Ser livre no amor

Ai que preguiça de escrever! Porque são muitas coisas povoando minha cabeça e não sei por onde começar. Estou me sentindo melhor agora, depois que a doença passou… tenho certeza que ela mexeu com minha visão de mundo. Imagino como deve ser difícil para aqueles que portam alguma doença grave, como o câncer… deve ser por isso que os programas para visitar doentes em hospitais são tão benéficos. Porque a doença realmente nos deixa pra baixo, muito pra baixo. E o tratamento com quimioterapia deve destruir o ânimo da pessoa. Engraçado como me julgo tão forte mas uma doença, até mesmo uma dor de barriga, é capaz de abalar a fortaleza mental.

Estou muito contente em aprender e exercitar a assertividade. Isso está realmente mudando a forma de lidar com a vida. Poder me autoafirmar respeitando o outro é uma experiência inédita e libertadora. É nessa direção que quero caminhar. Isso está fazendo diferença na maneira como lido com minha ansiedade. Sinto-me mais confiante ao lidar com conflitos e problemas no trabalho. Sinto-me mais confortável em me abrir para as pessoas nas comunicações pessoais. Tenho vontade de pôr em prática projetos meus, buscar conhecer coisas novas. É uma experiência nova de viver a vida. Mas estou começando agora, pois há muito a aprender ainda. Mesmo assim, saber que estou dentro de um processo de mudança só reforça minha vontade de pagar o preço por ela.

O meu amigo Madiel retomou o contato comigo espontaneamente. Eu sei que ele me procurou porque queria alguém para conversar sobre os desejos dele por outros homens, uma vez que eu evito fazer julgamentos (até porque sei como é isso). Mas também sei que ele gosta de mim como amigo, e eu gosto muito dele. Acho que essa é uma oportunidade de reencontro e de ser eu mesmo. Percebo que ainda caio nos velhos comportamentos, como evitar dar uma opinião contrária. Por isso, preciso estar atento de que, apesar de perceber mudanças, ainda estou no começo de um processo. E preciso ir mais fundo, pois é muito fácil eu me autoenganar e apenas maquiar uma mudança que, no fundo, não aconteceu.

Hoje reencontrei um rapaz que conheci há algum tempo no ônibus. Na época, trocamos whatsapp… porque o que rolou foi atração sexual. Mas começamos a conversar durante a viagem e achei ele muito gente boa. Descobri que ele tinha um relacionamento com outro rapaz. Ao saber disso, preferi manter distância. Não queria ser pivô de separação de ninguém, e nem ficar confundindo a cabeça do menino. Trocamos poucas palavras pelo whatsapp, até que deixamos de nos falar. Nunca mais nos vimos, até hoje, onde o encontrei novamente no ônibus. A princípio, fingi que não o vi. Fiz a egípcia, como dizem. Mas depois vi que esse comportamento não era autêntico, pois eu queria conversar com ele, mas estava com medo de ser rejeitado. Fiquei incomodado com isso, e decidi olhar pra ele e fingir surpresa. Não sei fingir muito bem, então apenas olhei e cumprimentei quando ele olhou pra mim de volta. Ele me cumprimentou de forma amistosa, senti-me confortável. Mas não sabia o que falar; estava sem assunto. Perguntei se ele estava bem, se estava vindo do trabalho, como estava sendo lá… ele foi respondendo e contando detalhes, mantendo o rumo da conversa. No trecho que estávamos, o ônibus começou a vagar (estávamos em pé), então ele sentou em uma cadeira e pediu para segurar minha mochila. Fiquei em pé, ao lado dele. Continuamos conversando sobre algumas coisas, nos intervalos do silêncio da falta de assunto. Não gosto de ficar sem assunto, mas sei que é porque tenho medo de não ser interessante e de falar algum assunto entediante. No final, chegamos ao terminal de ônibus, nos despedimos com um aperto de mão e ele disse “Até a próxima”. Ou seja, sem intenção de retomar o contato pelo whatsapp. O que achei uma pena. Não tenho coragem de ser o primeiro a iniciar a conversa. Tenho medo não apenas de dar errado, mas principalmente de dar certo.

