O choro pelas cinco garotas
Era carnaval. Enquanto os foliões pulavam nas ruas ao som do samba e das marchinhas típicas, eu pulava entre a imundície de papéis, restos de fantasia, preservativos e garrafas quebradas, fazendo maior esforço para que os cacos afiados não perfurassem a sola do meu All Star já gasto e rasgado. Nem imaginava eu que esse dia terminaria com choro descontrolado em uma sala de cinema.
Eu, um jovem ainda, embora minha mente trate de não se enxergar assim, passava por dias de Schopenhauer com ascendente em Ian Curtis e estava apenas com vontade de sair sozinho e aproveitar os encantos da metrópole.
Saí. São Paulo parecia uma cidade deserta. Mas o lixo acumulado nas ruas denunciava a presença de seres humanos que talvez estivessem embrenhados em seus lares, curando a famosa ressaca. Ou, talvez, estivessem em outro bloquinho exacerbando sua energia jovial — às vezes não tão jovial assim. Coloquei minha camisa do Everton, time inglês, mais apertada do que na época que comprara, mas não me importei.
Procurava a paz que somente a solitude pode proporcionar e fui buscar esse isolamento em salas de cinema no Belas Artes e no chão da Livraria Cultura. Eram 14 horas quando eu cheguei ao cinema. Decidido a passar um bom tempo do meu dia, compro ingresso para dois filmes.
O caos laboratorial de Iñarritú passava pelos meus olhos com uma fúria de um bando de selvagens e mostrava a saga de sobrevivência e vingança de um homem em “O Regresso”, filme que lhe rendeu o Oscar de Melhor Diretor em 2016. Saí do cinema com uma pontada de decepção. Esperava algo a mais do filme mais comentado dos últimos dias daquela época. Mas rendeu o Oscar ao Leonardo DiCaprio, né? Quem sou eu para dizer algo?
Voltei à livraria, à procura de algo para matar o tempo. O primeiro filme terminara às 18 horas e o próximo era só às 23h10! Na época estava lendo Moby Dick e por mais que seja meu livro preferido até hoje, é necessário lembrar que há momentos de extrema aridez tecnicista que funciona quase como uma peneira para os leitores. Sentei no chão da loja e comecei a folhear alguns capítulos da edição da Cosac Naify (que Deus a tenha!) e mergulhei naquele oceano mais um pouco.
19h25. O tempo não passava. E de tanto fazer vários nadas, eu vou observando o relógio virar lentamente.
22h40, era hora de migrar da Estação Consolação para a Estação Paulista, embora a estação Consolação fique na Paulista e a Paulista na Consolação. Coisa que só paulistano entende.
Às 22h56 chego no Belas Artes, que só permitia a entrada pela lateral devido ao horário. Quando adentro aquele hall, um certo ar de melancolia cai sobre mim. Aquele lugar tão vivo e cheio de pessoas crendo que estão cumprindo seus papéis de cinéfilos e intelectuais, agora estava vazio, com a maioria das luzes apagadas e com um certo cheiro de mofo devido ao carpete que provavelmente não fora higienizado após umas fortes chuvas típicas do período. Ali comecei a sentir que algo grande estava para acontecer. “Mas é apenas um filme turco”, pensava eu.
23h10. Chegou a hora! Entro na sala minúscula e sento exatamente no meio das fileiras e colunas com bastante sono. Logo um pensamento veio à minha cabeça: “puta que pariu, eu nesse cansaço e escolho logo um filme turco para assistir?”. Mal sabia eu o que o filme “Cinco Graças” reservaria para mim.
O filme começou e por meio de uma belíssima fotografia, conhecemos Lale, Nur, Sonay, Ece e Selma, cinco irmãs órfãs que moram no interior da Turquia. Conhecemos também sua avó que cria as meninas dentro dos limites da tradição muçulmana. Conhecemos o tio delas, Erol, sujeito machista, abusador e descontrolado. Conhecemos por último Yetsin, um caminhoneiro e amigo daqueles que sempre queremos por perto. Os ingredientes formaram uma mistura estarrecedora.

Em meio ao sofrimento do filme, trilhas sonoras belíssimas despertavam em mim os mais diversos sentimentos. Uma linda melancolia no ideal de liberdade me fazia perder o sono e cravar meus olhos na tela, como se eu estivesse em frente a uma divindade em pleno fulgor de sua glória.
Os seis minutos da cena final com sua música ininterrupta gravada com dois cellos e uma viola elevaram meu espírito, mas fizeram algo inédito: pela primeira vez, lágrimas começaram a surgir copiosamente em meus olhos em uma sala de cinema. No começo lutei com elas. E quanto mais eu lutava, mais difícil se tornava. A queda de braço já era delas. Comecei a soluçar. Chorava alto. Pessoas do meu lado ficaram até com um pouco de medo. Mas eu precisava daquilo. Precisava tentar entender o que é o sofrimento de uma mulher só por ser mulher.
Ali, em uma sala de cinema de mais um carnaval, um filme que ainda nem saiu em DVD me fazia amadurecer em algo chamado empatia. As cinco irmãs e seus destinos agridoces me ensinaram a sonhar com liberdade, com amor e igualdade.
As cinco meninas arrancaram de mim conceitos errados através das lágrimas.
As cinco meninas não ganharam o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.
As cinco meninas mudaram minha vida.
