Por uma militância que se contemple

Hoje, 17 de maio, é o dia internacional de combate à homofobia, e eu, enquanto viado com alguma consciência política que convive com muitas pessoas que fazem ativismo, sinto um certo peso moral em precisar me pronunciar, coisa que pouco faço.

São nesses momentos que percebo que habito uma zona de conforto enorme. Com o amadurecimento da minha sexualidade e da minha mentalidade, eu naturalmente fui me cercando apenas de pessoas que tivessem entendimento ou estivessem inseridas na causa LGBT (em especial quando adentrei o meio universitário). Assim, eu sinto que seria redundante falar sobre respeito às diferenças, conscientização e educação sobre sexualidade no perfil de uma rede social que só está ao alcance de pessoas que já conhecem essas questões.

Em contrapartida, me parece que este talvez seja um bom momento para eu abordar alguns questionamentos que tem latejado na minha cabeça nos últimos dias.

Eu sinto que, de certa forma, minha vida inteira sempre foi naturalmente bicha, mesmo antes de eu tomar ciência disso. Muitos gostos meus eram de bicha, a maioria dos amigos que fiz na escola foram saindo do armário um por um, muitas experiências que eu tive eram comuns a uma bicha, meus trejeitos sempre foram de bicha. Eu nunca fui, ou pude ser, fora do meio. E, ainda assim, sempre me senti um tanto deslocado da chamada “comunidade gay” em certos âmbitos.

O meu contato com militância começou pela internet, coincidentemente na mesma época em que eu entrei na faculdade. Antes disso, a ideia que eu tinha sobre ativismo LGBT era: “casamento gay”. A partir de certos grupos e páginas, fui conhecendo melhor as pautas do ativismo gay. Aprendi sobre heteronormatividade, o papel nocivo do cristianismo conservador na nossa sociedade e a celebração da nossa subversão da norma sexual. Também fui me aprofundando no conhecimento do ativismo das outras letras da sigla, bem como do feminismo e do movimento negro.

Com o passar do tempo, vi os debates dos outros círculos militantes se expandirem, enquanto outras pautas surgiam e algumas ficavam pra trás. Mas, de alguma forma, as pautas do G sempre pareciam ficar na mesma.

Comecei a conhecer outros gays que se sentiam deslocados da comunidade, e o que antes eu achava ser um problema particular meu foi se revelando como uma constante, pois é um distanciamento presente nas vivências de muitos meninos que eu vejo.

Então percebi que, enquanto os outros movimentos sociais desenvolvem discussões cada vez mais avançadas e articuladas sobre suas pautas, o movimento gay só consegue esgotar os seus discursos e perder relevância, pois continua batendo nas mesmas meia dúzia de teclas, sem aprofundamento do debate e sem expansão para novas temáticas.

Não me levem a mal, tenho plena consciência de que assuntos como o empoderamento da bicha afeminada, a legitimação do amor entre homens e a naturalização da nossa sexualidade (entre outros) são questões vitais. O que suponho que aconteceu foi que, sendo nós o movimento social com, talvez, a maior visibilidade na grande mídia, acabamos tomando algumas dessas ideias, as mais suscetíveis à aceitação do grande público, como os carros-chefes da militância. E resumimos nosso fazer político a elas.

Entre isso, e revidar contra os ataques constantes da grande massa conservadora e cristã do país, nos esquecemos de dar a atenção a temas que dizem mais respeito a nossa própria comunidade, e que não deveriam ser ignorados.

Pouco se fala sobre a normatização extrema de corpos na nossa cultura. Sabemos que nossas representações na mídia sempre exibem corpos brancos e sarados. Assim, 2% da comunidade se sente representada. E é assim que vemos tantos casos de homens gays com transtornos alimentares.¹ Quem fala sobre isso? Geralmente as comunidades ursinas e negras, que são os atingidos mais severamente por essa padronização. Mas pouco se vê do assunto nos veículos de militância mais conhecidos, ainda que estes prezem pela interseccionalidade.

O amor homossexual só tem beleza nos ratos de academia.

