Whitney e eu: comportamentos autoderrotistas.

Faz muito tempo que não escrevo. Tentei lidar com meus sentimentos, pensamentos, inseguranças através de reflexões feitas durante meu dia-a-dia. Mas lembro do grande benefício que a escrita me trazia na época que eu redigia o meu diário. Era uma reflexão muito mais aprofundada. De fato, no dia-a-dia, eu acabo refletindo apenas sobre situações muito críticas, como um erro no trabalho ou um conflito familiar, por exemplo. Muitas outras coisas seguem no automático… inclusive muitos dos meus maus hábitos. 
Inclusive, falando em maus hábitos… esse é um dos principais motivos de eu voltar a escrever.

Porque o que acontece é o seguinte: estou preso em um ciclo de maus hábitos alimentados pela falta de bons hábitos. Ou seja: eu preciso aprender a buscar minhas necessidade de outra forma. Então, ao mesmo tempo que quero abandonar os maus hábitos — desaprender -, eu preciso cultivar um novo hábito — aprender. Isso implica em um processo de mudança. O crescimento pode ser decorrente da mudança. Para essa mudança acontecer, eu preciso entender melhor como funciona o ciclo dos maus hábitos — quais necessidades quero satisfazer, quais são os meus sentimentos, motivações que me movem a atuar em comportamentos autoderrotistas e quais são os padrões de pensamento que me mantém preso nessa estrutura. E isso é muito complexo para uma simples reflexão corriqueira no dia-a-dia. São muitos aspectos entrelaçados, dores multicoloridas… não é algo que se faça em um dia e nem em uma hora. 
Eu preciso criar um hábito para refletir sobre mim e, a partir daí, conseguir mudar meus hábitos.

Parece um passo-a-passo, mas não é. Na verdade, é tudo uma coisa só. E essa “coisa só” se destrincha em várias outras… mas tudo acontece ao mesmo tempo, em diferentes graus. Eu só quero me tornar mais humano. Capaz de amar e expressar esse amor — por mim, pelos outros, pelo mundo, pela vida. Para isso, preciso saber quem sou — me autoconhecer. Quero me relacionar melhor com as outras pessoas… e também comigo mesmo. Me doar. Mas também quero, por amor de mim, me ajudar a sair de comportamentos e situações que não fazem sentido para mim. Acredito que voltar a esse processo é fruto de um ato de amor.

Estava esses dias pensando na Whitney Houston — a minha cantora favorita. Admiro muito sua voz, mas principalmente sua pessoa. Humilde, sábia, autêntica, de bom coração… mas que enfrentou percalços terríveis durante sua vida. Percalços que ela mesma colocou sobre si e não soube mais sair depois. Ela envolveu-se com drogas, bebidas, o que acabou destruindo sua bela voz, ao ponto de não conseguir mais falar. Isso sem contar o próprio caos instaurado em sua estrutura de vida — imagem degradada, problemas financeiros… e o que dizer de seu psicológico e espiritual? Whitney tinha muita fé, e agarrou-se a ela no período que decidiu lutar pela sua própria recuperação. Conseguiu parar o comportamento de consumir drogas, voltou a ter aulas de canto, conseguiu recuperar um pouco sua voz. Gravou um novo disco, aos poucos voltou aos palcos… com seu sólido caráter e força monumental, Whitney estava de volta, provando ao mundo que é possível renascer das cinzas.

Mas, infelizmente, Whitney morreu… e o laudo de sua morte indicou a utilização de substâncias químicas. Uma reconstituição dos fatos anteriores à sua morte mostraram que ela estava consumindo álcool e drogas em um contexto de muita ansiedade e distresse emocional. Pobre Whitney… lamento muito que essa batalha tenha se instaurado em sua vida. Em uma entrevista para a TV, depois de uma série de perguntas sobre seu envolvimento com as drogas, Whitney é questionada sobre quem seria seu pior demônio. Ela responde com muita convicção: “Sou eu. Eu sou o meu pior demônio. É a minha escolha, é a vontade que habita em meu coração… ninguém me obriga a fazer algo que eu não queira. É uma decisão minha. Então, o maior demônio sou eu mesma… veja, eu posso ser minha melhor amiga, também sou o meu pior inimigo”. Admirei a sua sinceridade. Whitney tinha consciência de que ela estava presa em um ciclo de decisões e comportamentos autoderrotistas. Ela mesma tinha se colocado lá, ela mesma continuava a alimentar o ciclo. E ela sabia que aquilo estava destruindo-a pouco a pouco. Ela estava se matando sem querer morrer.

