Nunca fui chamado de macaco

Lembro quando no primeiro período da faculdade, minha amiga Thais (que é negra) entrou na sala e uma professora disse:
“Ah, agora que você chegou eu lembrei. Quem é de cotas aqui?”
Eu fiquei chocado. Era mais uma vez o cotidiano denunciando essas amarras que te limitam antes mesmo de você mostrar o potencial que tem.
Esse dia e vários outros mostraram pra mim o quão não sensibilizados alguns professores são com a questão racial que é o ensino universitário no Brasil. Por causa da forma que nosso país foi colonizado e por causa da economia escravista que movimentou o país pela maior parte da sua existência, nós negros herdamos pobreza, limitações e miséria. Gerações e gerações de pessoas com mínimas oportunidades e chances de sair do universo limitado no qual foram inseridas.
No meu primeiro estágio presenciei uma situação que revira o meu estômago até hoje. Um dia a minha chefe (branca e moradora da Zona Sul do Rio) trocou o seguinte diálogo com a responsável do financeiro (negra e moradora da Zona Sul do Rio):
Chefe escrota: Fulana, pode pegar tal coisa pra mim?
Moça do Financeiro: E eu lá tenho cara de motoboy?
Chefe escrota: Cara, não. Só cor.
Olha, eu nunca fui chamado de macaco. Eu reconheço os meus privilégios. Sei que nunca vou sofrer preconceito da forma que minha amiga Thais Cantelmo sofre. Sei que a minha pele mais clara não vai fazer entrevistador nenhum me negar uma vaga. Um policial ou outro pode me parar ou segurança pode me seguir em uma loja. Mas são casos bem isolados.
O racismo instigado pela aparência não me atacou de forma tão agressiva. Mas o racismo sistemático, sim. Esse racismo limitou as oportunidades da minha família, fez com que a gente morasse na favela de Manguinhos e depois na Baixada Fluminense.
Mas eu dei sorte. Minha avó estimulava a educação, em grande parte porque ela nunca teve acesso quando ela morava no sertão. Minha avó sempre deixou claro pra minha mãe e tias que a educação era a única forma de crescer na vida. Por causa disso, minha mãe teve como me dar estudo de qualidade que me possibilitou chegar numa faculdade federal.
Eu achei que na faculdade de Belas Artes eu não encontraria cabeças fechadas ou racismo institucionalizado. Mas só percebi que lá ele era mais flagrante. No meu curso tenho 17 professores e nenhum deles é negro. Eu sabia que isso ia influenciar a forma que os professores iam ver (ou não ver) os obstáculos dos meus amigos na formação.
Em 2016 me inscrevi relutantemente em uma matéria. Relutantemente porque eu já sabia que a possibilidade de treta acontecer era gigante. Eu sou uma pessoa com opiniões bem fortes em alguns assuntos.
O objetivo da disciplina era definir um objeto de estudo ou um tema, pesquisar sobre, analisá-lo sob um olhar da estética e entender porque algumas pessoas acham que algo é “feio” ou “bonito”. Desde sempre um dos meus principais objetivos com design (além de provocar emoção com visuais chamativos) é evidenciar causas que não recebem a devida atenção. Como estava pesquisando bastante sobre apropriação cultural, acabei escolhendo como tema.
Nesse debate não falei só sobre pessoas brancas usando turbante. Levantei tópicos como o padrão de beleza eurocêntrico que exalta a beleza de pessoas brancas e vários outros. Falei também dos meus “privilégios” como homem negro que muita gente diz que sou pardo.
Como trabalho final, produzi dois cartazes pra esse projeto. Um mais “calmo” motivado pelo medo de ter a minha nota diminuída e outro mais agressivo e militante.

Mas pera, por que eu fiz um menos agressivo?
Quando percebi que eu estava me censurando para não ofender ou agitar uma pessoa que tem mais dinheiro, privilégio e influência do que eu, entendi como a opressão funciona em todos os sistemas. E eu nem acredito que a professora em questão seja racista. Ela só é mal informada, ela é um produto do meio dela.
Foi aí que entendi que as pessoas com o maior privilégio nem precisam pensar sobre como vão te oprimir porque você já se oprime e se cala por medo das consequências. Tudo faz parte da engenharia do preconceito. O subjugado sempre sente medo do dominante e sempre tem a percepção de que a sua posição é vulnerável demais.
Até mesmo esse texto que demorou mais de seis meses pra sair. Tudo isso porque eu tinha medo das consequências, medo de como as pessoas iriam reagir. Mas eu decidi abrir mão disso.
Então esse sou eu, sem medo das consequências.