Nos conhecemos em meio a uma atração sexual. Ele estava no ônibus, sentado na cadeira do lado do corredor, e eu em pé, ao lado dele. Quando percebi que ele curtia, comecei a esfregar propositalmente meu pau no ombro dele, e obtive reação positiva. Ficamos muito tempo assim, apenas na troca de olhares. Foi só depois, quando o ônibus ficou mais vago, que parei com aquilo para não chamar atenção e sentei ao lado dele. Pedi o whatsapp e ele cedeu, digitando no visor do celular. Quando estávamos perto do destino, comecei a puxar assunto. Foi uma conversa um pouco monossilábica.

Na segunda vez que o encontrei, também no ônibus, já conversamos um pouco mais. Foi nessa conversa que descobri que ele tinha um relacionamento. A partir daí, evitei qualquer interação de cunho sexual com ele. Hoje, por exemplo, quando fiquei ao lado dele na cadeira, evitei encostar nele. Não sei se ele esperava que eu fizesse alguma coisa, mas preferi evitar, por respeito a ele e ao relacionamento dele.

Depois fiquei pensando… e se nós iniciássemos um relacionamento? Como seria eu me relacionando com alguém? Até quando o meu respeito por aquela pessoa impediria minha expressão sexual? Será que eu trataria o meu parceiro como um irmão?

Se for assim… isso significa que quando interajo sexualmente com estranhos, estou desrespeitando eles? Falta o respeito, a consideração, e por isso me envolvo em comportamentos sexuais? Não é assim que quero viver minha vida, desrespeitando outros.

E quando notei uma mudança na minha libido, a partir do momento que comecei a me considerar e a me respeitar… fiquei me questionando: qual é o significado da minha expressão sexual para com estranhos e para com as pessoas que tenho certa intimidade? Isso porque a minha expressão sexual muda de acordo com o tipo de relação que tenho com aquela pessoa. Quanto mais conheço e gosto de alguém, mais respeito e menos atração sexual eu sinto. Com bastante frequência, chega ao ponto de eu não sentir nenhuma atração sexual, por mais bonita que a pessoa seja, pelo simples fato de considerá-la e respeitá-la. Foi o que aconteceu com esse rapaz. Não consigo mais me ver interagindo sexualmente com ele, como fizemos antes de nos conhecermos um pouco melhor.

Acho que algo que não conheço é a expressão sexual no contexto de intimidade emocional. Parece que uma coisa é oposta a outra. Da mesma forma, a expressão sexual pura ganha conotação de desrespeito. Isso me mostra que meu caminho de satisfação plena das carências afetivas se dá pela intimidade emocional. Na liberdade de um relacionamento afetivo, pode acontecer a satisfação sexual também… mas ela vira um “desenrolar”, e não uma motivação. Ou seria o contrário?

Não sei. Eu sei que fico contente em não me ver mais dominado por impulsos e comportamentos sexuais de risco. E por estar aprendendo a obter satisfação afetiva por meio de uma intimidade construída, apesar de ser um caminho difícil, que nasce a partir do autoconhecimento e valorização do meu verdadeiro Eu. Acho que é a partir daí, desse caminho, que vou abrir portas para vivenciar meu primeiro relacionamento afetivo significativo e pleno. Quando e com quem… não sei. Mas antes de conhecer alguém, quero vivenciar esse relacionamento comigo mesmo. Se eu conseguir vivenciar essa intimidade comigo mesmo, alguém tão problemático e que tenho dificuldade de amar por inteiro, então estarei mais do que preparado para iniciar um relacionamento com outra pessoa — por inteiro.

Nas minhas andanças pela internet, encontrei um texto lindo, que expressa muito o que penso sobre o amor. Adoro esses textos, pois sempre aprendo mais com a visão de outras pessoas. Quero ser livre no amor. No meu relacionamento que um dia viverei, quero que seja entre duas pessoas livres.

Deixa livre quem tu amas.
Texto de Elisabeth Cavalcante

O amor tem as suas próprias leis e se não estivermos dispostos a segui-las dificilmente conseguiremos alcançar a tão sonhada felicidade.

Uma das principais leis do amor diz respeito ao facto de que ele deve ser dado sem esperar nada em troca. Mas quantas pessoas são capazes de continuar a amar alguém sem que sejam correspondidas?

É claro que o ideal do amor é a reciprocidade, mas nem sempre o outro pode dar-nos aquilo que esperamos dele. O ego faz com que sentimentos como a raiva, o ressentimento e o desejo de vingança substituam o amor quando este é contrariado ou deixa de existir por parte do outro.

