Receita para o amor
Era feio e acabrunhado que doía no juízo. Figura medonha, inspirava repulsa só pela barba mal lavada e fora de tom, feito bicho predador que, com o fuzil na mão, escondia-se sob manguezais nas guerrilhas tropicais de que falam. Figura de estranha harmonia: só podia desconhecer a razão.
E ainda fantasiava delírios e sandices das mais lógicas, o desgraçado. Meio lunático e meio profeta. Talvez até mais um meio, vai que se completa a tríplice do encanto - mais meio criminoso.
Achamos, finalmente, amigos, mas realmente após anos de esforço, o endiabrado apto a ser submetido ao nosso método de criação do humano belo. Só precisamos de uma cruz - ou até um poste, já que não sei em que pé já anda a modernidade -, um aparelho com ponta capaz de expurgar o pecado da nossa cobaia e um pouquinho de fé no bem, que não faz mal a ninguém. O segredo, irmãos de obras, é tentar coisar o negócio do indivíduo até ele ficar todo pálido de anemia, assim, sem sangue mesmo correndo dentro dele. Depois a gente prega ele na superfície vertical ou horizontal escolhida, depois dele ter concordado, claro, tudo certinho, e aí é só esculhambar ele, a mãe, os avós, o filho que ele fez na menina filha da empregada também, certeza, e se resolve parte do tumulto. O resto a gente deixa pros urubus, ou, caso não deem jeito na bagunça toda, os carcarás sempre estão na instiga de limpar o mal que sobra no chão.
Daí, chama-se um sabido letrado pra escrever um livro sobre os acontecimentos. Ele, no início da negociação, vai ficar meio tímido, mas é só mencionar a opinião pública que a querela se resolve por completo.
