Sobre a surdez nossa de cada dia

Se isso fosse uma conversa, você nem estaria me ouvindo.

Não é raro ouvirmos falar sobre analfabetismo funcional. Um analfabeto funcional nada mais é que alguém que sabe ler, mas que, no fundo, não entende nada do que está sendo passado. É alguém dotado da habilidade de decifrar códigos linguísticos, mas não a mensagem passada por eles.

Agora você pode estar se perguntando o que isso tem a ver com surdez… E eu explico.

Em Fight Club (Clube da Luta), filme de 1999, um dos personagens leva uma vida entediante e começa a frequentar grupos de apoio a doentes só para ter o pequeno prazer de ser ouvido. Quando perguntado sobre suas motivações, ele argumenta que, ao saberem que está morrendo, as pessoas realmente o escutam (em vez de só esperarem a vez delas de falar).

Essa passagem, como muitas outras desse filme (foda) interessantíssimo, sempre mexeu muito com a minha cabeça.

Não podemos fingir que esse é um problema que não temos. O mundo está cheio de pessoas que só estão ouvindo para poderem falar em seguida… Mais especificamente 7 bilhões delas.

Todos nós temos, seja ele em maior ou menor grau, o nosso quê egocêntrico que usa o choro de um amigo pra falar do seu. É difícil quebrar as barreiras da empatia e realmente colocar-se no lugar do outro, doar-se a ele. E isso é uma pena.

Com um mundo cada vez mais rápido, tecnológico e de menor contato pessoal, as pessoas estão brilhando por fora e chorando por dentro sem encontrar quem as ajude.

Quantas vezes no último mês você conheceu alguém e, dois minutos depois, havia esquecido o seu nome?

Não é meu objetivo praguejar contra o progresso, redes sociais e nem nada do tipo — até porque acho que vivemos em uma geração e mundo melhores que os de qualquer outra época. Só quero, com esse texto, provar uma situação que existe e que corroe relações interpessoais todos os dias.

A surdez funcional acontece quando você ouve, ouve e ouve e não entendeu nada. Você nem sequer prestou atenção. Estava pensando em como seria legal se ganhasse um aumento, na viagem do final do ano e até no seu cachorro… Menos no desabafo que estava acontecendo bem na frente do seu nariz.

A culpa não é sua, nem minha. Estamos programados para agir assim. Mas com um pouco mais de tato podemos mudar o modus operandi e criar conexões mais fortes e reais com os nossos próximos.

Ouça, critique, sugira, mude… Desafie-se a sair do conforto de uma mente automática.

Cada palavra está cheia de nuances e cada gesto cheio de significados. Basta expandir sua percepção e isso ficará claro. Ouça mais e escute menos. Um mundo melhor só se faz com menos surdos funcionais.

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