A liberdade do amor próprio

Minha irmã tem 16 anos e já é mãe. Estamos há uns 15 dias com um bebê recém-nascido em casa. Gravidez não planejada, fruto de uma relação fortuita que aconteceu no carnaval. O pai evitou contato ao saber da notícia. Um covarde. Eu e minha mãe conseguimos convencer minha irmã a evitar o aborto. Foi um choque quando descobrimos, mas já estava avançado. Demos todo o suporte necessário na gestação.

Mas a parte mais difícil é depois que a criança nasce. As trocas de fraldas, os choros berrantes, as noites de sono interrompidas. A amamentação que precisa ser feita a qualquer hora do dia. Tudo isso é uma mudança brusca de rotina, que chega a cansar, irritar. O problema não é o bebê, mas toda a logística que inclui em cuidar de um bebê. E quando a estrutura de vida da mãe não está formada, fica mais difícil ainda. Ter que interromper os estudos, ser impossibilitada de procurar um trabalho. Passar o dia inteiro dentro de casa, sem poder sair, cuidado de tarefas repetitivas e chatas. O recém nascido não interage de forma a compensar todo o esforço investido dia-após-dia. Tudo isso em um contexto não desejado: não estava nos planos de ninguém ter um filho. Mas agora é realidade.

Nisso tudo, há algo que me preocupa. Tenho medo de que toda essa pressão enfrentada pela minha irmã seja projetada no bebê, ao ponto de haver uma rejeição. E, dessa rejeição, surgir até maus tratos. O bebê não possui culpa de nada. E mesmo sendo difícil, é preciso tratar a criança com todo o respeito e afeto.

Não sei como lidar nos casos onde mães rejeitam seus filhos. No caso da minha irmã, tento compreender como deve ser a sensação de ter sua vida interrompida para cuidar de um ser que sabe apenas se sujar, mamar e chorar. A vergonha de se ver sem os estudos terminados, a impossibilidade de sair de casa e se divertir, o medo de saber que aquele bebê irá crescer e será sua responsabilidade para o resto da vida. Uma responsabilidade que não foi calculada. A conta chegou, e veio muito cara.

Isso me faz pensar no quão importante deve ser para ela a oportunidade de falar o que realmente está sentido. De regurgitar a frustração, o cansaço, a irritação. Porque guardar esses sentimentos dentro de si e posar de mãe perfeita não funciona. Uma hora explode, e de forma desnecessária. É melhor falar no continuum, pois abre-se espaço para o equilíbrio. A cura está na fala.

O problema é que minha família não possui o hábito de ouvir. As comunicações são, em grande parte, agressivas. O julgamento e a crítica vem antes do acolhimento. E por virem antes, não há acolhimento. Eu sofri com isso durante muitos anos da minha vida, mas nos últimos tempos tenho experimentado o quão libertador e refrigerador é ser ouvido. Ser verdadeiramente ouvido. Ter a oportunidade de falar sobre as coisas vergonhosas, os sentimentos feios, as desesperanças, o desespero. De tirar aquela massa escura de dentro do coração. De poder expor, olhar de frente. Durante os últimos anos da minha vida, conheci diversas pessoas que me ofereceram a escuta. E eu fui sendo curado e renovado de dentro para fora. Eu sei o quão importante e o quanto precisamos disso em nossas vidas. Por isso, um dos meus desafios e motivação para estar bem comigo mesmo é ser capaz de lidar com o outro. De oferecer escuta. De oferecer aquilo que foi transformador em mim: a escuta sem julgamento. E ser capaz de expor o que penso e sinto, na minha forma de viver a vida. E o primeiro espaço para implementar isso é na minha família.

Hoje a noite, notei minha irmã irritada e um pouco ríspida no trato com o bebê. Era notável que estava cansada. Eu também estaria cansado e irritado de estivesse no lugar dela. Ainda que fosse um filho meu, eu me sentiria assim. Mas, claro, não trataria meu filho com rispidez porque sei que ele está fazendo o que é próprio de um recém-nascido. É minha responsabilidade lidar com minhas emoções e sentimentos. Mas, no caso dela… não havia escuta. Minha mãe falou com rispidez para ela “E vê se tu trata bem a criança, pelo menos na minha frente. Porque ela é só uma criança”. Esse comentário, para mim, foi infeliz. O que minha irmã precisava era de descanso, de apoio. Quem poderá dizer o que passa na cabeça de uma adolescente de 16 anos que passa o dia inteiro trocando fraldas e dando de mamar? Quais são os medos, as angústias, inseguranças que foram se acumulando até deixá-la nesse estado de irritação? Quais são os pensamentos que convivem com ela o dia todo? Como ela lida com a mudança no corpo causada pela gravidez? São tantas coisas que a atingem, de tantos lados, que uma fala como essa da minha mãe se torna infeliz.

