Gabriel Santiago
Jul 27, 2017 · 2 min read

Para uma cientificidade do Flerte

ou Uma bem estruturada elaboração de uma paranóia

Percebe-se, através de meticulosas análises empíricas, e respeitados os preceitos científicos lhes concernentes, que há dois tipos de indiferenças: a) a ingênua; e b) a dirigida.
A indiferença ingênua é uma prática reproduzida diuturna e ininterruptamente por todos os animais. Todos os seres investidos de um aporte sensorial apto a traduzir o mundo externo, com seus perigos, possibilidades inumeráveis e eventualidades inescapáveis, em um mapa esquemático subjetivo e acessível, necessitam negligenciar certos aspectos da realidade extrasubjetiva. Caso contrário, estariam à mercê da eventual cognição de percepções descartáveis e inúteis para fins práticos. Em outras palavras: para se evitar a overdose de acumulação de informações não absolutamente necessárias para o bom funcionamento de seus organismos, os animais precisam ignorar detalhes do mundo ao seu redor. Esse mecanismo de auto conservação responsável pela desconsideração de elementos não vitais caracterizar-se-ia por uma indiferença maquinal, não refletida - ou seja, ingênua.
De uma ingenuidade peculiar seria, por outro lado, se se imaginasse que nós, humanos razoavelmente racionais, somos movidos somente por motivações inerentes ou instintuais. Descendentes culturais de angelicais gênios das artes, de supervalorizados líderes imperialistas e de mal compreendidos vilões de quadrinhos, somos um amálgama quase indiscernível de comportamentos, escolhas e desejos que ultrapassam qualquer lógica fatalista, seja ela biológica ou teológica. Localiza-se entre os meandros quase incompreensíveis da particular condição humana, portanto, o segundo subtipo da indiferença - b) a dirigida.
A indiferença dirigida é uma curiosa prática que destoa em relação à indiferença ingênua quanto a seus pressupostos fundantes: a indiferença dirigida é forjada, suplementar, intersubjetiva e necessariamente erótica.
A indiferença dirigida implica, por sua vez, uma tentativa de criação, por um agente, de um suposto laço bilateral de indiferença, que envolve-o a si mesmo e a um segundo. Sob a aparência de um natural e espontâneo desapercebimento do outro, funda-se uma relação cínica que visa a sedução a partir do jogo ilusório dos contrários: o segundo sujeito, ao se aperceber irrelevante, almejaria o primeiro.
O sujeito à priori expectante pelo olhar do outro, efetivamente desejante de se satisfazer sexualmente, ou simplesmente ensandecido pelo ímpeto de converter o outro no agente que ativamente deseja, invertendo os papeis, apresenta-se corrigivelmente, mas ainda assim de maneira indelével, como um risível humano.

    Gabriel Santiago

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