Agricultura Urbana: O que há de novo na velha prática de plantar em casa

De pequenas hortas dentro do apartamento até grandes investimentos empresariais, como o antigo hobby tornou-se pauta de debate ambiental.

Orlando Adriano Moraes

Estudante de Jornalismo Ambiental da Uniritter

Que o Centro Histórico de Porto Alegre guarda diversas peculiaridades não é nenhuma novidade. O que nem todo mundo sabe é que no bairro, mais precisamente na Rua José do Patrocínio, número 66, perto do cruzamento com a Coronel Genuíno, existe um “Jardim Secreto”.

Assim apelidado pelos moradores do bairro, integrantes da Associação de Hortas Coletivas do Centro Histórico (AHCCH), o terreno de propriedade da Prefeitura Municipal (PMPA), está totalmente desocupado.

Terreno na Rua José do Patrocínio, nº 66, no Centro de Porto Alegre. / Foto: Arquivo AHCCH.

Da rua, pode até passar despercebido aos olhos dos que por ali trafegam, mas chamou a atenção dos moradores que em 2016 criaram um projeto para reutilizar as dezenas de metros ociosos.

A associação pressiona, desde então, para que a PMPA disponibilize o terreno, para que eles possam instalar ali uma horta comunitária.

A horta, que segundo a idealizadora e presidente da AHCCH, a jornalista Carmem Fonseca teria o envolvimento de mais de 500 pessoas, de 5 bairros (Centro, Cidade Baixa, Menino Deus, Bom dia e Praia de Belas), fortalecendo os laços da comunidade e promovendo a saúde e a educação ambiental.

A prefeitura não quer ceder o espaço, garantindo já ter destino certo para o mesmo.

“A burocracia e a falta de incentivo do poder público dificultam muito a realização de nossos projetos, mas não vamos desistir. Acreditamos na revolução através da comida. Plantando de uma forma orgânica podemos comer alimentos sem veneno, contribuir com o meio ambiente e consumindo produtos locais”, garante Carmem.

Agricultura Urbana

A base para o projeto dos moradores do Centro Histórico é um conceito não tão recente, o da Agricultura Urbana (AU). Trata-se, como o próprio nome sugere, do plantio e cultivo de alimentos dentro do perímetro urbano de uma localidade.

Este estilo de produção é utilizado de diversas maneiras pela humanidade. Seja de maneira individual, nas mini-hortas dentro de casa, ou coletivo como o projeto das hortas do Centro — que também ocorre em outros bairros da capital, como no bairro Floresta, ou as hortas no Arado Velho e da Lomba do Pinheiro. Também sendo utilizado como forma de negócio por diversas pequenas, médias e até grandes empresas.

A agricultura urbana (AU) é hoje, prática incentivada pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (ONU/FAO) como estratégia de aumento da resiliência das cidades e adaptação às mudanças climáticas. Responsável, segundo o estudo Estado do Mundo — Inovações que Nutrem o Planeta, da Worldwatch Institute (WWI), por 15% a 20% de todo o alimento produzido no mundo.

A pauta foi o tema da tese de mestrado de Jessica Moreira Souto, do Programa de Pós Graduação em Agronegócios da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Em sua dissertação, Jessica evidenciou a evolução da agricultura urbana e seu progresso no mundo. Para ela, são muitos os conceitos envolvidos na temática. “Tudo depende de quem está envolvido e qual a meta. A Agricultura Urbana (AU) é um movimento que não é “novo”, só estamos experimentando um boom recente que tem se mecanizado. Com o aporte da tecnologia, empresas estão se desenvolvendo e com isso modelos de negócios. Talvez esse seja o ponto crucial da diferenciação dessa terceira “onda” de AU.” comenta ela.

Exemplo da “nova onda” de AU citada por Jéssica é a proposta do restaurante, há pouco inaugurado, Urban Farmcy. Com sede no bairro Moinhos de Vento em Porto Alegre, o empreendimento é resultado de uma imersão de 2 anos de estudos dos sócios idealizadores, pela Europa e Estados Unidos.

O restaurante localizado no bairro Moinhos de Vento, procura oferecer aos clientes, mais que um cardápio, um conceito. Fotos: Orlando Moraes

O restaurante baseia-se em conceitos como Plant Based (alimentação à base de plantas) e produção Hiperlocal (a produção mais próxima de onde vai ocorrer o consumo) para oferecer aos clientes muito além de um cardápio colorido e saboroso.

