A busca pelo amor-próprio nos corpos de desconhecidos

Pergunto-me porque estou com dificuldade de escrever. Sinto-me vazio, inerte. Talvez tenha a ver com os últimos acontecimentos. Talvez tenha mais a ver ainda com as últimas mudanças de pensamento que eu tenho me posicionado. Também pode ter a ver com as tantas coisas que eu quero fazer, mudar, parar… Na verdade, é tudo junto. Mas eu estou em algum lugar. Sinto-me inerte, mas a inércia está em algum lugar. Um lugar que deveria ser o da mudança, o do processo… o da transformação. Talvez eu tenha iniciado mas, por algum motivo, entanquei… e por lá fiquei.

Ontem e hoje eu tive experiências de teor sexual com outros homens desconhecidos, em banheiros de shoppings. Costuma-se chamar de “pegação”. Na verdade, essas experiências transcendem o desejo sexual. Eu percebo que o desejo sexual, a vontade de ter essas experiências com outros homens está presente, faz parte… mas não por ela que eu gosto de participar dessa atividade. Curioso que eu não tinha esse hábito. E eu não quero tê-lo… eu não precisar disso, porque não me nutre. Não supre minha carência afetiva… pelo contrário, eu me sinto pior quando tudo acaba. Sinto-me descartável e fico pensando em quão insosso é esse tipo de experiência. Mas porque muitas vezes eu volto para lá? Porque eu insisto em viver essa experiência, de fazer sexo oral ou pegação com estranhos e em um ambiente público, como um banheiro de shopping?

Eu acho que sei o porquê. Sinto-me poderoso nessa experiência. O que me impulsiona não é sexo em si, é todo o contexto. É a troca de olhares, a aceitação do outro, a permissão e convite do outro em querer que eu lhe proporcione prazer. Que eu conheça a intimidade destinada exclusivamente a amantes, o sexo como produto final de uma relação completa de aceitação e troca. Sinto-me atraente, desejável. Saber que outros homens me consideram, me estimam. Saber que tenho o poder de incitá-los o desejo, de laçá-los em flertes ousados. Saber que posso seduzir e ser bem sucedido nisso. Saber que um homem me quer. Que sou aceito por alguém. Nem que seja para proporcioná-los a excitação e adrenalina de saborear a intimidade do outro no contexto do proibido.

É essa a motivação, que faz com que seja altamente tentador participar dessa experiência de novo. De chegar no banheiro, trocar olhares com outros homens e ficar me perguntando “Será que ele me quer?”. E, ao ver que sim, ele me quer… sentir-me vitorioso, como se tivesse conquistado um prêmio. E, quando ele estiver a fim de outros parceiros para a brincadeira sexual que não seja eu, entender que ele é igual a mim. Também está procurando por outros homens. Então, entra o próximo homem…. “Será que ele me quer? Será que sou atraente? Desejável?”. E então, o outro homem aceita. E eu quero provar para ele que farei valer a pena a sua escolha. Eu darei a ele o que ele quer.

Mas quando tudo acaba, e volto pra casa… sinto a minha vida triste, insípida e solitária. Buscar atenção de amigos é difícil, é exaustivo… é preciso conversar, e eu não sei conversar. E me sinto culpado em não saber conversar… e sinto que a outra pessoa prefere fazer outra coisa ou estar com outro alguém que não seja comigo. Na pegação do banheiro, é tudo mais fácil. Não é preciso dizer nenhuma palavra… apenas a troca de olhares. O corpo já diz tudo. Há uma sincronia intensa e perfeita… Eu sei o que o outro quer, ele sabe que eu quero, e entramos em acordo sem dizer nenhuma palavra. É fácil, é fluido. Intenso, mas fugaz. Pois eles não querem saber seu nome. Não querem saber quem é você… o que importa é apenas aquele fragmento de tempo. Uma esmola de atenção, de acolhimento, de aceitação. A pegação do banheiro é para onde vou para obter esmolas de aceitação. É onde eu sou o que sou, sem máscaras, e sou aceito por isso. Mas… eu não sou visto como sendo eu. Porque naquele ambiente, eu não existo. Eu sou um corpo. Uma matéria. Um corpo esteticamente organizado disposto a dar prazer gratuitamente. Não há um “sou”.

Não aprendi a obter a aceitação pelo caminho mais difícil, que são por meio relacionamentos profundos e significativos. Estou enganando a mim mesmo, fugindo da raiz do problema. Eu fujo das pessoas, dos relacionamentos… e quando me sinto sozinho, fujo para obter satisfação no poder que há em ser capaz de conduzir homens a aceitar o prazer proporcionado pelo meu corpo. Eu sirvo para alguma coisa. Alguém vê algum valor em mim.

Eu busco esmolas de valorização. Mendigo, por meio do sexo com desconhecidos, um reforço de que eu tenho algum valor. Uma valorização que não tenho por mim mesmo. Vou lá buscar praticamente dizendo “mostre-me que você gostou de mim e que vai me permitir proporcionar prazer a você. Eu tenho valor, deixa eu provar pra você”.

Eu tenho valor lá, naquele ambiente. Pois fora dele… Eu não aceito o valor que as pessoas me dão. Por meio da pegação no banheiro, eu provo para mim mesmo que sou incompetente. Pois eu não vejo esse valor em mim…

Será que sou capaz de buscar uma nova maneira de me relacionar comigo mesmo? Buscando o que quero, de verdade, na minha essência… sem ir por atalhos? Ou fast-food afetivo/sexual? Por onde devo começar?

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