Criando ambientes coletivos para a produtividade

Por Carolina Bernardes, postado originalmente no medium.com

Para o mundo que eu quero escrever? Muitas vezes tenho vontade de fazer isso, congelar o tempo, as pessoas e as vezes até as vontades da natureza para eu poder fazer o que amo: escrever. Nunca consegui a proeza. 
 
 Ao contrário, o mundo a minha volta, parece que está sempre querendo brincar com a minha determinação de acordar cedo, trabalhar 4 horas no livro ou mesmo terminar as ‘’lista de afazeres’’ do dia.

No meu aprendizado viajando, mudando constatemente de ambientes, percebi que tem lugares em que sou mais produtiva, as pessoas a minha volta também e juntos conseguimos nos ajudar sem fazer grandes esforços. Cada um no seu limite, cada um oferecendo o que pode. Todos tentando cumprir os combinados.

A residência criativa Open Oca é um espaço coletivo com o objetivo de servir os residentes para eles poderem trabalhar nos seus projetos. Na prática, isso significa, que foram pensadas rotinas e atividades para que as necessidades básicas de todos sejam atendidas. Como necessidades básicas, o projeto entende: casa e comida. Por ser um projeto colaborativo e voluntário, a casa não é a casa-da-mãe onde o filho tem mutia liberdade e é um pouco mimado, como também não é um hotel, onde o ‘’cliente tem sempre razão’’. Talvez a casa se pareça mais com um hostel misturado com um couchsurfing, onde eles não existe diária, mas existe um ambiente coletivo e regras.

A agenda da casa gira em torno da cozinha que oferece três refeições para o residente. 
 Café: 8:30–9:30
 Almoço: 13:30–14:30
 Jantar: 20:00
 
 A cozinha fica disponível para que cada residente possa cozinhar a sua comida (caso queira comer algo especial), as únicas restrições de horários são 12:00- 14:00 (estamos preparando o almoço) e 19:00–20:00 (estamos preparando o jantar). Além disso, todo residente tem um espaço no armário e geladeira para guardar suas próprias guloseimas.

Além desses horários, existe uma programação paralela de exercício: yoga e meditação as 8:00 e as 17:00 que está ficando cada vez mais frequente. Além disso, uma vez na semana alguma caminhada pela região, cinema na casa, encontro literário… uma agenda que estamos construindo colaborativamente, mas que o residente pode optar por não participar. Assim como as refeições.

Um dos príncipios da casa é que não cobramos de ninguém a hospedagem, nem a comida. Sugerimos uma contribuição de 30 euros para a energia elétrica e água, que é uma doação ao projeto. Ao final, pagamos as despesas, mas não queremos que o dinheiro seja um impedimento para alguém participar, nem queremos que dar mais benefícios aos privilegiados. Não importa quanto dinheiro doou ao projeto, o tratamento será o mesmo.

Optar por uma residência colaborativa significa escolher a abundância de pessoas, projetos e acolhimento. Ao mesmo tempo, escolhemos ter menos privilégios, economizar energia, cuidar das despesas da casa, regrar a internet, definir horário para ligar o aquecedor elétrico do banho e usar a máquina de lavar somente quando estiver cheia. Ganhamos de presente o aluguel e vários concertos na casa, além de sempre receber presentes da comunidade. Mesmo assim, precisamos cuidar do coeficiente da financeiro.

Abundância da casa

A casa oferece abundância de tempo para o residente, pois as únicas obrigações são: cuidar do próprio quarto, lavar a própria louça e deixar os espaços coletivos como encontrou. Além disso, os quatro andares da casa oferecem variados espaços para trabalhar, ter silêncio e se concentrar não é um desafio. A comunidade é muito receptiva, tem a casa da vizinha que oferece o wifi quando precisamos e também o Tabachi do Vincenzo que sempre está aberto para uma boa prosa e um café expresso. Tem a Fontanella com um café e restaurante de tirar o fôlego por um preço justo, o agriturismo La Banera da Maria pra alguém entender a cultura campesina da região e comer toda a comida italiana que tem direito.

A organização da casa e limpeza de 4 andares acontece aos poucos ao longo da semana; Num ambiente coletivo, os espaços abertos são sempre os mais cuidados e com mais regras, pois a liberdade de um, não pode atrapalhar o trabalho do outro.

Aqui não é um hotel com serviço de casa, onde todos os dias os banheiros e os quartos estão arrumados. Talvez essa demanda surja, assim como a oportunidade de ter mais voluntários. Cuidando dos ambientes.

Como anfitriã da casa, além de cuidar da cozinha, organização, limpeza… ofereço também uma reunião de orientação no projeto de cada residente, assim como uma adaptação da casa as necessidades de trabalho (quarto individual, ambiente individual para trabalho, espaço para reuniões…).

Confesso, que demorei uma semana desde que a casa abriu para conseguir cumprir esses horários, adaptar e ir criando esses ambientes. Criar rotina e hábitos exigi muita disciplina e no começo não é fácil pular da cama cedo. Após uma semana conseguindo praticar yoga e meditar todos os dias e manter os horários das refeições, estou muito feliz com o resultado e sinto que a produtividade reina na casa.

Acredito que para o residente saber os horários e regras da casa são importantes para focar no seu próprio trabalho e não terem surprezas. O residente não precisa seguir as rotinas da casa, mas as rotinas da casa oferecem ao residente um ambiente amigável e sem surpresas.

Hoje consegui meditar, fazer yoga, trabalhar na casa e agora estou escrevendo esse texto. É todo um processo de construção. Mais do que propor, precisei essa semana abdicar de algumas vontades, comodismos e indisciplina e colocar toda a energia em fazer a casa acontecer, abrindo a casa para a comunidade com workshop, cinema e café, além de preparar para receber a Cintia, primeira residente, na nesta quarta-feira, dia 8\06 e mais 3 residentes na próxima semana (Greta, Mirko e Izabele).

Toda essa organização e metodos não teriam acontecido sem os anos sendo recebida na casa das pessoas, entendendo o esforço de cada pessoa em anfitrionar e oferecer o seu melhor. Nos últimos 10 dias, a participação na casa da Priscila Cotta e Vânia São José, foram fundamentais para a construção desse ambiente. Com todos os erros e acertos que fazem parte desse processo de construção.

Se tiver alguma ideia ou sugestão de como tornar ambientes coletivos mais propícios a produção criativa, compartilhe com a gente!

Se quiser saber mais sobre o projeto Open Oca: openoca.org

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