“O que queremos não é iniciar apenas um novo estilo de restaurantes e sim criarmos junto da nossa rede de colaboradores e clientes uma revolução na forma de nos alimentarmos”, afirma Thiago Loth, um dos sócios da Urban Farmcy.

Thiago Loth, um dos sócios idealizados do Urban Farmcy. / Foto: Orlando Moraes

Ousada, a proposta dos empresários difere-se em diversos pontos do atual movimento de desenvolvimento da agricultura urbana. Ao invés de estruturas milionárias em grandes galpões ou terraços, buscam escala através da coletividade. “Acreditamos que a única forma de redefinir o futuro da alimentação é engajando cada vez mais pessoas e, para isso, precisamos dar a oportunidade para que todos possam fazer a sua parte neste movimento transformador. Por isso, estamos estruturando uma rede de fazendeiros urbanos” garante Thiago.

Módulos de produção hiperlocal do Urban Farmcy. / Crédito: Orlando Moraes

Grande parte dos ingredientes que compõem os pratos do cardápio são produzidos dentro de módulos de plantio hidropônico. Verdadeiras “mini-fazendas” urbanas com controle de irrigação mecanizado, separadas dos clientes apenas pelas paredes de vidro que a revestem.

Nos módulos são cultivados a Kale, uma espécie de Couve Crespa, rica em fito nutrientes e antioxidantes e os Microgreens, vegetais em seu segundo estágio de vida, entre 7 a 14 dias após a germinação, entre eles a Beterraba, Rúcula, e a Wheatgrass (Grama de Trigo).

Segundo Thiago, uma equipe de pesquisadores composta por profissionais de diversas áreas está desenvolvendo módulos menores, individuais. “A ideia é que até dezembro tenhamos protótipos para distribuir para colaboradores, para que no futuro qualquer pessoa pode ser um Urban Farmer, bastando ter espaço em casa para receber os módulos e muito interesse em fazer parte dessa revolução”, sinaliza.

O veneno está na mesa

O crescimento de projetos e empreendimentos em torno da agricultura urbana não deve-se apenas ao interesse em melhor utilizar espaços urbanos. O fato é que já há algum tempo, pesquisadores do mundo todo alertam para os dados alarmantes no que tange aos impactos causados à nossa saúde e ao meio ambiente, pelo gigantesco mercado de produção de alimentos.

O Brasil, líder no ranking mundial de consumo de agrotóxicos, se utiliza de 1 milhão de toneladas por ano. Isso representaria, segundo o Dôssie Abrasco, um consumo médio de 5,2 kg de veneno agrícola por pessoa.

Ainda segundo o dossiê, pelo menos 64% dos alimentos produzidos no país estão contaminados por agrotóxicos. Tal contaminação traz enormes prejuízos à saúde. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), os agrotóxicos estão vinculados a doenças como o câncer, Alzheimer e Parkinson, além de problemas hormonais, de desenvolvimento e de fertilidade, e até mesmo a casos de suicídio .

Entre 2007 e 2014, segundo o Ministério da Saúde, foram registrados 34.147 casos de intoxicação direta por agrotóxicos. Ao mesmo tempo, a indústria produtora de veneno agrícola cresceu surpreendentes 190% entre 2000 e 2010, muito acima da média mundial de +93%, faturando só em 2014, mais de U$ 12 bilhões.

Dados do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos — PARA (2013–2015) da Agencia Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) alertam para os alimentos com maior risco de causar intoxicação por agrotóxicos. O estudo analisou 12.051 amostras, de 25 tipos de alimentos em todas as capitais do Brasil.

Agroecologia

Os problemas gerados pelos agrotóxicos não são os únicos no que diz respeito à relação entre a produção de alimento e a saúde do homem e do meio ambiente. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), a produção animal é um das maiores responsáveis pelos mais sérios problemas ambientais, em todas as escalas. Entre os dilemas que a envolvem estão os uso exacerbado de recursos hídricos, a emissão de gases poluentes e o desmatamento, que cobriu parte da Amazônia de pasto para o gado.

