“PURIS, OS AUDAZES” por Bruno Duarte

O Puri
O Puri
Aug 23, 2017 · 3 min read

(ANO. 01 — NUM.01)

Os Índios Puris, ao mesmo tempo que tantos outros na­tivos, ocuparam extensas áreas da região do Vale do Paraíba e da Ser­ra da Mantiqueira e, ao que tudo indica, permaneceram ao longo dos séculos seiscentos, setecentos e oitocentos, nesta terra que hoje é Pindamonhangaba. A região do Vale do Paraíba foi umas das pri­meiras regiões no interior do Bra­sil a ser desbravada e, ao mesmo tempo, explorada pelos portugue­ses, através das entradas, bandei­ras e apresamentos, ocasionando a expulsão ou a aculturação dos índios desta região.

Conforme indica o pintor fran­cês Debret, que permaneceu no Brasil de 1816 a 1831, o nome Puri é uma designação dada com um caráter pejorativo “O nome gené­rico da nação Puri, tem sua origem na língua dos Coroados, e quer di­zer audaz ou bandido. Esse nome insultante foi-lhe dado pelos Co­roados por causa da guerra contí­nua que lhe movem […]”1 . Mesmo originário do povo com o qual se combatia, já se denotam atributos de gente não resignada ou mansa, ao contrário, significa um tom de gente combativa, destemida, atre­vida.

Uma outra observação feita pelo pintor alemão Rugendas, que em sua primeira estadia no Brasil, durante os anos de 1822 a 1825, “Eles (Puris) não tem, aliás, objetipontua um aspecto da etnia Puri vos políticos; entre eles, um peque­no número de homens que sabe, de uma maneira muito vaga, que seus adversários constituem um todo, em estado governado por um chefe comum.”­. O que pode se in ferir, para além dos contatos com agrupamentos de homens brancos, a capacidade de engendrar, mesmo de um modo incipiente, uma per­cepção abrangente de um estado de coisas que os afligiam, ou seja, os Puris tinham alguma consci­ência das relações das atuações portuguesas que se davam ao seu entorno. ­

Da mesma forma que os anti­gos Puris, este coletivo é oriundo dessas terras, em movimento, por motivos distintos. Porém, a luta persiste: de não ser subjugados, aculturados, pela massificação das ideias. Agora, munidos não mais com arcos e flechas, são no­vos tempos, mais sim com outros artifícios. Enfim, esta folha pre­tende ser um instrumento para o diálogo, no sentido de abertura de fala e escuta sobre algo, de inclinação a reflexão, a fim de pro­porcionar uma outra percepção, uma nova vista de um ponto, com novos contornos, relevos e cores, em oposições ás manifestações e ás restrições dos pré-conceitos e estereótipos. ­

Para finalizar este pequeno es­crito, gostaria de deixar um trecho do Recado ao Jovens do pindense Waldemiro Benedito de Abreu no livro Pindamonhangaba — Tempo e Face.

“Nossa gente se faz notória por uma aspiração à autonomia e à au­todeterminação, que ainda não se realizou completamente. É carac­terística primacial sua.”

Glossário: Aculturação é o con­junto de fenômenos que resultam de um contato contínuo de grupos culturais diferentes e que provo­cam mudanças nos modelos cul­turais iniciais de um ou dos dois grupos.

1 DEBRET, Jean Baptiste. Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil. Tradução e notas de Sérgio Millet. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia, 1978. p.69.

2 RUGENDAS, G. M. Viagem Pi­toresca Através do Brasil. Tradução e notas de Sérgio Millet. ed: 7. São Paulo: Martins, 1976. p.98.

3 ABREU, Waldomiro Benedito de. Pindamonhangaba: Tempo e Face. Aparecida-SP, Editora Santuário, 1977. p. 403

Foto: Puris, acima, e camacans, abaixo (litogravura, 22,3 x 19,5 cm), de Johann Moritz Rugendas (1802–1858). Século XIX. Acervo Artístico-Cultural dos Palá­cios do Governo, São Paulo.

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