Eu estava lá no momento. Sei que penso diferente, e gostaria de falar a minha opinião. Mas não tive a coragem no momento. É o mesmo medo que eu sempre sinto quando lido com assuntos delicados. Eu tenho medo de falar alguma besteira e piorar as coisas. Ou de não ter nada pra dizer, de não conseguir dar apoio. Minha vontade é de ser parecido com aquelas pessoas que sempre dizem algo impactante, que conseguem mudar a sua maneira de pensar. E essa auto-exigência de ser assim me constrange, pois fico com medo de falhar, de me sentir um fracassado ao não conseguir oferecer uma experiência desse tipo. Até recentemente, eu sempre preferi me calar, por causa desse medo. De não saber como será a reação da pessoa, de ficar nervoso na hora da conversa… e sempre me sentia muito mal por ter me anulado dessa maneira.

Naquele momento, tive esse pensamento de não falar. Mas estou vivendo um momento novo na minha vida. Decidi que não iria mais me calar para ninguém. Eu iria falar o que penso e lidar com as consequências disso. Meu único compromisso é com a verdade. Lembrei-me então que nos meus momentos de angústia, o maior alívio que eu obtinha não vinha muito do que a pessoa me dizia ao compartilhar; mas da possibilidade de partilhar e de ser acolhido. O alívio vinha de ter alguém que me escutasse, que eu pudesse dizer “não aguento mais”. Onde eu não precisava me sentir envergonhado por expor que eu estava fraco, cansado e triste. Claro, também houve momentos que frases impactantes mudaram minha maneira de pensar. Mas, acima de tudo, eu também reconheço que a responsabilidade pela minha vida e das minhas escolhas é minha. Eu precisei me permitir ouvir e ser ouvido. Reconheço também que não sou responsável pelas escolhas da minha irmã e pela maneira como ela conduz sua vida. Mas a amo, e enquanto eu puder participar da vida dela, quero ser presente. Ser eu na vida dela, com tudo aquilo que sou: como penso, como sinto, como ajo.

E assim decidi falar com ela, sendo eu mesmo. Esperei ela se recolher na cama, e fui lá perguntar como ela estava se sentindo com a maternidade. No começo, ela disse que estava tudo bem. Mas eu sabia que não estava. Então, expus aquilo que eu achava que seria, os sentimentos mais “vergonhosos” em admitir: cansativo, irritante, etc. E a ouvi, sem julgamentos. Ela então revelou, com voz de choro, que está achando “horrível” a experiência. É horrível para ela não poder sair de casa. É irritante para ela ter que se acordar de madrugada com choro de criança. Ela não esperava que fosse ser assim. Não poder estudar, ainda mais quando ela recebeu a última nota que tirou em matemática: um 10. Estava orgulhosa por essa conquista, pois sempre teve dificuldades na matéria. Mas agora, se via impedida de prosseguir. Ela está no 8º ano, e a escola não está dando suporte para ela. Muito provavelmente, terá que repetir de ano. Ela está com medo, pois se vê sufocada por todos os lados com uma exigência eterna e constante. Ela falou que não se identifica com o bebê. Que ele irrita. Isso me deixou preocupado, mas eu deixei que ela falasse, sem julgamento. Então, tentei mostrar pra ela que tudo que está passando no momento é temporário. Que chegará uma fase em que o bebê dormirá a noite toda. Que ela conseguirá terminar os estudos. Apenas atrasará mais um pouco, mas conseguirá. E que a vida por si só já é tão pesada, que podemos nos permitir ser leves. Viver de forma leve. Levar na brincadeira, nos permitir aproveitar os momentos. E que se ela precisasse de qualquer coisa, eu estaria disponível, porque sei como é não ter ninguém para nos ouvir. Até brinquei dizendo “Pode contar com o psicólogo 24h”.

