Às vezes, há tanto para ser sentido, que o ar quente acima de nós se dissolve em massa fria, então cai pesado, soterrando o músculo motor e esmagando tudo o que pulsa entre as veias.

Hoje pela manhã, imaginei minhas artérias desconectando os fios do coração e jorrando uma vermelhidão célebre. Por todos os lados, meu sangue espalhado, pintando as paredes, dando cores ao meu dia e, quem sabe, à minha vida.

Era cedo e minhas mãos seguiam alvas, nenhuma conexão foi desligada, nem do funcionamento da bomba que faz meu sangue correr, nem dos pontinhos acesos em minhas mente. O que sobra, o que eu faço? Não sei se sou tão afetada por alguém tão alheio a mim ou se simplesmente carrego todas as tripas da existência dentro do ventre. Não sei se sinto, não sei se não sinto, não sei que sentido há nisso, mas acho que não há nada para sentir-se.

Ora, notas do subsolo já insistia nisso:

“(…) O deleite aqui derivava precisamente da consciência excessivamente clara de minha humilhação; de que você sente que já chegou ao derradeiro limite; que isso é detestável, mas também, que outra coisa é impossível; que você já não tem saída, já não pode mudar. Mesmo se ainda restasse tempo e fé para se transformar em algo diferente, provavelmente você mesmo não ria querer se transformar; e, se quisesse, ainda assim não faria nada, porque talvez não houvesse no que se transformar.”

Existencialismo, você diz? Drama, será?

Há coisas de nós que apenas não cabem em bom ou ruim, são apenas o que são. Eu sou o que sou? E se sou, o que sou? E se sou o que sou, quem sou?

Será que estou mesmo sentindo algo ou apenas sentindo a mim, sem sentimento algum?

Será que sou Briony, no romance de McEwan, presa em olhar seu próprio movimento, com o dedo apontado para o próprio rosto, ordenando que ele se mova, tentando descobrir onde começa a onda de vida palpável em mim, tentando me surpreender com a minha própria vontade, tentando me pegar no pulo, me flagrar sendo algo de verdade, vivo e vívido, funcionando, com força e inevitavelmente? O que me difere dentro dessa carne e desses miolos no crânio? Sou apenas um sistema, um conjuntos de códigos que, quando decodificados, me fazem sentir que sinto algo (ou me assustam da certeza febril e deliciosamente errada — porque a moral assim o diz — de que não sinto) ou será que existe mesmo algo não reconhecido, não visto, inédito, implacavelmente comum e absurdamente peculiar?

Estou enlouquecendo?

“Será que todas as pessoas do mundo são tão vivas quanto eu?”

Sendo assim, estamos todos mortos, fadados, incorretos diante do ser e do existir e da evolução que nos fez miseravelmente amaldiçoados pelos tais sentimentos, intenções, paixões e deleites.

Enfim, em mim, não tem sentido (e era para ter sentido ou ser sentido?).

Perdoa todas essas ambiguidades.

Estou no banco de trás do carro, do movimento, olhando pela janela, umas paisagens dessas que são todas diferentes e, ao mesmo tempo, todas iguais. As cores, que são incomparáveis, mas que parecem sempre mais do mesmo em tons apenas diferentes para que os distraídos se dispersem e não percebam que não há ninguém na direção do caminho e que tudo isso serve apenas de alienação para dar sentido, cor, sabor e todas essas coisas do sentir, ao fim da estrada (que continua e é infinita e que segue, mesmo quando você morre olhando pela janela), devidamente calculado desde antes de todos nós.

Sinto que quero o horizonte, pois às vezes, só às vezes, ouço gritos e sussurros por trás de todo o céu, sinto curiosidade e vontade. Mas também quero dormir enquanto o carro se mexe, esperando os vidros explodirem e entrarem todos na minha garganta e que meu sangue escorra enquanto a viagem segue, naturalmente.

Sinto as partículas se remexendo, em rebelião, esses bichinhos dentro do meu ser, que é inteiro e inteiramente fragmentado, dando voltas e voltas e batendo nas paredes, fazendo pressão, histéricos, me furando a pele, de dentro pra fora, essa traça que me corrói e me faz sentir como oca. Meu corpo pode explodir a qualquer momento.

Eu quero ir embora.