O testamento de Iggy Pop em “Post Pop Depression”
Existe uma ideia disseminada de que não há mais rockstars no mundo moderno. O decaimento do rock como se conhecia é notório e observável pelas próprias plataformas digitais com suas músicas mais vendidas e tocadas. Entretanto, um senhor de recém completados 70 anos, conhecido como Iggy Pop, mostra que os rockstars podem estar velhos, mas ainda são lendas vivas. O último álbum do cantor, “Post Pop Depression”, de 2016, mostra a força descontrolada de um jovem preso a um corpo mais velho.

O último trabalho do cantor estadunidense tem uma sonoridade híbrida entre o estilo que o consagrou no The Stooges e um rock mais moderno. Para tal, Iggy se valeu da produção e da habilidade musical de Josh Homme, do Queens of the Stone Age, além de Dean Fertita da mesma banda e da bateria de Matt Helders, do Arctic Monkeys.
O disco começa já no seu auge. “Break Into Your Heart”, um som que mistura agressividade e cadência faz as honras de uma digna música de abertura e dá o tom de como será o resto das canções. Um dos destaques fica para os últimos segundos quando o artista canta o refrão sozinho sem instrumentos. Que voz! “Gardenia” vem logo em sequência como hit máximo e melhor música do álbum. As guitarras cheias de efeitos com reverb, tremolo e com frases interessantes, vêm com toda força para coroar um refrão cantado com a belíssima voz grave de Iggy Pop. A bateria simples e marcante de Helders combinam com as malucas frases do baixo de Homme e fazem dessa a mais poderosa composição do álbum.
A amargura de “American Valhalla” se faz presente logo nos primeiros versos e parece inaugurar uma parte mais sombria do álbum, com letras mais densas, psicodélicas e desesperançadas. Ele toma emprestada a figura do Valhalla, oriunda do paganismo nórdico, que seria o salão dos mortos, para se expressar com voz trêmula: “Onde está o Valhalla americano? A morte é uma pílula difícil de engolir”. “In the Lobby” vem logo em seguida e pouco marca os ouvintes, talvez sendo uma das duas músicas mais fracas do trabalho. Os toques graves da bateria indicam o começo de “Sunday”. É o ponto de ressurgimento que junta uma ótima melodia, com um marcante e uma vibe dançante com a melhor letra de todo o álbum. Baixo, bateria e voz entram em um lindo casamento aqui e o que temos é um dos pontos altos de todo o disco.
“Vulture” vem logo em seguida e quase desanima o ouvinte. É com certeza a pior composição de toda a obra. Música arrastada em uma tentativa de ser sombrio que funciona muito mal. “German Days” é uma música estranha que também não chama tanta atenção, mas que ainda é mais audível do que sua anterior. Talvez o que seja interessante fique exatamente por conta que parecem existir três canções dentro de uma, há uma mudança brusca de clima entre as partes e, por mais que não seja ótimo, é, pelo menos, interessante. Parece que não houve tamanho empenho das partes envolvidas para fazer algo mais interessante nesse “vale” do disco. Ao fim dessa composição começamos a voltar a subir a montanha rumo ao topo com a ótima “Chocolate Drops”. Única peça que se aproxima de uma balada chama atenção por ser diferente do resto do álbum, não ouvimos Iggy nas oitavas mais baixas que seu vozeirão alcança. O piano simples e a guitarra em slide dão um tom diferente, mas não menos amargurado nessa subida rumo ao topo.
Chegamos mais uma vez no ápice do álbum com a última música “Paraguay”. Há rumores desde o ano passado de uma aposentadoria de Iggy Pop do cenário musical. Sua última composição desse disco parece endossar ainda mais a ideia. Talvez a letra mais amargurada e cansada do cantor com um longo discurso no final parecem estranhamente sinceros e melancólicos. “Paraguay” começa com um acapella um tanto sinistro até entrar uma guitarra sem muita força até que Iggy começa sua letra com “Eu estou indo para onde os perdedores vão para me esconder e gastar meu dinheiro”. O ponto mais melancólico e até mesmo revoltado do estadunidense com quase 50 anos de carreira. Acompanhar sua fala no final enquanto a música vai crescendo em intensidade é uma experiência ímpar e deixa o ouvinte preocupado, fascinado e extasiado. Se foi, de fato, uma despedida, foi diferente do que todos esperavam. Enquanto outros titãs do rock saíram gratos a todos por tudo o que se passou, Iggy cansou e não faz a menor questão de esconder isso de ninguém.

“Post Pop Depression” é o testamento digno de uma lenda. Com músicas que vão desde ótimas até bem medianas, vemos um Iggy que parece ter entrado em depressão após o fenômeno do pop, como o próprio título sugere de forma magnífica. Com um começo até em certo ponto otimista, o álbum parece que vai se aprofundando em melancolia e revolta até seu final apoteótico. Um trabalho para nunca ser esquecido ou ignorado, afinal, Iggy Pop não é só mais um no mundo da música.
