“PURIS, OS AUDAZES” por Bruno Duarte

(ANO. 01 — NUM.01)
Os Índios Puris, ao mesmo tempo que tantos outros nativos, ocuparam extensas áreas da região do Vale do Paraíba e da Serra da Mantiqueira e, ao que tudo indica, permaneceram ao longo dos séculos seiscentos, setecentos e oitocentos, nesta terra que hoje é Pindamonhangaba. A região do Vale do Paraíba foi umas das primeiras regiões no interior do Brasil a ser desbravada e, ao mesmo tempo, explorada pelos portugueses, através das entradas, bandeiras e apresamentos, ocasionando a expulsão ou a aculturação dos índios desta região.
Conforme indica o pintor francês Debret, que permaneceu no Brasil de 1816 a 1831, o nome Puri é uma designação dada com um caráter pejorativo “O nome genérico da nação Puri, tem sua origem na língua dos Coroados, e quer dizer audaz ou bandido. Esse nome insultante foi-lhe dado pelos Coroados por causa da guerra contínua que lhe movem […]”1 . Mesmo originário do povo com o qual se combatia, já se denotam atributos de gente não resignada ou mansa, ao contrário, significa um tom de gente combativa, destemida, atrevida.
Uma outra observação feita pelo pintor alemão Rugendas, que em sua primeira estadia no Brasil, durante os anos de 1822 a 1825, “Eles (Puris) não tem, aliás, objetipontua um aspecto da etnia Puri vos políticos; entre eles, um pequeno número de homens que sabe, de uma maneira muito vaga, que seus adversários constituem um todo, em estado governado por um chefe comum.”. O que pode se in ferir, para além dos contatos com agrupamentos de homens brancos, a capacidade de engendrar, mesmo de um modo incipiente, uma percepção abrangente de um estado de coisas que os afligiam, ou seja, os Puris tinham alguma consciência das relações das atuações portuguesas que se davam ao seu entorno.
Da mesma forma que os antigos Puris, este coletivo é oriundo dessas terras, em movimento, por motivos distintos. Porém, a luta persiste: de não ser subjugados, aculturados, pela massificação das ideias. Agora, munidos não mais com arcos e flechas, são novos tempos, mais sim com outros artifícios. Enfim, esta folha pretende ser um instrumento para o diálogo, no sentido de abertura de fala e escuta sobre algo, de inclinação a reflexão, a fim de proporcionar uma outra percepção, uma nova vista de um ponto, com novos contornos, relevos e cores, em oposições ás manifestações e ás restrições dos pré-conceitos e estereótipos.
Para finalizar este pequeno escrito, gostaria de deixar um trecho do Recado ao Jovens do pindense Waldemiro Benedito de Abreu no livro Pindamonhangaba — Tempo e Face.
“Nossa gente se faz notória por uma aspiração à autonomia e à autodeterminação, que ainda não se realizou completamente. É característica primacial sua.”
Glossário: Aculturação é o conjunto de fenômenos que resultam de um contato contínuo de grupos culturais diferentes e que provocam mudanças nos modelos culturais iniciais de um ou dos dois grupos.
1 DEBRET, Jean Baptiste. Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil. Tradução e notas de Sérgio Millet. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia, 1978. p.69.
2 RUGENDAS, G. M. Viagem Pitoresca Através do Brasil. Tradução e notas de Sérgio Millet. ed: 7. São Paulo: Martins, 1976. p.98.
3 ABREU, Waldomiro Benedito de. Pindamonhangaba: Tempo e Face. Aparecida-SP, Editora Santuário, 1977. p. 403
Foto: Puris, acima, e camacans, abaixo (litogravura, 22,3 x 19,5 cm), de Johann Moritz Rugendas (1802–1858). Século XIX. Acervo Artístico-Cultural dos Palácios do Governo, São Paulo.