É pensando no crescimento populacional desregrado, onde em 2030 mais de 80% da população mundial viverá nas cidades, e analisando a crise na produção de alimentos, tanto no que se refere à escassez de recursos, quanto nos problemas causados ao meio ambiente, que estudiosos e ambientalistas se debruçam sobre as pesquisas da agroecologia.

Ainda que a agricultura urbana contribua de certa maneira, com questões relacionadas por exemplo à fome e desnutrição, que assola cerca de 815 milhões de pessoas em todo o mundo, segundo dados da ONU, a redução na emissão de gases gerada pela produção urbana está muito abaixo do necessário. É o que defende um estudo sobre hortas urbanas nos Estados Unidos, publicado neste ano na revista Environmental Science & Technology, que apontou uma redução mínima de 2,9% da emissão de carbono, quando comparada a agricultura tradicional.

“A agricultura urbana tem limitações e é uma atividade complementar. É a recuperação de algo que sempre tivemos. As hortas comunitárias, por exemplo, são um ponto de partida para projetos de agricultura urbana e relacionamentos mais saudáveis com os espaços públicos. Mas isso não pode ser superestimado como uma solução para os graves problemas que temos em relação ao mercado de produção alimentícia e o meio ambiente”, alerta o ambientalista gaúcho Francisco Milanez, presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (AGAPAN).

“Precisamos pensar de uma maneira mais ampla. Reavaliar todo o contexto da nossa relação como parte do meio ambiente em que vivemos. Essa reflexão ampla é o que trabalha a agroecologia”, continua Milanez, ao afirmar que o momento é de atitudes drásticas, em que segundo ele só nos restam duas opções de sobrevivência; A primeira, um boicote total à indústria de alimentos, e aos agrotóxicos, o que é improvável, ou a segunda, uma forte pressão por parte da própria sociedade para que se aumente o rigor da legislação de fiscalização, bem como uma ampliação do fomento à práticas agroecológicas, tanto por parte dos governos, quando dela mesma.

Verde de esperança

Em Porto Alegre, entre os muitos projetos voltados à educação e agroecologia, encontra-se o Curso de Horta Vertical do Morro da Cruz. Criado pelo Centro de Inteligência Urbana (CIUPOA) em parceria com a Emater e a Associação dos Moradores do Morro da Cruz, o curso visava primeiramente ensinar os adultos a produzir em casa uma horta vertical de garrafas pet.

Curso de Horta Urbana do CIUPOA. Crianças do Morro da Cruz, ao lado de Tânia Almeida coordenadora do projeto. / Foto: Arquivo CIUPOA.

“No início, apenas com o curso de hortas, tivemos algumas falhas. A falta de cuidado com a terra, com as sementes, entre outros problemas. Repensamos, e resolvemos reinventar a lógica do curso. Começamos então um curso de gastronomia saudável para adultos, e queremos fazer o mesmo com as crianças do bairro. A partir disso teremos além do simples curso de plantio, o que qualquer um faz, um repasse de consciência ecológica. Plantar, colher e cozinhar aquele alimento, entender sua importância, de onde vêm, com respeito à nossa saúde e ao meio ambiente”, conta Tânia Pires, coordenadora do CIUPOA.

No mesmo sentido caminha o projeto do Curso Técnico em Agroecologia do Instituto Federal do Rio Grande do Sul, Campus Restinga. Ministrado no turno da noite, no modelo de ensino ProEJA (educação de jovens e adultos, associado ao ensino médio), o curso teve início com sua primeira turma no segundo semestre de 2017. Hoje, com 28 alunos regularmente matriculados, conta com a parceria de entidades ambientalistas, de educadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e da Emater.

“Nós e os alunos estamos bastante entusiasmados com o curso. A agroecologia, na qual o curso se baseia, é uma força de pensamento que vai contra uma hegemonia da tradicional indústria de alimentos, e que traz avanços importantes tanto na prática de consumo, quanto na reflexão do nosso papel como sociedade”, afirma a professora Milena Silvester Quadros, coordenadora do curso.

Ideias como essas refletem a luta de classes ambientalistas e de pesquisadores por uma mudança no pensamento da população, no que se refere ao meio ambiente. As ações, sejam elas individuais ou coletivas, precisam voltar-se ao bem estar social de humanos, animais, plantas e o ambiente como um todo. É razoável e imprescindível pensar a produção de alimentos e a preservação ambiental, ambas em conjunto, como pré-requisitos da existência de todas as espécies.

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