O homem sem memória acordou. O homem sem memória se levantou, arrumou a sua cama, tomou seu banho, comeu seu pão com café. O homem sem memória saiu de casa cedo, e ainda assim, já estava levemente atrasado.
O homem sem memória pegou a condução lotada para seu trabalho. Durante o caminho, ele não pensava em nada. Seus problemas de ontem, de amanhã, de mais tarde, não estavam em lugar algum. O homem sem memória não tinha memória.
O homem sem memória chegou em seu trabalho atrasado e tomou um esporro do chefe. O homem sem memória foi ignorado pelos seus colegas de trabalho. O homem sem memória não sabia o porquê de seus colegas terem tamanho desgosto por ele. Não sabia o que tinha feito. Se tinha feito algo, não lembrava. Ele não tinha memória.
O homem sem memória fez seu trabalho sem muito esmero e voltou para casa. O homem sem memória verificou seus e-mails e mensagens. Ele leu mensagens de preocupação, de amizade, de indiferença, de paixão. O homem sem memória não lembrava o que tinha feito para receber qualquer uma daquelas palavras. O homem sem memória via as fotos das pessoas e não tinha certeza se as reconhecia. Não tinha como reconhecê-las. O homem sem memória não tinha memória.
O homem sem memória botou seu pijama, escovou seus dentes, e se olhou no espelho. O homem sem memória não reconhecia o rosto que olhava de volta. O homem sem memória não se reconhecia havia muito tempo, mas ele nunca se lembrava disso. O homem sem memória não se lembrava do homem sem memória.
O homem sem memória se deitou, fechou os olhos, e dormiu. O homem sem memória esqueceu disso tudo.
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