Mas se estivermos dispostos a mudar esta regra e a guiar-nos por uma dimensão mais elevada do nosso ser, mesmo que o nosso desejo pelo outro seja contrariado, podemos cultivar uma dimensão superior do amor, que consiste em querer o melhor para aquela pessoa, ainda que não seja ao nosso lado. Este é um grande desafio para aqueles que desejam sair vencedores na luta contra a negatividade e o egoísmo.

Outra lei básica do amor é a liberdade. Se tu amas alguém, deixa-o livre, não queiras controlá-lo ou determinar o que ele pode ou não fazer. Este é o caminho mais rápido para afastares quem tu amas.

Quem não consegue amar sem o desejo de controlar o outro, está a infringir outra lei do amor que é a confiança. Sem ela, o amor jamais poderá subsistir, e tornar-se-á cada dia mais frágil.

Outra importante lei do amor é a lealdade. Se eu amo alguém é imprescindível que eu seja leal a essa pessoa, não a desrespeite e não aja de modo a trair o pacto de sinceridade que está implícito em qualquer relacionamento de amor que se estabelece entre duas pessoas.

Para que possamos vivenciar estas leis em toda a sua plenitude, é necessário que as tenhamos plenamente integradas no nosso próprio interior. Caso contrário, seremos presas fáceis de relacionamentos onde a maioria destas leis ou a totalidade delas é desrespeitada por nós ou pelos nossos parceiros, e os sentimentos de medo e insegurança farão com que permaneçamos nestes relacionamentos, negando-nos qualquer chance de experimentar a real, profunda e verdadeira dimensão do amor.

Tu amas uma pessoa e essa pessoa também te ama. Um dia, tu vê-la a ser atraída por uma outra pessoa… Aí a comparação começa. Será que ela te está a deixar? Será que ela encontrou alguém que é melhor que tu? Será que ela encontrou alguém que é mais atraente que tu?

Tu podes não perceber muito claramente, mas é exatamente isto que cria o ciúme: essa ideia que alguém pode ser melhor do que tu, que alguém pode ser mais atraente, que alguém pode atrair o teu parceiro mais do que tu mesmo. Isso cria uma sensação interna de inferioridade e tu começas a sentir ciúme. Tu criarás todos os tipos de obstáculos possíveis para destruir essa possibilidade.

Não ter qualquer ciúme só é possível quando tu te aceitares a ti mesmo tão completamente que não exista mais lugar para qualquer comparação, quando tu não te comparares com mais ninguém. Mesmo se a pessoa que amamos se aproximar de alguma outra pessoa, isso não criará qualquer comparação. É apenas o simples facto de que ela se tornou atraída por aquela pessoa.

Mas isso só é possível quando tu te tornares tão integrado em ti mesmo que tu possas viver sem um namorado(a), que tu possas viver sem estares a ser amado e ainda assim te sentires tão feliz quanto te sentes sendo amado; quando o amor não for mais uma necessidade, mas simplesmente uma alegria. Se tu estás a ser amado, tudo bem. Se tu não estás a ser amado, tudo está perfeitamente bem. Tu não estás atrás disso. Não há qualquer ego carente e tu não fazes disso uma viagem de ego.

Quando o amor não é uma busca, não é uma necessidade, mas sim uma partilha, ele tem uma tremenda beleza. Aí, ninguém estará preocupado se ele vai ou não durar para sempre. Se ele acontecer apenas por este momento já será ótimo.

A ideia de fazer alguma coisa permanente surge apenas porque tu estás movido pela necessidade. Tu estás com medo, essa pessoa deu-te felicidade hoje e, se ela amanhã disser não, tu pensas que ficarás de novo infeliz. Assim, tu procuras dar um jeito para que amanhã ela não possa escapar. Trancas a porta! Mas uma vez que a porta esteja trancada, aquela energia do amor não estará mais presente, porque o amor acontece apenas em liberdade.

Um dia, através da aprendizagem, experimentando muitos relacionamentos, a pessoa torna-se madura. Então o ciúme desaparece. Então tu estarás simplesmente feliz se alguém vier e partilhar a sua energia contigo, ou se ela quiser partilhar com alguma outra pessoa, tu estarás feliz também. Essa é a liberdade individual, tu nada tens a ver com isso. Somente nós somos os mestres de nós mesmos e mais ninguém deve pretender ser o mestre dos outros. Quando a liberdade é deixada intacta, o amor cresce infinitamente.

http://jafoste.net/deixa-livre-quem-tu-amas/