro escancarou-se quando Rodolfo abriu o pote: arroz, feijão e nada mais. Ficou triste, mas o tamanho da fome e o ódio pelo trabalho que prestava o levaram a comer impetuosamente. Após a segunda garfada pensou: “esse é o melhor arroz e feijão que já comi”. Em um breve oásis no meio do deserto, ele se sentiu o máximo comendo o resto da janta, quase um príncipe.

Lá embaixo, disposto a aproveitar o horário de almoço, ele voltou ao bar do Tinoco decidido a beber mais. Pediu mais uma dose de cachaça. Virou-a como se fosse água. A ardência tomou conta de sua garganta, língua e gengiva mal cuidada. Sentiu como se tivesse ingerido um antisséptico. Lembrou de tudo o que o atormentava e reparou que aquilo era intermitente. Para afastar os pensamentos decidiu que queria beber mais. “Mais uma, amizade!”, gritou o peão para Cebola (o ajudante de Tinoco que o cobria quando estava fora). Virou a dose de novo. Doeu mais ainda.

A identificação começou a chegar a ele. Se judiava com uma dor para tentar afastar outras. Cada copo que bebia (já estava no quarto) mais doía e mais ele sentia que estava se punindo de forma digna.

O horário de almoço acabou e o saldo foi: arroz, feijão, lágrimas e 5 doses de cachaça. Lembrou que precisava receber para pagar uma dúzia de ovos para sua marmita do dia seguinte. Precisava voltar. Se não voltasse não receberia e ficaria sem os deliciosos ovos cozidos.

Subiu. Cambaleou. Trombou com alguns funcionários. Xingou seus colegas. A despeito da ordem do empreiteiro, começou a subir um muro de alvenaria no primeiro andar. As paredes ficaram frouxas, quase flácidas, embora ainda pequenas. Colocou a quantidade errada de reboco e ao primeiro empurrão mais forte, a parede cedeu. “Puta que pariu!”, bradou Rodolfo.

Xingou seu empreiteiro e começou a subir os andares. Nesse momento a ebriedade tomava conta dele e observou que a combinação de álcool e ódio era explosiva. Subiu, subiu, subiu e subiu. Chegou no penúltimo andar. Ao contemplar a metrópole em sua vastidão uma gostosa brisa o atingiu e fechou os olhos para aproveitá-la melhor.

De repente a brisa começou a se tornar incômoda e forte. Parecia um vento descontrolado, sentiu a cabeça inclinar um pouco para trás. Quando abriu os olhos, estava em plena queda livre. Não gritou. Não houve tempo. Apenas um levíssimo e tímido sorriso do lado direito da sua boca apareceu, revelando uma casca do feijão no seu canino.

O canino foi a primeira parte do seu corpo a voar com o impacto contra o chão. Por alguns segundos sua consciência foi mantida. A dor anestesiada pelo álcool deu lugar à vergonha. Os 15 segundos que permaneceu em vida e o tornaram famoso na cidade foram horríveis. Nunca gostou de sentir que atrapalhava alguém. Quando percebeu seu corpo estendido em plena avenida Ipiranga, às 14 horas, viu que o tráfego tinha parado exclusivamente por causa de seu corpo quebrado e contorcido na rua. Apesar disso, até se sentiu um pouco importante e assim morreu.

Rodolfo morreu com pessoas notando-o. Proporcionou um terrível espetáculo e deixou todas as contas e cuidados com a mãe para Marcela, sua última mulher.

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