Sexualidade, banheiros públicos e autoconhecimento

Logo pela manhã, acordei pensativo. Lembrei-me de uma frase que o Rafael me disse na última sessão. Uma pergunta, na verdade. Ele questionou se o que me incomodava era a atração por outros homens ou a maneira como eu realizava essa atração. Na quinta e na sexta, eu tive experiências de pegação em banheiros de shoppings. Eu fiquei triste porque não é essa a forma que eu quero viver. Eu tenho meus valores e estou ferindo a mim mesmo quando me submeto a essa atividade. Fico me questionando o porquê desse hábito. Porque eu não estou ajudando a mim mesmo a construir uma forma mais significativa e gratificante de viver a vida. Porque me permito a continuar nessa mesma atividade, sem tentar me dar a chance de viver algo diferente.

Mas, na verdade, não é apenas a atividade de ter experiências sexuais com desconhecidos em banheiros públicos. É uma postura de desvalorização minha e do outro, onde eu me coloco manipulando alguém por meio do desejo sexual, pois assim eu me sinto valorizado.

Por exemplo: na sexta à noite, ao voltar para a casa, eu ainda estava “entorpecido” pela experiência de pegação. No ônibus, fiquei no espaço reservado aos cadeirantes. Eu estava em pé, com minha mochila, e na minha frente tinha um homem sentado naquela cadeira retrátil. E percebi que ele estava olhando muito para mim. Propositalmente, retribuí o olhar e fiquei encarando ele. Estávamos nesse jogo de troca de olhares, onde eu sabia que ele estava interessado. Nesse momento, eu não tinha nenhuma intenção de querer me envolver com ele, ou sequer estava interessado nele. Estava me aproveitando da sensação de exercer poder sobre ele. Estava me sentido no poder, no controle. Desejado. Era uma sensação diferente de como me sinto rotineiramente: vulnerável, sob ataque e julgamentos. Ali, eu estava comandando a situação. Se eu dissesse um não, era a minha palavra que valia. Se eu dissesse um sim, eu o teria em minhas mãos. Em uma certa altura da viagem, ele pergunta se gostaria que eu segurasse a mochila dele. Eu entreguei a mochila, ainda estabelecendo o jogo de olhares. Passado um tempo, ele pega o celular e digita uma mensagem de forma que eu conseguia ler. Disse: “Anota meu número e me dá um toque de volta”, e digitou o número. Eu não queria anotar o número dele. Não queria contato, queria apenas continuar brincando. Mas, para manter a brincadeira, eu peguei o meu celular e fingi anotar o número. Na verdade, eu até anotei o número verdadeiro, mas fiquei receoso de ligar, pois ele teria o meu número. E eu não queria dar esse controle a ele. Com o meu número, ele saberia quem eu sou, ligaria para mim e mandaria mensagens… ele estaria no controle. Mesmo assim, dei um toque, mas não retornou para o celular dele. Fiquei feliz com isso. Guardei o meu celular. Ele digitou outra mensagem, dizendo que iria descer na próxima parada e que estava esperando algumas amigas para comer Sushi. Ele queria que eu fosse junto. Quando li a mensagem, percebi que as coisas estavam começando a fugir do meu controle. Estava na hora de tomar a posição de volta… Mas eu me encontrei travado para dizer “não”. Não queria parecer rude. Isso implicaria um julgamento negativo sobre mim. Até o momento, eu estava sendo objeto de desejo de alguém. Se eu negasse esse desejo, eu iria ser visto com aversão, hostilidade. Então tive uma ideia: descer na próxima parada e pegar o próximo ônibus. Quis fugir da situação, pois fugir iria me colocar no controle máximo. Eu iria ganhar e ele, perder. Então, pedi a ele a mochila e agradeci, sem responder o convite do Sushi. Dei o sinal para descer. Mas, para minha surpresa, ele desceria na mesma parada que eu. “E agora?”, perguntei a mim mesmo. Descemos juntos, e ele me abordou, perguntando se tinha dado certo anotar o número. Eu disse que anotei mas não consegui ligar. Então ele pediu o meu número… me deu um papel e uma caneta. Eu disse que não precisava, pois eu tinha anotado e depois retornaria. Ele perguntou se eu estava avexado, pois o Sushi era bem próximo e as amigas dele estavam perto de chegar. Eu disse que sim, que teria que chegar logo em casa pois era quase 10 horas. Então, depois dessas negativas, ele disse “Ah, tudo bem”. Dei tchau e fui andando, entrando em uma rua qualquer. Segui um longo caminho a pé, até chegar em casa, pois não queria ficar na mesma parada que ele, esperando o ônibus. Isso iria fazer minha mentira cair.

