Compromisso e liberdade

Às vezes começo a me sentir cansado de viver. Acho que essa sensação acontece com todo mundo, em vários momentos da vida. Afinal de contas, é difícil viver. É como se fôssemos um malabarista tentando manter o equilíbrio, não deixando as bolinhas cair. Mas o meu cansaço se dá no sentido de querer desistir do esforço de mudança quando não se está tendo um resultado. Ou pelo menos aparentemente. Porque a sensação é que o esforço é eterno; que ele precisa estar acontecendo o tempo inteiro para que a possibilidade de alguma mudança venha a acontecer. E isso cansa.

E que tipo de mudança é essa? Por exemplo, nutrir relacionamentos é difícil para mim, pois eu sou inseguro e tenho medo da rejeição. Então eu acabo exercendo um esforço para conseguir construir minha autoconfiança e estar bem comigo mesmo. Mas, ainda assim, sinto que falho nos meus relacionamentos. Tenho um amigo que é o único que eu tenho, ou tinha, uma abertura de intimidade para ser eu. As coisas iam bem enquanto eu conseguia manter minha “pureza” diante dele, fruto do meu personagem que estava encarnado em mim. Até que chegou o momento onde quis me separar desse personagem e comecei a conhecer-me e aceitar-me por inteiro, incluindo minha sexualidade. Convenhamos, não sou puritano. Já tive experiências sexuais com vários homens e gostei bastante. Mas esse meu amigo não sabe disso. Para piorar, ele possui um senso de moralismo muito forte e uma mentalidade do tipo 8 ou 80. Quando interajo com ele, fico pensando que a imagem que ele tem de mim não condiz com quem eu realmente sou. “E se ele soubesse das coisas que faço e tenho vontade de fazer, será que continuaria sendo meu amigo? Aposto que não”, fico pensando. E aí eu sinto vergonha de mim e não consigo me entregar a ele de forma inteira. E ficar “selecionando” partes de você para mostrar ao outro é muito desconfortável, limitante e estressante. A sensação de que estou em dissonância na relação me faz recuar. E, por medo de ser descoberto e, consequentemente, rejeitado, acabo me afastando dele. E isso dói, pois eu não quero ser rejeitado e tampouco me afastar dele. Eu amo meu amigo, e dói me ver escondendo um segredo dele. Não sei como viver isso em meu relacionamentos.

Por que tenho essa ânsia de ser transparente nos meu relacionamentos mais significativos (ou que pelo menos considero como tal)? Recentemente perdi um outro amigo com quem eu tinha um nível de relação íntimo e significativo. Contávamos tudo um para o outro. Conhecíamos as partes vergonhosas de nossas vidas e acolhíamos essas partes. É libertador saber que tem alguém que você pode confiar para expor aquilo que te envergonha, te fere, e saber que não será julgado, maltratado. Melhor ainda é saber que vai ser acolhido. E caso quisesse investir em alguma mudança, obteria apoio. Mas nossa relação acontecia estritamente no meio virtual. Eu não conseguia me fazer disponível o tempo inteiro. Quando ficava ansioso, angustiado ou triste com algum acontecimento ou pensamento, eu ficava muito ansioso, muito angustiado ou muito triste. E não queria conversar, pois precisava me recolher para “lamber minhas feridas”. E isso poderia durar alguns dias, até que eu tivesse digerido aquela situação e conseguido lidar com ela. A escritora Martha Medeiros conseguiu descrever perfeitamente esse cenário::

“Há sempre o momento de pedir ajuda, de se abrir, de tentar sair do buraco. Mas, antes, é imprescindível passar por uma certa reclusão. Fechar-se em si, reconhecer a dor e aprender com ela. Enfrentá-la sem atuações. Deixar ela escapar pelo nariz, pelos olhos, deixar ela vazar pelo corpo todo, sem pudores. Assim como protegemos nossa felicidade, temos também que proteger nossa infelicidade. Não há nada mais desgastante do que uma alegria forçada. Se você está infeliz, recolha-se, não suba ao palco. Disfarçar a dor é dor ainda maior.”

