“Amar em tempos mortos” por Jonas del Nobile

O Puri
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Aug 24, 2017 · 2 min read

Alheio as cláusulas do contra­to social, o amor talvez seja o último sustentáculo da liberdade. Quando nos despimos de todos as camadas e invenções, de todo nos­so orgulho e crença. Saltamos em direção a um futuro incerto, sem estrutura pré-definida.

O que o amor nos reservará? A Santa Trindade abençoando as nossas relações? A marginalidade dos amores proibidos? A trans­gressão dos corpos abjetos?

Qual o projeto de amor para cada um de nós?

Na física moderna, tem prospe­rado o conceito da incerteza que exclui a possibilidade de fazer pre­visões porque dizem ser impossí­vel definir com precisão a posição e o momento de cada partícula.

Não sabemos para onde vai e da onde veio. Preserva-se então a in­certeza e as infinitas possibilidades.

Talvez assim também seja com o afeto, com o amor, com as rela­ções, com a família.

Pode vir de qualquer lugar. De uma mulher e um homem, de dois homens, de duas mulheres, de uma mulher e um cão, de um tio e um sobrinho, de dois irmãos, de uma mãe e seu filho, de uma criança e seus avós e, ainda, de lugar ne­nhum — pode vir porque veio, sem estrutura, sem identificação.

Todas as estruturas e desestru­turas são afeto. Todos os indivídu­os e seus rebentos, sentimentais ou biológicos, são família.

Todo amor deve ser livre, mas, pena que não sejam.

Alguns intentam em aprisiona­ -lo ao obscurantismo e a falácia da tradição, no caminho onde o amor não é livre, onde o afeto é estatu­tário e institucionalizado, onde as relações devem corresponder a prescrição da norma, onde homem é homem e mulher é mulher e sua função não é promover o amor, mas, procriar, preservar institui­ções invisíveis e inacessíveis.

Estatuto de qualquer coisa, es­tatuto da inexistência, estatuto de ninguém.

Como amar em tempos mortos onde o amor só é amor se norma­tivo?

Só é amor se tradicional, hete­rossexual, machista, egoísta, cas­to…

À nós, fadados a marginali­dade, transgressão, inadequação, preconceito e inexistência resta a resistência.

Declarar o amor como o maior ato político.

Imagem: Ferdinando Scianna, Stazioni, 1991

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