Mudança de foco

Quase que não escrevo. Passei muito tempo sem escrever. É difícil, pois toda vez que eu digo para mim mesmo “Vou escrever”, eu fico com medo. Eu começo a pensar naquilo que estou constantemente pensando, e começo a ter um mal estar… de enfrentar a mim mesmo. E aí invento qualquer outra coisa mais urgente para fazer, e digo que escreverei em outra hora. E essa hora nunca chega, pois nunca me sinto preparado para escrever.

Para mim, a escrita deve ser sagrada. É um momento íntimo, comigo mesmo. Deve ser pautada na verdade pura, destilada. E também deve ser transparente; sem nada a esconder. Por isso é difícil. Enxergar a mim mesmo sem filtros não é fácil. Ao retirar as máscaras, a pele fica sensível. Arde. Mas é a minha pele, e o meu rosto. E me gosto.

Acho incrível o quanto a escrita faz bem para mim. Parece algo bobo, banal. Mas de fato me ajuda. Entrar em contato comigo mesmo parece ser algo tão filosófico, tão “fresco” em um mundo que arde naquilo que é prático, concreto, executável. Mas eu funciono de acordo com a minha mente. O meu coração bate e os meus órgãos trabalham da mesma forma que a grande maioria das pessoas. Mas é a minha mente que dá significado à minha existência na terra. E desculpa, mas ela não é nem um pouco prática. Pelo menos não a minha.

Estou me sentindo bem. Sinto-me feliz e em paz, depois de muito tempo me sentindo angustiado quase que constantemente. Isso não significa que as coisas na minha vida estejam como eu gostaria que estivesse. Mas eu já não estou como estava antes, e isso já é muita coisa para mim. Eu posso respirar. Eu consigo me sentir leve. É uma sensação de que eu estou aqui, nessa terra, nesse mundo; e não preso em meu próprio corpo, querendo estar em qualquer outro lugar menos aqui. Eu consigo me enxergar como participante da vida. Eu consigo dizer para mim mesmo “eu posso”. Eu consigo dar chance para que eu aprenda com meus erros, e tente novamente. Consigo defender meus desejos. Consigo me proteger dos outros e de mim mesmo. Dizer não quando quero dizer não, e me permitir não querer. Eu estou conseguindo cuidar bem de mim, me aceitar, me permitir ser para comigo.

E se permitir ser é um estado tão maravilhoso que fico questionando a mim mesmo porque eu me esforcei durante tanto tempo para ser outro. Ser inteiro, congruente é um esforço que vale a pena. De encontrar o que há de humano em si mesmo. Eu existo, eu sou. Estou em euforia, pois eu estou me permitindo ser eu, sentir meus sentimentos e expressá-los; ter minhas opiniões e expressá-las. Não consigo me imaginar querendo ser outra coisa que não eu mesmo. E se for para melhorar, que seja para melhorar a mim mesmo, de verdade, e não para apenas agir de forma diferente.

Percebi que quando cuido de mim mesmo, eu consigo cuidar melhor daqueles que amo. Eu consigo me permitir amar. E também consigo permitir que os outros me amem, pois eu me permito receber o amor. Consigo acreditar que alguém pode de fato gostar de quem eu sou sendo eu. E isso me deixa aberto, livre. Eu me entrego para a pessoa e permito ser conhecido. Eu me permito me conectar com o outro. Eu não esperava que isso fosse acontecer dessa maneira. Sempre pensei que cuidar de mim fosse um ato egoísta. Mas quando eu cuido de mim, eu me permito encontrar com o outro; permito que o outro me encontre. E me sinto leve, e me sinto bem. E fico feliz por saber que eu posso me relacionar com as pessoas.

Lembro-me de uma fala da minha professora de oratória, onde ela contou que teve um sonho com um amigo dela. No sonho, ela entrava na casa dele e ficava surpresa com a quantidade de lixo organizado que tinha naquele lugar. A casa tinha um mau cheiro muito forte, e havia colunas enormes de lixo completamente organizadas. Tudo separado e empilhado de forma meticulosa, impecável. A organização daquele lugar atraia os olhos, e seria incrível se o material não fosse o mais purulento lixo.

Fiquei muito grato em ouvir essa fala, pois comecei a pensar se não estou fazendo o mesmo. Organizando, categorizando e redistribuindo lixo. Quando, na verdade, eu deveria me livrar dele. Eu quero me livrar do meu lixo, e não ficar organizando dentro da minha mente.

Mas acho que tenho medo de ser vazio. Se eu tirar todo o lixo dali, eu enxergarei a minha própria solidão. O lixo me distrai. Organizar lixo é algo que sempre fiz, pois achei que deveria fazer. Na verdade, é como se fosse uma espécie de punição… uma punição por ser quem sou? Não sei…

Mas eu sei que conseguirei viver uma vida plena à medida que eu tirar o meu lixo. E construir algo bonito, algo meu. Que pertence ao meu presente. Jogar fora o que trouxe do meu passado, que está apodrecendo dentro de minha alma. Porque eu não sou mais aquele que era no passado. Na verdade, nunca fui. Agora estou me conhecendo, me acolhendo e me aceitando. Estou me resgatando do cativeiro e me levando para casa.

Estou descobrindo que quando consigo amar a mim mesmo, eu consigo de fato amar os outros. E isso é novo pra mim.