Whitney comenta, em entrevista de 2002, sobre sua luta contra o vício. “Eu sou o meu maior inimigo.”

Assim como Whitney, há muitas pessoas presas em um ciclo autoderrotista. O que chama a atenção na história dela é que ela era famosa, mundialmente reconhecida e idolatrada pelo seu talento, tinha à sua disposição muito dinheiro e oportunidades de experimentar o mundo de uma forma que pouquíssimas pessoas podem ter. Mas, ainda assim, ela entrou em um ciclo autoderrotista. Nem sua fé, que era grande e muito presente em sua pessoa, conseguiu impedi-la de construir um caminho tortuoso. Por quê? O que aconteceu no coração de Whitney para deixar-se entregar a comportamentos derrotistas?

A história de Whitney me deixa alerta sobre a possibilidade de uma pessoa maravilhosa, talentosa e bem-sucedida ter sua vida destruída por conta de comportamentos autoderrotistas. No caso de Whitney, o seu consumo de drogas. Mas para outras pessoas, os comportamentos podem ser vício em jogos, alcoolismo, agressividade, estilo de vida sexual destrutivo, descontrole financeiro, transtornos alimentares… e a lista se estende.

Eu tenho medo de estar em um ciclo de comportamento autoderrotista. Eu aprendi a me relacionar sexualmente com outros homens de uma forma que, para mim, é prejudicial. Sinto-me muito sozinho, e tenho dificuldades de me relacionar. Dificuldades de conversar, de ser vulnerável, expressar afeto… geralmente sinto-me muito ansioso ao estar junto com outra pessoa. Tenho medo de ser rejeitado, de estar sendo chato, de falar alguma besteira… e, ao mesmo tempo, anseio por falar o que sinto, o que penso, de abraçar, de chamar pra sair, de passar tempo junto… e isso me traz muito sofrimento. É uma luta que travo há muitos anos.

Atualmente, estou bem melhor, consigo me abrir, conversar melhor, expressar mais afeto… mas ainda é algo que exige muito esforço da minha parte. Quero continuar me esforçando, pois eu percebi que ao mudar conceito, pensamentos, ao instaurar leveza no meu olhar, consegui me abrir mais para as pessoas. Também ao me conhecer melhor e aprender a me amar mais, consegui ter confiança e coragem de me deixar ser conhecido pelas pessoas… de assumir o risco de me expor e ser rejeitado em troca da maravilhosa recompensa de ser aceito por alguém por aquilo que sou. Mas nesse tempo, aprendi a forma fast-food de encontrar uma intimidade plastificada, estéril mas ainda assim eficaz, por meio de experiências sexuais fortuitas.

Quando me sinto sozinho, quero falar com alguém, mas me vejo sem amigos… sem alguém para abraçar, sem coragem de dizer para alguém que estou sentindo falta de alguma companhia… quando não consigo expressar essa vulnerabilidade e vejo que não há nenhum relacionamento com profunda intimidade onde eu possa me aninhar, eu entro em um ciclo de pensamentos muito ruins. Algo como: “veja você, não há um amigo sequer para passar o tempo… conte nos dedos quem são seus amigos? Aqueles que você de fato pode contar de corpo e alma… nenhum. Não há nenhum! Todas as suas relações são superficiais e você sabe que você é o responsável por isso. Você se fecha, não nutre seus relacionamentos, tem medo de se expor, medo de expressar afeto, medo… e as pessoas se afastam, não criam raiz. E você não sabe como mudar isso. Está de mãos atadas. E agora, o que você vai fazer?”.
Isso geralmente acontece quando saio do trabalho, onde passo a maior parte do tempo convivendo com os meus colegas. Ao sair… é como se eu estivesse voltando para a minha vida e vendo o quão ela está vazia. Não há para quem ligar e dizer “estou saindo, vamos nos encontrar?”, ou “estava com saudades, agora podemos conversar”, ou “posso passar na sua casa? posso dormir aí hoje a noite?”… É apenas um silêncio. Apenas eu. E, de fato, eu poderia ter nutrido relacionamentos assim se eu soubesse como. Isso me causa muita angústia, frustração comigo mesmo e eu fico desesperado para descontruir a ideia de que eu serei uma pessoa solitária pelo resto da vida.

