O cigarro e o mundo acadêmico

Paulo de Faria
Jul 25, 2017 · 7 min read

“Quando virar o ano, vou parar de fumar”. Essa foi a resolução de réveillon de Amanda Quaresma. A jovem de 21 anos conseguiu passar os dois primeiros meses de 2017 sem consumir nenhum tabaco. Porém, em meio a esse período de sucesso, no começo de março, começaram as aulas na faculdade de jornalismo. Nesse mesmo tempo os cigarros voltaram a fazer parte de sua rotina.

O caso de Amanda não é exceção entre universitários. No 1º Levantamento Nacional de Álcool e Drogas, realizado em 2009, observou-se que nas universidades e faculdades privadas do Brasil cerca de 23,7% dos alunos são fumantes. Curiosamente, a situação é menos grave nas públicas, nas quais cerca de 13,2% dos matriculados possuem o hábito de fumar.

Diferentemente do caso de Amanda, há pessoas que ingressam na vida do tabagismo ao entrar no ensino superior, como é o caso de Julio de Faria. Atualmente com 23 anos, ele conta que começou a fumar aos 17, assim que entrou na faculdade. “O cigarro é uma droga muito social. Você se vê socializando ainda mais quando tem amigos fumantes”, relata. Enxerga que o hábito é o que o mantêm na prática mesmo já não frequentando o ambiente universitário. Embora já tenha diminuído significativamente quantidade por dia (de um maço e meio para dois a três cigarros por dia), seu entendimento é que assim que refletir e pensar melhor sobre o assunto ele conseguirá largar, levando em conta que já ficou oito meses longe do fumo e não sentiu falta. Voltou puramente pelo hábito.

Número de fumantes no Brasil caiu 46% em 26 anos

Estima-se que hoje no Brasil cerca de 21% dos universitários sejam fumantes ativos. Entretanto, um estudo realizado pela Comissão Nacional para o Controle do Uso do Tabaco liberada pela CONICQ em 2015 mostra que em comparação com 1989 a prevalência de adultos fumantes no Brasil caiu cerca de 46% em termos relativos quando comparadas as populações das duas épocas. São números que deixam os especialistas brasileiros otimistas, levando em consideração que cerca de 420 mil mortes foram evitadas nesse período.

O Brasil tem remado contra a maré. Em estudo recente divulgado pela OMS, hoje em dia seis milhões de pessoas morrem por causa do cigarro a cada ano no mundo. A estimativa é que até 2030 esse número cresça para oito milhões. Segundo a entidade, 80% das mortes serão em países de baixa e média renda. Por esse motivo, o Brasil tem sido visto como um caso de sucesso de medidas antifumo, devido à grande queda da prevalência de tabagistas brasileiros.

A GLAMOURIZAÇÃO DO TABAGISMO

Embora haja controvérsias sobre a origem do cigarro industrializado, acredita-se que o início de produção em larga escala se deu na França do século XIX e, apenas a partir desse ponto, fumar se tornou praxe, substituindo o ato de mascar folhas de fumo. A primeira fábrica de cigarros no Brasil começou em 1874, na cidade do Rio de Janeiro. Apesar do hábito começar a ser consolidado nessa época, o real crescimento e expansão do mercado tabagista se deu no século XX.

A inserção de propagandas na televisão, revistas, jornais e outdoors, elevou o número de fumantes gradativamente ao longo das décadas. O cinema teve papel crucial na divulgação e consequente glamourização da prática. O gênero conhecido noir e os filmes clássicos sempre mostravam o tabagismo como um requinte de charme, classe ou até mesmo rebeldia. Humphrey Bogart, o galã máximo que Hollywood já produziu, estava sempre fumando em suas atuações. O que dizer de Audrey Hepburn, no auge da sua beleza, fumando em “Bonequinha de Luxo”? Sem esquecer da romântica insubmissão de James Dean em “Juventude Transviada”, que seria menos deslumbrante sem o tabaco. “A Indústria do Tabaco no passado gastou milhões de dólares para manter o retrato dos cigarros nos filmes”, é o que denuncia o estudo “Cinema sem cigarro: da evidência à ação”, realizado pela OMS em 2009. Para a entidade, o papel das películas se tornou ainda mais significativo quando as outras formas de publicidade e divulgação foram restringidas por leis governamentais.

Audrey Hepburn no clássico “Bonequinha de Luxo”

Gabriela Souza, estudante de Relações Públicas, fuma há quatro anos e entende que não haja a glamourização do ato de fumar atualmente. Ao seu ver, grande parte das pessoas sentem nojo da prática. “Ninguém gosta do cheiro de cigarro”, aponta. Já Eliakim Tavares, estudante de Filosofia, interpreta que existe uma romantização do tabagismo. “Pessoas que são consideradas legais fumam”, defende o universitário. Nesse ponto, a psicanalista Désireé Mauro explica que os cigarros voltaram à moda. A prática tinha sido diminuída quando as leis antifumo foram aprovadas, mas pela sua própria experiência clínica pontua que o tabagismo voltou a ganhar espaço entre as pessoas. A grande incidência entre jovens se dá majoritariamente por causa das relações sociais e para sentir-se aceito. “Cigarro serve para fazer um laço. Sempre existe um grupo social envolvido”, frisa a psicanalista.

