“Amar em tempos mortos” por Jonas del Nobile

Alheio as cláusulas do contrato social, o amor talvez seja o último sustentáculo da liberdade. Quando nos despimos de todos as camadas e invenções, de todo nosso orgulho e crença. Saltamos em direção a um futuro incerto, sem estrutura pré-definida.
O que o amor nos reservará? A Santa Trindade abençoando as nossas relações? A marginalidade dos amores proibidos? A transgressão dos corpos abjetos?
Qual o projeto de amor para cada um de nós?
Na física moderna, tem prosperado o conceito da incerteza que exclui a possibilidade de fazer previsões porque dizem ser impossível definir com precisão a posição e o momento de cada partícula.
Não sabemos para onde vai e da onde veio. Preserva-se então a incerteza e as infinitas possibilidades.
Talvez assim também seja com o afeto, com o amor, com as relações, com a família.
Pode vir de qualquer lugar. De uma mulher e um homem, de dois homens, de duas mulheres, de uma mulher e um cão, de um tio e um sobrinho, de dois irmãos, de uma mãe e seu filho, de uma criança e seus avós e, ainda, de lugar nenhum — pode vir porque veio, sem estrutura, sem identificação.
Todas as estruturas e desestruturas são afeto. Todos os indivíduos e seus rebentos, sentimentais ou biológicos, são família.
Todo amor deve ser livre, mas, pena que não sejam.
Alguns intentam em aprisiona -lo ao obscurantismo e a falácia da tradição, no caminho onde o amor não é livre, onde o afeto é estatutário e institucionalizado, onde as relações devem corresponder a prescrição da norma, onde homem é homem e mulher é mulher e sua função não é promover o amor, mas, procriar, preservar instituições invisíveis e inacessíveis.
Estatuto de qualquer coisa, estatuto da inexistência, estatuto de ninguém.
Como amar em tempos mortos onde o amor só é amor se normativo?
Só é amor se tradicional, heterossexual, machista, egoísta, casto…
À nós, fadados a marginalidade, transgressão, inadequação, preconceito e inexistência resta a resistência.
Declarar o amor como o maior ato político.
Imagem: Ferdinando Scianna, Stazioni, 1991