Trabalho perto de um shopping e, para não ir para a casa com a angústia, passo por lá para tentar esvaziar a mente. Porém, é exatamente no shopping onde eu alimento meu comportamento autoderrotista. Ao saber que nos banheiros masculinos encontrarei homens que gostariam de ter experiências sexuais anônimas comigo, acabo me dirigindo para lá. Sou atraído para esses homens não pela experiências sexual em si, mas pela aceitação. Lá, eu sou aceito, sou desejado. Não preciso ser o mais engraçado, inteligente, bem-sucedido para ser aceito e amado. Eu apenas sou aceito por aceitar seu convite para um sexo oral, por exemplo. Uma intimidade de passe-livre. Não posso ser rejeitado, pois não preciso existir ali. E assim sou integralmente aceito, não importa quem eu seja. É esse nível de aceitação, de intimidade, de “venha, eu quero você comigo” que me atrai às experiências sexuais anônimas. Eu deixo de ser uma pessoa para ser um corpo. Essa experiência acaba se tornando a única forma conhecida que tenho de buscar intimidade. Eu acabo me despindo de mim mesmo, me esvaziando de mim. Deixo de saber quem sou. Fecho os olhos para mim mesmo ao menor de sinal de angústia pelas minhas incapacidades de construir um nível de intimidade com alguém por meio da entrega de alma. Eu acabo me desalmando. É essa perda de mim mesmo que me deixa preocupado.

É por isso que voltei a escrever. Para eu me reencontrar, acolher a mim mesmo, me conhecer melhor, cuidar de mim e me entregar a alguém de corpo e alma. Na ânsia de encontrar-me com um outro de qualquer jeito, estou me perdendo de mim mesmo. No final, quando tudo acaba, a angústia fica pior. Pois, mais uma vez, apenas confirmei o que eu já pensava sobre mim. Só que agora com uma informação nova: “Se alguém vier a se apaixonar por você… será que ela continuaria contigo se soubesse o que você anda fazendo nos banheiros públicos? Acredito que até o seu melhor amigo iria se afastar de ti. Você simplesmente é alguém que não vale a pena se relacionar”.

O caminho mais difícil seria conquistar alguém por aquilo que sou. De deixar que o outro conheça meu lado feio, de sofrer as rejeições e lidar com elas, de desenvolver passo a passo cada um dos meus pontos fracos… é este o caminho que quero trilhar. Mas, de vez em quando, embora menos, ainda me vejo tomado pela angústia da solidão e pela ânsia de buscar alívio em corpos anônimos. Na verdade, o alívio vem ao fugir de mim mesmo. Ao me esvaziar de mim quando entro num banheiro público buscando sexo, afasto-me com alívio para longe do meu ser incapaz de nutrir e sustentar um relacionamento completo. Rejeito-me, jogo-me fora — o mais forte ato de desamor. Não gosto de mim, por isso busco fugir de mim mesmo.

E esse é o meu comportamento autoderrotista. A minha auto-anulação, por meio de um hábito de buscar sexo com anônimos para compensar uma necessidade de relacionamentos profundos. Eu sei que posso mudar o jogo, e por isso escrevo. Não quero me abandonar, me jogar à mercê dos meus pensamentos derrotistas. Quero seguir um caminho diferente, alinhado com aquilo que acredito. Quero conseguir ser capaz de construir relacionamentos nutritivos, profundos e duradouros onde eu seja presente, e não escondido.
Whitney e eu temos algo em comum: somos humanos. Fico triste por Whiney não ter conseguido se livrar de seu vício antes dos prejuízos tomarem tamanha proporção. Tenho medo de eu não conseguir me livrar de meu comportamento derrotista antes de me perder de mim mesmo.

Mas a Whitney lança luz na minha caminhada, pois ela não era o seu vício. Ela era uma pessoa incrível, com um um talento esplêndido e uma força de caráter inspiradora… mas que lutava contra um vício. Da mesma forma, eu sei que esse meu comportamento não me define. Ele é um caminho tortuoso que criei, asfaltado pela minha falta de desamor. Whitney, eu te amo mesmo com esses percalços que você colocou sobre si e pelas coisas que te aconteceram. E eu também me amo, ainda que eu tenha faltado com sabedoria ao conduzir minha vida por estradas pavimentadas de desamor. Agora, eu quero mudar o rumo de minha história: trilhar pelos sinuosos caminhos do amor.

“The greatest love of all
is easy to achieve
learning to love yourself
it is the greatest love of all.
And if by chance, that special place
that you’ve been dreaming of
leads you to a lonely place
find your strengh
in love”.
Whitney Houston — The Greatest Love of All.