O encanto pela banalidade…

Bastidores do filme “Cavaleiro de Copas”

Um dos grandes dilemas de qualquer escritor é achar um assunto que valha a pena discorrer sobre. Um romancista tem o olhar mais voltado para assuntos maiores e temas que possam ser relevantes em debates ou no próprio entretenimento. Um jornalista tenta ater-se a fatos e procurar estar o mais próximo possível da veracidade. O poeta está sempre em uma realidade superior tentando observar o substrato de toda a vivência. Já o cronista tem como fonte principal suas experiências diárias muitas vezes banalizadas por grande parte das pessoas.

Descobri nas crônicas uma beleza singular. A beleza do cotidiano. A beleza do banal.

Fui guiado ao encanto pelo banal através do cinema. “A Grande Beleza”, de Paolo Sorrentino, mostrou-me que ambicionar por um momento em que tudo fará sentido e te dará inspiração pode ser uma busca eterna pelo nada. Esperar demais por um diálogo epifânico entre duas pessoas excêntricas pode tirar o foco de uma simples olhadela de gratidão de uma senhora cansada com duas grandes sacolas na mão após ter sido permitida sentar em um lugar que estava ocupado.

Todavia, o filme que mais me mostrou a importância de nossas visões diárias foi, com certeza, “Cavaleiro de Copas” do misterioso Terrence Malick. Acho que de todos os filmes que já vi na vida, esse é, com certeza, o mais odiado. A película é assustadoramente etérea, não linear, abstrata e meio absurda, fatos que despertam o ódio de muitos. Só vendo para entender.

Às vezes perdemos tanta coisa boa só esperando algo grandioso e deixamos passar a beleza da trivialidade. É observar o cabelo de alguém se mexendo. Andar em um dia ensolarado olhando para cima e ver o contraste do céu azul com o verde das folhas e o escuro dos galhos. É ver o sofrimento de alguém através de suas expressões faciais e das mesmas expressões, ver uma alegria incontida.

“Música é muito importante. Ela me ajuda a me apaixonar. Eu me apaixono 20 vezes ao dia”, já diria Tonio, personagem de Antonio Banderas em Cavaleiro de Copas. Acho que, no fundo, nós sempre buscamos viver uma vida meio fílmica. Necessitamos de uma trilha sonora para levarmos a existência. E nesses pequenos momentos de banalidade a música pode trazer uma ressignificação impressionante das cenas diárias.

Como já disse em outro texto, há beleza na tristeza. Mas não apenas nela. Há beleza no comum. Como diria Björk “Não há definitivamente lógica alguma para o comportamento humano. Mas ainda assim, tão, ainda assim, tão irresistível”. Hoje em dia descubro que qualquer dia de vida pode render um texto, uma reflexão e uma crônica.

O banal é lindo assim como o grandioso é lindo. Mas o banal é mais corriqueiro. O grandioso pode nunca acontecer. É como li há um tempo sobre uma frase que falava que tanto o dia ensolarado como o nublado são bonitos, cada um como é. Acredito nisso e levo isso para vida.

Se escrevemos sobre o momento, escrevemos sobre tudo. O momento é tudo o que temos. A única certeza palpável. Em dias de esvaziamento de significados e fim das grandes narrativas, temos uma fonte inexaurível de experiências apenas usando nossos sentidos mais rudimentares.

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