Acho que ele não entendia o motivo de eu precisar sumir, e eu me sentia cobrado a responder as mensagens imediatamente. Não queria que a relação fosse forçada, que eu respondesse as mensagens de forma obrigada apenas para evitar conflito. Se eu respondesse, queria que fosse em verdade; responder porque queria mesmo, e não por obrigação. Muitas vezes entramos em atrito pelos meus sumiços, embora eu tentasse explicar que eu precisava do meu espaço. Eu estava uma bagunça na época, isso foi antes de começar o meu processo de resgate de mim mesmo. E às vezes eu me isolava como resultado de uma dor na alma que eu nem sequer conseguia compreender. E não avisava nada, simplesmente sumia. Houve um momento que ele se cansou, e interrompeu o contato comigo. Não insisti, pois reconheci minha parcela de responsabilidade e também porque sabia que esse atrito iria acontecer novamente. Então, respeitei a vontade dele. Mas fiquei triste pela forma como tudo aconteceu, pois na minha cabeça isso não era motivo para se interromper uma amizade. Não quebrei a confiança dele, nunca expus seus segredos e sempre que pude, dei o melhor de mim para apoiá-lo nas situações difíceis. Mas recentemente, em um livro chamado “A Coragem de Ser Imperfeito”, da Brené Brown, li um trecho que me fez repensar esse motivo de término de amizade. Ela falava sobre confiança, e dizia que a maneira mais corrosiva de perder a confiança é o descompromisso. De não se importar. De desfazer o vínculo. De não desejar dedicar tempo e esforço ao relacionamento. Nas palavras dela:

“Quando as pessoas que amamos ou com quem temos uma forte ligação parar de se importar conosco, de nos dar atenção e de investir no relacionamento, a confiança começa a se extinguir a a mágoa vai crescendo. O descompromisso gera humilhação e desperta nossos maiores medos: de ser abandonado, desvalorizado e desprezado.”

Nunca havia me atentado para isso. Mas acho que foi assim que esse meu amigo se sentiu: abandonado, desvalorizado. Porque quando deixava de responder às mensagens, quando eu sumia de repente, eu estava agindo de maneira descompromissada.

E temo que o mesmo esteja acontecendo com outro amigo querido. Há muito tempo que não falo com ele. E quando combinamos de conversar, geralmente estou cansado, com sono ou preocupado com alguma coisa. Nunca me sinto disponível. E dá trabalho me fazer disponível. Antes, não associava a qualidade de um relacionamento a um esforço. A um compromisso e dedicação. Pensava que as coisas aconteciam naturalmente e que todos iram entender quando eu não estivesse disponível, pois para mim estava muito claro o que eu sentia pela pessoa. Assumia que o outro já sabia que eu gostava dele, mas que estava apenas cansado. Mas a verdade é que o outro poderia não saber disso; ele poderia pensar que é o meu cansaço era uma desculpa para não interagir com ele.

É mais fácil deixar tudo ir. Digo mais fácil no sentido de não investir esforço. Ainda mais para construir um tipo de “habilidade”, de “movimento de vida” em relacionamentos. Mas eu quero e preciso nutrir relacionamentos profundos e significativos. Eu amo, e preciso expressar esse amor. E também quero ser amado. O sofrimento em tolher esse amor é muito maior do que o sofrimento de fracassar ao tentar vivê-lo. Vale mais a pena deixar-se ser ferido pelo amor exposto do que morrer engasgado com ele.

Eu não me comprometo com meus relacionamentos por medo, por insegurança. Por vergonha de mim, das coisas que faço, principalmente no que diz respeito a minha sexualidade. Do medo disso ser uma mancha preta em um vestido branco, tornando-o inutilizável. Tenho medo de me aproximar, de ser conhecido em inteireza. Acho que, para me distanciar e me sentir seguro, acabo apostando no descompromisso. E isso me machuca. Não é o que quero viver. Eu quero ser livre. Livre em mim, livre no outro. E, para mim, ser livre é amar.

Amigo querido, eu queria muito falar com você. Não quero perdê-lo.