Harry Potter e a Porrada Filosofal
Foi em 2002, ano do penta. Acredito que tinha 10 ou 11 anos, pois não lembro bem o mês que ocorreu esse episódio bisonho.
O sinal do intervalo soava e nós, da quinta série, saímos correndo como de costume direto para o pátio. Descíamos a rampa do saudoso Colégio Hebrom gritando “Alieeeeeeen” (uma espécie de pega-pega nosso). Tínhamos acabado de entrar na vida do chamado ginásio e ainda conservávamos nossos traços mais infantis tanto nas feições quanto nas brincadeiras. Tudo parecia ocorrer para um período de recreio normal que ao término nos levaria suados e cansados para mais uma aula de matemática.
Algo de diferente aconteceu naquele dia. Fora da nossa turma de infantiloides, havia, na sexta série, dois irmãos um tanto quanto estranhos. Eram seres soturnos e que pareciam nutrir uma sociopatia profunda. Mas sabem, né? “Moleque é foda”, é o que sempre ouvimos por aí e talvez uma das frases mais acertadas nessa pós-modernidade louca.
Os dois irmãos eram daqueles excluídos e zoados por todos, principalmente os da sala dele. Não lembro seus nomes, sei que um era chamado de “Harry Potter” e o outro de “Pedra Filosofal”. Dou risada ao escrever isso de tão ridiculamente idiota que é.
Nesse dia, eu não contente em gritar “alien” e correr ensandecidamente atrás de meus coleguinhas, precisava me mostrar um cara muito legal, divertido e com moral. Por isso não pensei duas vezes. Cheguei aleatoriamente em um dos irmãos (o mais assustador deles) e falei em um lindíssimo tom de deboche: “E aí, Pedra Filosofal!”.
Éramos de escola particular, acho que por isso nunca houve nenhuma daquelas brigas homéricas que se ouve falar nas escolas. Mas algo foi particularmente doloroso para mim. O tal Pedra Filosofal veio andando com seu jeito meio cavalar e trôpego e desferiu um soco no meu braço esquerdo. Eu, na época um menino franzino, pequeno e inseguro, apenas deixei ele bater em mim e assim que virou as costas subi correndo com certa vergonha — e dor, obviamente.
Lembro de a caminho da sala meus olhos encherem de lágrima. Mas não de dor. Foi que naquele momento eu me achava imbatível fazendo graça para todo mundo. Um simples soco no braço mostrou que eu era muito vulnerável no alto dos meus 11 anos.
Já disse que “moleque é foda” e hoje só consigo pensar nisso quando lembro desse causo maluco. Recordo-me de meus amigos vindo me zoar e querendo que eu chamasse os mais velhos para bater nele. Minha cabeça experimentou um turbilhão naquele dia. Só conseguia pensar “nunca mais vou zoar o Pedra Filosofal”. Thiago, acho que era Thiago o nome dele e seu irmão era Victor (as pessoas pronunciavam Viquítor para provocar o cidadão).
Acho que ali mais do que pensar que não devo mexer com os mais fortes, aprendi que uma brincadeira poderia machucar uma pessoa. Machucou o rapaz, que por conseguinte me machucou.

Foi uma porrada filosofal, literalmente falando. Me ensinou que minha euforia não deve sobrepor-se ao meu respeito e que um soco no braço pode te ensinar mais do que muitos momentos de reflexão imposta.
