FOI ASSIM QUE SE CONHECERAM

Estava sentado em uma pedra de frente para um canal, ouvindo Dope Lemon, quando observou uma garota olhando para ele. Ela tinha os braços fechados com tattoos de piratas e vestia camisa silkada do Trilöbit, bermuda jeans com desenhos feitos com caneta bic e all star preto de cano baixo. Tinha cabelos negros e pele branca, e também estava, tentando, ler um livro. Era quinta-feira, fevereiro, quase dez horas da manhã e véspera de carnaval. Por um breve momento, o entorno daquele trapiche, onde ele esperava uma embarcação com destino a uma ilha, pareceu-lhe magicamente vazio e atemporal. Havia duas famílias, alguns velhos gordos, bebendo cerveja em um banco na sombra de um monumento e, do outro lado da rua, crianças brincavam na frente de um prédio histórico com grandes portas de madeira.

E a poucos metros daquela pedra, uma mulher, com jeito sapeca, encostada em um coqueiro, com um livro nas mãos.

Ela ergueu o olhar e o viu. Uma expressão de dúvida se fez visível em seu rosto. Ela olhou novamente para o seu livro; olhou novamente para ele e fechou o livro tirando o pé esquerdo que estava apoiado no coqueiro…suspirou e encostou-se no tronco do coqueiro novamente, encarando-o.

Ele levantou, segurando seu próprio livro, e caminhou com passos seguros na direção dela. Com sorriso sincero no rosto e tom agradável, ele disse: “Oi, você tem isqueiro… a gente se conhece de algum lugar?”

“Não,” disse ela. Mas você tem um baseado ai que eu sei… né?”. O sorriso foi sincero.

“Sim, eu tenho”. Tirou os óculos escuros para olhá-la nos olhos.

Ela respondeu com um sorriso incerto e não o olhou nos olhos, exceto por um breve instante de momento em que tentou interpretar o termômetro de suas intenções. Era obviamente o tipo de garota que não conversava com qualquer cara estranho em um trapiche no litoral.

“Quando te vi, pensei ver alguém do passado”. Disse ela jogando o livro em cima de uma mochila no chão, e em seguida colocou a mão no bolso de trás da bermuda para tirar o isqueiro.

Ele pegou o pequeno clipper preto da mão dela com um sorriso e aceno de cabeça. Colocou os óculos novamente e acendeu o baseado fazendo certa pose. Ela tirou seu celular do outro bolso de trás e após poucos segundos lhe mostrou uma foto. Ela estava com calça jeans rasgada, jaqueta de couro, camiseta do Rock Rocket e cabelos loiros com corte estilo Kim Gordon. Ao lado dela um velho romance de olhos negros e olhar perturbadoramente assustado.

“Esses tais começos inconscientes podem gerar caos em profecias futuras”. Disse ela, devolvendo-lhe o baseado.

“Esses tais começos inconscientes podem ser rupturas no tecido do espaço tempo… prensou… podemos viver em um loop, sem nem saber…” Disse ele, tossindo e apontando com o baseado a embarcação que atracava no trapiche e os levaria para a mesma ilha.

Aquele momento seria relembrado por anos e anos. Uma pequena, e especial, fatia da linha do tempo da vida daquelas duas pessoas. Uma conexão improvável dentro da matemática incerta do universo.

Após alguns segundos de silêncio ela riu alto, e num movimento inusitado, pegou o livro que tinha e o levantou a poucos centímetros de seu peito; “Você autografa ele para mim?”disse ela com olhar tranquilo e lindo sorriso. Claramente imitando a genial Sweet Dee.

“Com certeza senhorita. Não sem antes lhe convidar para acompanhar-me neste trajeto de duas horas pelas temidas águas do atlântico sul.” Disse ele aos risos.

Já na embarcação, a caminho da ilha, bebiam cerveja quando decidiram ir para a frente da embarcação, para fumar cigarros e apreciar a imensidão do oceano. Histórias, risos e cervejas depois… Ele estava com o cigarro pendurado na boca, e ao pedir o isqueiro, solicitou também o livro que estava com ela. Puxou uma caneta de um dos bolsos da mochila e erguendo os óculos para revelar seu olhar levemente embriagado, perguntou: “Qual é vossa graça?”

“Ana… Ana Vellozzo, com dois “éles” e dois “zês.” Disse ela.

Ele escreveu rápido, sem pensar muito: Para Ana Vellozzo, a garota mais linda do trapiche. Ass: Felipe Pimenta. A data foi adicionada logo abaixo de sua assinatura, em algarismos romanos separados por traço.

“Agora você vai ter que roubar esse livro da biblioteca da sua cidade” Disse ele devolvendo o livro. “E falando em roubo, essa edição de “Junkie” é bem rara. Finalizou ele com sorriso levemente sem vergonha.

“Um dia eu vou viver em uma ilha, e viver dos meus livros. Quero vender livros em todos os lugares: Curitiba, Recife, Porto Alegre, Los Angeles, Tóquio e Sidney… hesitou por um momento… Nós dois vamos vender no mundo inteiro né porra!” Disse ela com sorriso embriagado.

Brindaram as futuras vendas e gargalharam muito, antes de conseguir dar um gole. Estavam escorados um no outro, quando ao final da crise de riso, ela percebeu que tudo aquilo era natural demais… Mais tarde, naquele dia, caminhando sozinho por uma trilha, ele pensou muito em como as coisas haviam acontecido de forma espontânea.

Ela conjurou uma imagem do destino, não cega de todo, mas equipada com visão além do alcance, sensível. Ali com os olhos fechados, beijando tão intimamente aquele desconhecido tão conhecido, ela entendeu parte de toda uma engrenagem quântica que prende mortais desamparados (e desprovidos de curiosidade). Tudo era uma grande pedra de moinho do universo fazendo pão para consumo da matéria negra.

CURTIU? AJUDA NÓIS, CURTE AI OU CRICA NO CORAÇÃO E RECOMENDE ESSE CONTO PARA QUE MAIS GENTE POSSA LER… MUITO OBRIGADO, PAZ E POSITIVIDADE PRA GERAL!

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