Similarmente, a heteronormatividade é um tópico muito abordado por estes mesmos veículos, mas a heteronormatização das relações sexuais gays nunca é questionada: a polarização de papéis sexuais entre ativo e passivo, dominador e submisso, masculino e feminino, construção praticamente solidificada dentro da nossa cultura, que parte da ideia de que o sexo só é legítimo quando apresenta um falo penetrando um orifício - ideal completamente patriarcal que não passa de uma emulação do coito heterossexual. Não afirmo que o sexo anal deve ser repudiado ou que gostar de ser puramente ativo ou passivo na cama vai de encontro com ter consciência política, mas que existe uma concepção hegemônica de que esta é a única maneira possível de ter uma relação sexual verdadeira. E esse conceito é nocivo para os muitos homens que repudiam a penetração.

Continuando no âmbito sexual, nunca me passou pelos olhos um canal ou página militante de alta visibilidade que tivesse uma visão crítica da indústria pornográfica. Os únicos LGBTs militantes que conheci que abordavam o pornô faziam isso de maneira celebrativa, pois o colocavam como uma via de libertação sexual e subversão da norma. Ignorando que esse mercado mundial multibilionário (subversão lucrativa ao capital?) reitera questões que deveriam se chocar contra as concepções de qualquer indivíduo politizado sobre a sexualidade: heteronormatização do sexo gay, fetichização do homem hétero/negro, estupro, abuso e desprezo ao passivo da relação, pedofilia/fetichização de relações entre adultos e menores de idade, entre outros. Creio que é importante analisar a relação das bichas jovens com a pornografia, pois ela se dá de maneira muito diferente do que com heterossexuais. O pornô, para nós, acaba se tornando um canal pra exercitarmos nosso tesão em uma época em que ele ainda nos parece proibido e/ou errado. Por isso podemos acabar nos enganando e o retratando como um canal para a libertação.

Um dos vídeos mais famosos e mais consumidos pela comunidade gay brasileira retrata um estupro no vestiário de um presídio.

E já que mencionei pedofilia, alguém já viu a naturalização de relações pedófilas ser questionada em qualquer veículo ativista? É conhecimento comum que relacionamentos entre meninos gays menores de idade e homens mais velhos são de grande recorrência no nosso meio. É muito fácil encontrar textos feministas dissecando as problemáticas dessas relações entre homens e mulheres, mas em nenhum lugar essas ponderações são aplicadas às relações entre homens. Muitas vezes, garotos que ainda estão desenvolvendo sua maturação mental e sexual se veem envolvidos com homens 10, 20, 30 anos mais velhos porque não se sentem satisfeitos pelos meninos da sua própria idade, ou até porque se sentem indesejados dentro da sua faixa etária. A probabilidade de relações desiguais assim caírem em abusos não é baixa. Muitos homens gays relatam perderem suas virgindades com parceiros mais velhos, aonde se viram obrigados a se sujeitar a atos pelos quais não tinham desejo, por pressão do outro. Como era de se esperar, esses processos abusivos são naturalizados pela comunidade.

Por fim, eu poderia tentar elaborar sobre outras pautas ignoradas ou pouco discutidas pela militância, como a alta incidência de transtornos mentais entre homens gays, bem como o consumo de drogas. Mas gostaria de mencionar um último tópico, que é mais delicado que os outros. É muito recorrente encontrar garotos que são bem resolvidos com a própria homossexualidade e não sentem necessidade de emular a masculinidade, mas que não se relacionam amistosamente com outros gays pela repulsa ao gongo. O arquétipo da bicha-má, que destila veneno para tudo e todos, está enraizado na nossa cultura e perpassa a maioria dos nossos ambientes. Isto cria uma atmosfera tóxica em espaços que deveriam ser seguros para nós, nos separa e nos faz sentir ranço pela nossa própria comunidade. Na nossa articulação sobre nos empoderarmos enquanto bichas, enaltecemos a aproximação com a feminilidade mas esquecemos que alguns dos seus arquétipos podem não ser positivos. O que chamamos de feminino é uma maquinação do patriarcado, e esses símbolos foram criados para enfraquecer e subjugar a mulher. Muitas vezes acabamos reproduzindo estereótipos de vaidade e rivalidade, que produzem relações espinhosas entre nós mesmos. Enquanto homens que desviam da norma, rejeitar a masculinidade é um passo muito positivo, mas não podemos confundir isto com abraçar a feminilidade, indiscriminadamente, em todos os seus aspectos.

É necessário que discutamos o que quer dizer ser bicha no século 21, e que possamos pensar em identidades gays mais saudáveis.