O que me chamou atenção nesse episódio foi a maneira desnecessária que interagi com aquele homem. Além de agir de maneira manipulativa, pois eu não tinha nenhuma intenção de querer ficar com ele, ainda proferi julgamentos. Ele usava uma cruz católica no pescoço; visivelmente religioso. Além disso, era um pouco afeminado. Senti-me superior a ele, com pensamentos do tipo “Que vergonha, você é católico e está traindo sua própria´fé”. Esse julgamento durou apenas o tempo que levei para lembrar que eu, enquanto ainda estava na igreja, já fazia sexo oral em diversos homens desconhecidos, na surdina.

Fiquei assustado com meu comportamento e da maneira como julguei aquele homem. Fiquei pensando na forma como meus pensamentos estão estruturados, distorcendo a minha visão do que é saudável e prejudicial para mim e para os outros. Se eu estiver com minha visão distorcida, com padrões de pensamentos viciados, dificilmente conseguirei ter uma visão crítica de meus comportamentos. Agirei no automático, sem pensar, e só conseguirei visualizar se foi saudável ou não quando as consequências chegarem. Estarei cego quanto às minhas motivações. É por isso que retorno aos meus valores, pois eles me ajudam a enxergar para onde estou caminhando. Se estou indo contra meus valores, estou me distanciando de mim. Porque ser quem eu sou implica em respeitar a mim mesmo, me valorizar e me amar. Quando ajo contra os valores que me identifico e quero viver pra mim, estou me desrespeitando, me desvalorizando literalmente. Então, a questão maior não é se eu sinto atração por homens, mas a maneira como vivencio isso na minha vida. Estou ferindo a mim mesmo. E existem questões envolvidas que não tem a ver com a atração em si. Porque eu quis manipular aquele homem? Por que menti, agindo de uma forma quando não tinha intenção? Porque mendigo valorização de outras pessoas por meio do sexo? E mais importante: porque eu tenho mais coragem de fazer sexo oral em um desconhecido no banheiro público de um shopping do que dizer a um amigo ou familiar “eu te amo”? Ou de abraçar alguém que gosto? Ou de abrir a mim mesmo para aqueles que gostam de mim? Eu me afasto das pessoas, pois me fecho. Tenho medo de me expor a elas, de me entregar a elas e ser rejeitado por tudo que sou. Com desconhecidos, a rejeição não machuca tanto. Ele não sabe quem sou, e nem quer saber. E sei que haverá alguém que se interessará por mim, pelo meu corpo, pois há gente para todo gosto. Há homens que preferem outros homens mais velhos, ou mais fortes, ou mais magros, ou negros… sempre haverá alguém disponível. Mas, quando se trata em se entregar a alguém como pessoa, e não como um corpo, é mais difícil… porque eu sou complexo, e sou muitos dentro de mim. Sou um quando estou com fome, outro quando estou cansado, outro quando estou me sentindo sozinho… e o corpo é o mesmo, o desejo é o mesmo, já sei tudo que vai acontecer. Sei que o final da atividade sexual é o orgasmo. E a sensação de controle que tenho em uma experiência sexual com um estranho é enorme. Eu sei exatamente o que vai acontecer, o que fazer. Quando estou numa relação de pessoa para pessoa, eu nunca sei a próxima reação, como terei que lidar. Isso me assusta, e fico com medo. Por quê? Não sei. Mas quero superar esse medo, e me valorizar, e viver da maneira que eu quero viver, buscando formas realmente gratificantes de vivenciar minha sexualidade como uma expressão integral de quem eu sou, e não como uma fuga. Porque, no momento atual da minha vida, a minha expressão sexual não é um reforço de quem sou, mas uma fuga de mim mesmo. É mais uma máscara que uso para não precisar enfrentar a mim mesmo, como é frequente acontecer. Tira essa máscara e o que sobra: meus medos, minhas carências, fragilidades. Tudo isso vem à tona quando tiro o sexo da equação. O sexo me entorpece, me faz acreditar que tenho o que preciso — aceitação, prazer, afeto — no momento do sexo. Mas quando acaba, preciso dele de novo, pois os pensamentos voltam novamente.

Eu pensei que o principal problema fosse a atração sexual desmedida, mas não. Ela não parece ser causa, mas consequência. Há algo por trás disso que ainda não sei direito o que é. Na verdade… será que realmente não sei? Ou estou fugindo disso novamente? Porque logo ao tentar pensar nesse assunto, na dor que sinto ao expressar afeto pelas pessoas, eu já quero logo parar. Sinto-me muito nervoso, e não quero pensar no assunto. O que está por trás disso?

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