Eu não tenho duas vidas. Infelizmente.

“The road not taken
Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;
Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim
Because it was grassy and wanted wear,
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same,
And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day! 
Yet knowing how way leads on to way
I doubted if I should ever come back.
I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I,
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.”
Robert Frost

Eu sempre fui uma pessoa ansiosa. Dessas que não para de balançar as pernas nunca. Ou de roer unhas (ainda que meu hábito não seja exatamente o de comê-las, mas sim o de remover com os dentes cirurgicamente toda e qualquer pele em volta delas). Toda e qualquer decisão me inquieta. E a demora entre minhas ações e suas consequências angustia. Como são todas as meninas comuns. Em paralelo, o peso das responsabilidades e expectativas — próprias e alheias — agravam o quadro, me entortando os ombros, assolando e assombrando os pensamentos.

Porque eu tenho vaga numa Universidade pública, de excelência, e preciso aproveitá-la ao máximo. Ser dona das melhores notas. Participar dos grupos de estudos de meu interesse. Desenvolver pesquisa. Escrever artigos. Publicar. Escolher e adentrar a extensões. Liderar dentro da extensão. E usá-las para networking. Estagiar. Ser contratada. Ou estudar para um concurso, porque o estágio acaba. E passar — deusolivre gente formada em casa. Não esqueça de ajudar em casa. E de não deixar o estresse se manifestar, afinal ninguém tem culpa. E tem que ser magra. E bonita. Mas antes de tudo magra. Leia livros, veja filmes, veja séries. Seja interessante. Porque o ponto alto da semana é a mesa de bar, e ninguém gosta de dividir a mesa com gente vazia. Mas sem pedantismo, porque ninguém gosta de gente chata. E encaixe todas essas coisas numa semana, lembrando ainda de reservar algumas horas diárias: oito de sono, uma de academia e duas no transporte público. Ufa.

E daí entramos naquela conhecida falácia, na mentirinha que contamos diariamente a nós mesmos, que impedem a exploração do que verdadeiramente gostamos, queremos ou dos caminhos pouco explorados: a história do “eu não tenho tempo para…” — que me irrita profundamente, mas que, também, muito professo.

Não é como se a minha vida fosse ruim, ou como se me exigissem muito. Não. É só que todo o tempo gasto nesse meu caminho não pode ser gasto noutro.

Queria arriscar. Tentar ser dessas fotógrafas que trabalham para o National Geographic. Ou ter o tempo necessário para tentar escrever do modo dilapidado com que Clarice fazia. Queria tentar viajar o mundo sem dinheiro no bolso, aproveitando somente a companhia do que me cruzasse a estrada. Queria tentar ser atleta. Ou artista. Ou chef de cozinha.

Queria tentar.

E os versos de Robert Frost insistem em cruzar a cabeça, sobre pegar o caminho menos atravessado. Atordoam sempre que tem chance. Porque meu caminho é mainstream. Sem volta. E alimentam os sentimentos de ansiedade. De medo. E em meio a toda essa vida que chamo de minha, (a todo o tempo gasto naquilo que me orientaram ser melhor) resta o lamento de ela seja só uma. Finita. De possibilidades limitadas. Limitadas, sim. E limitadas pelo próprio tempo.

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