Davi Ortega
Oct 9, 2017 · 5 min read

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A motivação para esta publicação é a minha experiência com a nova onda de pseudo especialistas ecoando suas opiniões nos quatro cantos da internet. E simplesmente escrevendo esta coluna, estou aumentando o coro, mas vou tentar manter o post num tópico com o qual eu estou familiarizado: aprender.

Aprender torna nossa vida melhor.

A razão pela qual aprendemos as coisas é simples: aprendemos para informar nossas decisões no futuro. Aprendemos que o fogo queima, por isso não colocamos a mão no fogo. Aprendemos que o sol é uma estrela formada majoritariamente por hidrogênio e hélio, de modo que não passemos nosso tempo rezando para ele. Nós aprendemos como regimes totalitários, escravidão e outros eventos vergonhosos da nossa história começaram para que possamos evitar que eles se tornem realidade no futuro.

Aprendemos a ler para que possamos pegar o ônibus certo, a fazer conta de matemática para que possamos planejar quando sair de casa de forma a encontrar nossos amigos para jantar às 8 horas, sabendo que demora 30 minutos para chegar até o local. Até mesmo conceitos simples como esses, tornam nossa vida melhor.

E o que acontece quando aprendemos algo que não é verdade? Nós chegamos atrasados em compromissos, queimamos a mão no fogo, colocamos nossa fé em ídolos falsos e somos suscetíveis de nos tornarmos escravos ou vivermos sob ditaduras.

Novas idéias devem ser testadas.

Não é apenas pelo orgulho de estar certo, mas especialistas gastam tanto tempo estudando um determinado tópico justamente para informar o público sobre coisas que irão melhorar a vida da comunidade. Esse é o trabalho de especialistas.

Para evitar que os especialistas informem o público de algo errado, apesar dos esforços, qualquer nova idéia é submetida ao escrutínio de outros especialistas que irão julgar, debater, testar e às vezes até propor alterações à idéia. Tudo isso antes de chegar ao público.

Na academia, chamamos isso de “revisão por pares”.

Esse sistema não é de modo algum perfeito: ego, agendas pessoais, políticas e outros problemas mundanos, ou devo dizer humanos, obviamente atrapalham. No entanto, apesar das desvantagens, a revisão pelos pares ainda é a melhor maneira de verificar se o que alguém está falando é de fato algo útil.

Existem modelos e modelos

Note que usei a palavra “útil” e não algo mais forte como “verdade” ou “correto”. Qualquer idéia nova é um modelo das “leis da realidade”, a verdade suprema.

George Box, um famoso estatístico, explicam de forma elegante que:

“Todos os modelos estão errados, alguns modelos são úteis” — George Box

A ciência, em todos os níveis, trabalha como uma aproximação da realidade e é fortemente tendenciosa pelo que podemos ver, ouvir, medir ou detectar de alguma forma. Os modelos teóricos tentam explicar os dados observados e fazer previsões que devem ser testadas. Se o modelo for bom para prever e explicar bem os dados, o novo modelo (idéia) é transmitido aos pares para verificar os achados. Não haverá uma teoria que seja completamente verdade, mas elas servem para fazer o que lhe é proposto.

Por exemplo, a mecânica clássica em física é um excelente modelo. Por exemplo: saindo do ensino médio, podemos prever com uma boa precisão, onde um objeto irá pousar com base em sua velocidade inicial de lançamento. Este modelo é muito útil em vários aspectos, incluindo a balística — quando chutamos uma bola de futebol ou estamos tentando atingir um alvo com nossa catapulta.

As leis da natureza obedecem aos modelos da mecânica clássica inventados pelos humanos? Provavelmente não — todos os modelos estão errados. Mas a mecânica clássica é muito boa no que faz — alguns modelos são úteis.

Independentemente disso, a mecânica clássica tem estado sob o escrutínio de cientistas e engenheiros pelo menos desde o século XVI e novas idéias sobre o assunto (alterações ao modelo ou um modelo completamente novo) têm que explicar não só tudo o que o modelo atual explica, mas também ser melhor ainda. Isso passaria por “revisão por pares” e o público em geral só ouviria sobre isso quando houvesse uma enorme quantidade de evidência favorecendo a nova idéia.

A realidade do acesso a informações

A realidade é que não há “revisão por pares” nas mídias sociais. Quando alguém propõe uma nova idéia (modelo) na internet, o julgamento, o debate, os raros testes e as emendas são feitos por pessoas que passaram pouco tempo trabalhando nisso: os não-especialistas.

Quando não-especialistas propõem ou discute um modelo novo, várias suposições emergem e o debate sobre a idéia agora mais parece uma discussão sobre equipes esportivas: não objetivas, logicamente falhas, baseadas em crenças e não em fatos, quando baseadas em fatos são baseadas em um subconjunto e não em todos os fatos e é baseada em opinião pessoal e não no consenso de comunidades de especialistas dedicadas a trabalhar no assunto.

Assim, a idéia é propagada e se, por algum motivo, se tornar popular, começa a ganhar status de “verdade” (de ser “útil”), apesar da falta de testes e discussões rigorosas.

Isto é o que eu chamo de “desinformação”.

Normalmente, essas “novas idéias” na internet não passam nem pelo primeiro nível de escrutínio de pessoas que pensam no mesmo problema há décadas. Um exemplo concreto desse tipo é o conceito de que a Terra é plana.

E qual é o problema de tudo isso? O problema é que acreditar em desinformação traduz-se em tomar decisões erradas no futuro, na falta de reconhecimento de ameaças e de limitar a nossa capacidade de alocar nosso tempo efetivamente.

O que fazer?

Para evitar a desinformação, eu verifico as fontes do que está sendo discutido, as credenciais de quem está discutindo, e se o que está sendo falado já foi verificado por outros especialistas. Se é um assunto que eu estou muito interessado, eu verifico as hipóteses concorrentes, argumentos em artigos científicos, livros sobre o tema e etc.

A regra geral é ser cético. Trabalhar o nosso caminho para entender a ideia é muito melhor do que apenas aceitá-la.

Embora com ressalvas, acreditar em consenso entre especialistas diminui as chances de acreditar em algo errado. Se não queremos confiar no consenso, devemos investigar o assunto por nós mesmos. Faça sempre perguntas e escute os argumentos de especialistas contra e a favor do novo modelo em questão. Esses especialistas podem não estar certos, mas seus questionamentos, se coerentes, devem ser refutados com fortes evidências antes do novo modelo ser aceito.

Finalmente,

É importante manter a mente aberta para novas idéias disruptivas, mas devemos nos proteger contra a desinformação pelo bem do nosso futuro e da nossa sanidade.

Davi Ortega

Written by

Postdoc @Caltech studying the evolution of chemotaxis networks and macromolecular machineries in prokaryotes. Liquid democracy advocate. daviortega@toxme.io

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