A Entidade nas interações sociais e relacionamentos

Há alguns dias, eu estava estudando o livro sobre assertividade. Um ponto do livro chamou minha atenção: o péssimo hábito que alguns têm de tentar adivinhar o pensamento e o sentimento das outras pessoas. Eu tenho esse hábito e realmente é péssimo. Ao interagir com uma pessoa, eu já fico logo preenchendo “lacunas” sobre o que o outro está sentimento ou pensando sobre mim.

No trabalho, às vezes preciso falar com minha líder sobre alguma dúvida que tenho ou problema que surgiu. Só que fico com medo de interrompê-la, pois sei que ela está cuidado de muitos outros problemas e provavelmente está sobrecarregada. Além disso, ela me colocou nessa posição justamente para resolver esses problemas e dividir o peso. Aí estão as duas pressuposições que fiz sobre a minha líder: que ela está ocupada demais para me ouvir; que ela espera que eu resolva os problemas sozinho. E paralelo a essas pressuposições, existem duas crenças: a de que não sou digno de ser ouvido, ou de que aquilo que tenho para falar, por ser eu quem está falando, não é importante; e a de que eu sou responsável por resolver os problemas de outras pessoas.

O que percebi é que as pressuposições que faço sobre o que as outras pessoas pensam e sentem em relação a mim refletem o que eu penso sobre mim. Sem nenhum tipo de reflexão sobre dados e fatos, eu acabo atribuindo ao outro suposições que tenho sobre mim e reajo a isso. Crio uma imagem na minha mente sobre o outro, mas que não é o outro. Ou seja: as minhas interações com os outros não são com o que os outros são, mas com aquilo que eu acho que eles são, baseado no que penso sobre mim mesmo.

E existe um ponto em comum em todas as interações: as premissas são as mesmas, independentemente de quem eu esteja interagindo. Por exemplo: a crença de que aquilo que tenho para falar não é digno de ser levado a sério faz com que eu pense que minha chefe se incomodará se eu interrompê-la para dar alguma informação; faz com que eu fique com vergonha de compartilhar com amigos e familiares sobre algo que aconteceu no meu dia; faz com que eu fique com vergonha de expressar minha opinião sobre um assunto quando penso diferente; faz com que eu fique com vergonha de iniciar uma conversa com alguém. Em diferentes situações, com diferentes pessoas, automaticamente atribuo o mesmo pensamento e sentimento como se fossem das pessoas. Mas eles são meus.

Quando percebi isso, fiquei confuso. Então criei imaginei um cenário para facilitar minha compreensão. Todas essas premissas que utilizo como a expressão do pensamento e sentimento das outras pessoas sobre mim são representadas por uma entidade. Essa entidade diz coisas terríveis, que machucam muito. Ela representa aquilo que eu penso sobre mim mesmo.

Essa entidade me persegue, distorcendo a fala e expressão das pessoas que interajo. Ela sabota as minhas relações, dizendo coisas desagradáveis sobre mim. Acredito que ela me odeia e sente prazer e me humilhar e me fazer sentir indigno de ser amado. Quando estou interagindo com alguém, a entidade surge na frente da pessoa. Ela é viscosa e transparente, dificultando a compreensão do que a pessoa está falando. Por vezes, a entidade simula na pessoa um semblante de irritabilidade, desgosto, indisponibilidade, falsidade, me fazendo acreditar que a pessoa não me considera e não se interessa em nada pelo que digo e faço. Ela não me diz coisas, mas cria um simulacro que confirma a grande maioria dos meus pensamentos negativos de mim mesmo.

Minha voz interna é quem traduz esse simulacro, recitando toda a sorte de coisas horríveis que nunca teria coragem de dizer para alguém, mas que repito para mim mesmo o tempo inteiro: “Você é um imbecil”, “Não sabe nem falar”, “Você é medroso, um covarde”, “Você é entediante. Não tem conteúdo, é um chato”, “Tá vendo, ninguém gosta de você. As pessoas interagem porque são educadas — elas estão fingindo gostar de você, estão sendo apenas simpáticas. Mas dentro do pensamento delas, querem estar longe de você”.