Jair Junior cursa filosofia e fuma entre um e dois maços por dia. Conta que começou a fumar ainda na escola, escondido no banheiro. A faculdade só deu mais liberdade para praticar. Para ele muitas pessoas fumam como meio de obter status e acabam demonstrando um certo ar de superioridade por isso em suas atitudes. Em seu relato, lembra de um amigo que o zombava quando ele fumava um cigarro de marca mais barata, afirmando que isso poderia até afastar potenciais garotas fumantes, pois deveria apenas oferecer os cigarros mais caros e conhecidos.

O ambiente da comunicação ainda sente os efeitos de toda a glamourização envolvida por parte da mídia. “A gente tem uma romantização muito grande, principalmente entre jornalistas e publicitários. Sobre o jornalista fumante, o publicitário fumante, coisas dos anos 60 e 70”, explica Julio de Faria.

MODO DE ALÍVIO E ESCAPISMO

Para muitos entrevistados o principal motivo por continuarem na prática é o estresse e a rotina do dia a dia. Para Beatriz Neves tudo piorou e se intensificou quando estava no cursinho. Afirmou que o ambiente hostil e todo o esgotamento que aquele universo proporcionava a levou a se aprofundar mais no ato. Ellen Tiberio, 31, acabou de concluir a graduação em Relações Públicas. Anteriormente tinha feito o curso de Rádio e TV e afirma que assim que acabou sua primeira faculdade tinha conseguido parar de fumar. Isso foi em 2008. Até que em 2016, quando estava na época do trabalho final do segundo curso, voltou a fumar para lhe trazer alívio. Ela conta que nessa época quase tudo o que poderia ter dado errado de fato deu e isso aumentou seu nível de estresse, fazendo com que usasse o cigarro para relaxar.

Escapismo é um outro substantivo usado por alguns que mantém a prática na sua vida. “Alguns nomes de hoje em dia da filosofia são totalmente contra qualquer tipo de escapismo. Você tem que aceitar a vida como ela é”, reflete Eliakim, que não enxerga influência do curso em sua dependência — como ele mesmo entende — do ato de fumar.

Além disso, um grande número de pessoas associam o cigarro às bebidas alcoólicas. A tensão da universidade aliada a liberdade que se obtém em todo o ambiente dentro e fora, com bares e festas, acaba fazendo com que diversos estudantes fumem apenas quando estão bebendo, pois entendem que é uma combinação agradável.

O RISCO À SAÚDE E AS LEIS ANTIFUMO

“A maior prevalência de problemas respiratórios relacionados com o tabagismo é na faixa etária após os 50 anos. Tanto no desenvolvimento de doenças pulmonares, como no sistema cardiovascular”, explica Liliane Marcon, fisioterapeuta cardiorrespiratória. Sobre os jovens fumantes, ela frisa que as enfermidades decorrentes do uso do tabaco, em sua grande maioria, não vão se manifestar tão cedo, mas a projeção é que isso ocorra paulatinamente conforme forem envelhecendo. Dos males causados pelo tabagismo, o principal deles é a DPOC (doença pulmonar obstrutiva crônica). Estima-se que cerca de 3 milhões de pessoas morram por ano devido à patologia. Além disso, cerca de 600 milhões de pessoas já contraíram a DPOC em todo o mundo. Liliane deixa claro que o fumo não é o único causador da doença, mas insiste que os outros fatores são mínimos quando comparados ao ato de fumar.

A especialista entende que não falta conscientização sobre o tema, já que desde 1996 diversas medidas têm sido tomadas por parte do Governo para mostrar com clareza os malefícios da prática. Nesse ponto, o Padre Antonio Iraildo, diretor da Faculdade Paulus de Comunicação (FAPCOM), vê que as leis antifumo são fundamentais para o desaceleramento do número de fumantes. Em sua visão, as campanhas fazem certo ao usarem do elemento assustador para evidenciar os riscos. “Tem que dizer que faz mal, não pode esconder. Tem que mostrar!”, pontua o acadêmico. Seu local de trabalho ainda não realizou nenhuma campanha específica contra o tabagismo e, por isso, entende que a instituição está devedora nesse quesito. Mas fez questão de ressaltar que os problemas com desobediência às leis antifumo são mínimas, sendo apenas poucos casos isolados de alunos que fumam dentro das dependências do campus. Tanto Liliane quanto Antonio, são defensores das políticas públicas implantadas pelo Governo para restringir o fumo em diversos locais. Ambos entendem que o ponto mais importante dessas leis é que elas enaltecem o respeito ao outro. Levando em consideração que apenas um terço da fumaça inalada fica com o usuário direto e o resto é jogado no ar, a questão que vem à baila é a dos fumantes passivos, que podem contrair as mesmas doenças que os ativos. Sem contar no forte e desagradável odor que fica nas roupas e no corpo daqueles que não coadunam com a prática.

A sobretaxação do cigarro, as fortes imagens nos maços e outras medidas têm sido pautas constantes nos debates entre os políticos e população. Embora haja uma queda significativa de fumantes no país, o certo que pode se esperar é que mais mortes e mais doenças virão enquanto o cigarro continuar a ser consumido em larga escala.

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