Eu me senti inseguro na conversa. Não sabia o que dizer sobre o distanciamento dela com o bebê. Mas eu foquei em deixá-la falar e apenas ouvir. Houve vários minutos de silêncio, onde eu não sabia o que dizer. Não quis ser invasivo, então fui até onde ela permitiu. Mas, pela experiência que tive na minha vida, sei que um pequeno momento como esse pode mudar toda a nossa experiência de sofrimento. Não sei se com ela será assim. Mas eu fiquei muito feliz em saber que eu posso finalmente me expor ao mundo, fazer aquilo que sempre quis fazer mas tinha medo, como de ser suporte para minha família. Não sei como ajudá-la, não sei como resolver a questão da escolaridade, mas eu acredito que iremos descobrir juntos como fazer. E naquilo que eu puder ajudar, no que tiver ao meu alcance, eu farei.

Mas preciso lembrar a mim mesmo que também preciso cuidar de mim, e muito bem. Esse momento que tive com ela já foi resultado de um profundo processo de reencontro comigo mesmo, auxiliado pelo psicólogo Rafael, e do conhecimento de assertividade. Devo lembrar a mim mesmo que, por mais que eu me preocupe, queira ajuda-la e me disponibilize, ela é responsável pela vida dela e precisa assumir essa responsabilidade. Da mesma forma, eu sou responsável pela minha vida e preciso assumir essa responsabilidade. Só vou conseguir ser um apoio para alguém se eu estiver inteiro comigo mesmo e cuidando bem de mim. E também reconhecer que não sou super-heroi. Há momentos que estou fraco, frágil e tem muitas coisas na minha vida que não sei como lidar. Há muitos pontos que preciso trabalhar e desenvolver. E que eu preciso de apoio também. Preciso de alguém com quem eu possa conversar. E é difícil para eu fazer essa separação, pois tenho a tendência de focar nos problemas alheios como forma de fugir dos meus próprios problemas. A premissa é que estou tão ocupado fazendo “o bem” para o outro que é legítimo me deixar em segundo plano. E enquanto isso, estou desmoronando por dentro. Até chegar o ponto de que não aguento mais e caio. Não quero que isso aconteça de novo.

Por mais egoísta que possa parecer, eu cuidarei de mim primeiro. Minhas necessidades vem antes das dos outros. Depois cuidarei do outro, dentro das minhas condições e daquilo que estiver ao meu alcance. Oferecerei apoio, mas não assumirei a responsabilidade pelo outro. Deixarei que o outro amadureça ao assumir aquilo que é dele. Não é fácil fazer isso, pois a auto-crítica é forte, dizendo que estou sento egoísta e insensível. Mas venho fazendo isso e experimentando exatamente o contrário: quando cuido de mim primeiro e estou bem comigo mesmo, consigo verdadeiramente me interessar pelo outro e ajudá-lo de tal maneira que não conseguiria se eu estivesse em pedaços. Quando estou bem comigo mesmo, não quero bancar o super herói. Pois quando faço isso, estou na verdade tentando compensar, por meio de boas ações auto-sacrificadoras, uma auto-imagem negativa ou uma baixa auto-estima. É. na verdade, um ato egoísta: ajudo o outro para melhorar a visão que tenho de mim mesmo; o interesse está em mim. E quando me auto-sacrifico, assumindo a responsabilidade pelo outro, estou colocando-o em minha dependência. Sinto-me grande, útil. O lado negativo é que ajo como se a outra pessoa fosse incompetente para cuidar da própria vida e por isso precisa de mim, o grande salvador, para resolver seus problemas. Assumindo a responsabilidade alheia, eu tiro o direito delas de amadurecer, de aprender a viver e lidar com os golpes da vida. O verdadeiro interesse faz o contrário: acredita no potencial da pessoa e deixa que ela lide com seus próprios problemas. Fornece apoio caminhando junto com ela rumo ao crescimento, amadurecimento, ajudando nos momentos de fraqueza e solidão, dando-lhe recursos materiais e emocionais até que ela consiga se fortalecer e caminhar de maneira autônoma.

Ainda não consegui trazer para a prática de maneira integral essa compreensão que estou construindo atualmente. Mas é algo que quero nutrir em mim. É uma premissa nova que estou vivendo. Não pensava dessa forma antes. Isso é realmente novo pra mim. Quando me sinto perdido e desconectado no conflito entre as novas e velhas premissas, eu retorno para essas três palavrinhas: verdade, humildade e amor. Juntas, elas formam os fundamentos daquilo que quero viver em minhas relações.

Confesso, é difícil. Mas não precisa ser fácil. Basta valer a pena.