Isso me faz recuar. Fico triste e com medo de interagir com as pessoas, pois acabo me convencendo de que esses pensamentos são o que as pessoas realmente estão pensando, mas por serem simpáticas, não demonstram. Que loucura! Chegar ao ponto de ditar o que as pessoas pensam ou deixam de pensar sobre mim, sem considerar que elas são seres completamente independentes de mim, que tem pensamentos, sentimentos e opiniões próprias — aos quais eu não tenho acesso! Posso confiar apenas no que elas dizem, mas não posso fazer das minhas suposições verdades absolutas — são SUPOSIÇÕES, e são MINHAS suposições. Dizem muito mais sobre o que penso de mim mesmo do que das outras pessoas. Foram pressupostos sobre mim que acreditei durante muito tempo, mas que objetivamente não tem razão de ser, pois eles não podem se aplicar a todas as pessoas do mundo. Por exemplo: a crença de que “todo mundo me acha entediante” é completamente desprovida de objetividade e não condiz com a realidade. Quem é todo mundo? Será que eu posso afirmar todos os habitantes da terra me acharão entediante? Será que posso afirmar com toda a certeza que a pessoa com qual estou interagindo me acha entediante?

Acreditar que o meu interlocutor está me achando entediante me faz sentir medo de ser rejeitado. E, para evitar a rejeição, acabo adotando um comportamento de entretenimento para agradar a pessoa. E isso faz com que eu deixe de ser eu mesmo. Se eu sempre fizer isso, nunca vou saber quais pessoas gostam de mim como sou. Não me permitirei ser apreciado por ser eu, pois sempre vou impedir as pessoas de me conhecerem. Estarei me fechando para o mundo. Mais do que isso: além de acreditar em uma crença sem fundamentos objetivos da realidade, eu estarei sendo aquele que fará a crença se tornar realidade. Porque eu torno realidade dentro de mim no momento que adoto um comportamento que não é meu. Tomo as rédeas da realidade pela fantasia, atropelo o verdadeiro pensamento e sentimento das pessoas e taxo essa premissa como confirmada — tudo isso dentro da minha cabeça, sem me dar espaço para refletir e compreender que há pessoas que me acharão entendiante e também há pessoas que gostarão de quem sou. E também há momentos de tédio e há momentos de diversão. E que está tudo bem nisso.

Além disso, essa entidade só possui tamanha força porque eu coloco a minha felicidade na dependência da aprovação do outro. Em outras palavras, eu não me valorizo, não me afirmo, não me gosto. O fato de eu não acolher minhas imperfeições, qualidade, personalidade; de querer ser sempre outro, algo diferente de mim, idealizado com o propósito de agradar as pessoas (e, em última instância, ser amado) parte de uma crença básica: de que ninguém vai me amar sendo quem sou. Ao olhar objetivamente essa crença, vejo que ela não tem fundamento. Mas a única maneira de neutralizar seu poder é mostrando, por meio da realidade objetiva, de que eu posso ser amado sendo quem sou. E isso só poderá acontecer se eu permitir ser conhecido como sou.

O grande desafio está em ir contra a entidade e me permitir arriscar. É um caminho de enfrentamento. Com a consciência de que aquilo que penso que os outros estão pensando é apenas meu. Só terei acesso ao pensamento do outro quando ele for manifestado. Até lá, não posso atribuir um pensamento que o outro não manifestou. E com a consciência de que esses pensamentos vêm de uma falta de amor próprio me faz olhar para dentro e me resgatar. De entender o que está acontecendo comigo e me dar o suporte. Aprender a me amar. Fazendo assim, deixarei de depender da aprovação dos outros para nutrir minha felicidade. E o que os outros pensam não será mais tão importante. Ainda me afetará, mas não será o ponto de controle do meu comportamento e autoexpressão.

Ao observar que estou no desconforto do enfrentamento e na dor do crescimento, percebo que estou indo no caminho certo.