Uma coisa bonita…

“Não houve crucificação, apenas mentiras para roubar sua mente”, assim começa a segunda música inédita do Stone Roses desde o começo dos anos 90. Conhecidos por serem os “pais do britpop”, a banda de Manchester é considerada uma das mais notáveis e importantes bandas da Inglaterra. Talvez sem muito prestígio no Brasil, os caras revolucionaram o jeito de fazer música e trouxeram a cara britânica para suas composições.

Beautiful Thing” é o nome do single lançado em 2016 e a única sensação que você tem ao ouvir o som é de que os anos 90 estão de volta. Incrível como todo aquele ambiente e proposta da banda continuam intactos. O som cheio de reverbs, ambiências loucas e psicodelia reflete um passado (e talvez um presente) cheio de drogas e loucura.

Loucuras inglesas

Dada essa introdução básica, foco agora em uma experiência particular. Em um grupo de whatsapp chamado Transtornelson, foi combinado um rolê para beber e fumar maconha na Praça do Pôr do Sol, em Pinheiros. Cheguei mais cedo que o combinado e levei uma garrafa de cachaça Terra Brasilis. Encontrei um amigo lá e começamos a beber um pouco do Dreher que ele havia levado. Chegamos bem perto da hora da queda do astro luminoso. As pessoas, como de costume, deitadas e sentadas no chão da imensa praça aplaudiam e gritavam para o sol devido a sua beleza irradiada.

Conversávamos e um baseado foi bolado às pressas, pois a ânsia de fumar era grande. “Eu bebo é pra ficar louco mesmo, porque o gosto disso aqui é uma bosta”, disse Bizão enquanto segurava o beck com uma mão e dava uma golada no Dreher com a outra. Beck bolado, bora fumar! Fumamos, com muita gente em volta, mas o baseado ficou só com a gente.

Após uns bons tragos no tarolo estávamos mais calmos e aproveitando melhor a sensação do momento. Chega mensagem no celular do Bizo: “tamo aqui do lado da escadaria”, era o Jesonha, Sbrana e Ingryd que tinham chegado e o céu já estava escuro. Como não poderia deixar de ser, permaneci com meu óculos de sol mesmo na penumbra da noite.

Encontramos o pessoal e lembro de cheguar falando “mano, eu tô muito louco”. Rimos e fomos sentar bem na descida da praça, no meio da grama. Era uma colina considerável e nunca toparia ficar ali se estivesse sóbrio. Sentamos e começamos a conversar, beber e fumar mais maconha. A noite estava agradável. Vestia uma camisa xadrez sobreposta a uma camiseta branca básica. Conversa vai, conversa vem e logo um estalo vem à minha mente.

“Eu preciso ouvir Beautiful Thing chapado!”. Era a única coisa que conseguia pensar. Sorte que estava com a mochila que tinha deixado as garrafas de bebidas e meu fone lá também. Lembro de estar sentado por último à esquerda e falei pro Sbrana: “mano, me dá alguns minutos aqui porque quero brisar em um som”.

Não me sinto uma pessoa muito boa com as palavras e sei, desde já, que não conseguirei transmitir 1% do que senti naquela hora. Coloquei o fone, enfiei bem fundo no meu ouvido, procurei a música e soltei. Aumentei o volume no máximo e mesmo depois de estar no talo eu ainda ficava apertando para cima numa esperança vaga de aumentar ainda mais.

Começou! A maconha deixa seus sentidos para a música muito mais aguçados. A bateria do começo parecia ter uns 10 metros de altura e parecia estar microfonada com os melhores equipamentos do mundo. A batida simples, forte e largada começou a entrar na minha mente de um jeito que nunca tinha experimentado. Aquilo que me causou um leve prazer e fez brotar um tímido sorriso no meu rosto.

Com os olhos fechados, a música vai progredindo e tudo acontece de uma vez: a icônica frase do começo do texto entra junto o contrabaixo de Mani e as frases simples da guitarra do John Squire. Uma explosão! BOOM!

Começo a tremer. O sorriso vai ganhando proporções maiores. Cada nota dada por Mani nas cordas do baixo é um pedaço da minha pele que salta no meu braço. Em poucos segundos começo a sentir a energia subindo e descendo na minha perna, no ritmo da música. O misto de sensações até me assusta. É um orgasmo sem que nenhuma reação sexual visível ocorra no meu corpo.

Meu sorriso está incontido. De orelha a orelha. Meus pés tremem como se estivesse com o esquerdo no pedal do ximbau e o direito no bumbo. Sinto algo batendo na minha perna. Percebo que é insistente. Ainda com os olhos fechados, apenas levanto as mãos e faço sinal para esperar. Parece que a pessoa entende e para de insistir.

O mais impressionante é seu senso de tempo que muda com a erva fazendo efeito em você. Os sete minutos da música pareceram duas horas. E isso não é uma reclamação. Foi a sensação de estar por duas horas no nível mais elevado de espírito que minha vida já presenciou.

A música vai acabando. Ela termina da mesma forma como começa: apenas a bateria em uns compassos na mesma batida simples e largada da música toda. Passaram-se sete minutos. Os sete melhores minutos de todos os meus 26 anos. Os melhores sete minutos da minha vida. Naquele momento o que sentia é que estava sendo curado por dentro. Como se de repente nenhuma das questões que me preocupavam importassem mais. Como se eu estivesse em um nível acima da realidade, em uma dimensão onde tudo o que importa é apenas o prazer.

Após o término, tirei os fones do ouvido, olhei para o lado e percebi que quem tinha batido na minha perna era o Bolinho, famoso Rei dos Paivas. Tudo acontecia em ordem. Num repente, a paz que já existia no local ficou ainda maior e vi que, sim, vivemos desses momentos em que tudo se encaixa e tudo faz sentido até voltarmos à dureza da realidade. É o que nos dá forças para aguentar o período subsequente de aridez até a próxima epifania, que é o que faz a vida valer a pena.