Nem solo, nem árvore
Eu poderia construir uma casa, servir de alicerce para alguma cama, ser um móvel bonito na casa de alguém que me cuidasse, mas eu não sou.
Eu queria ser o barco imponente que não deixasse você morrer entre as águas, mas eu fui um maldito pedaço de pau flutuante em meio ao mar que te afogou, talvez tudo fosse diferente se eu não fosse tão pequena, eu que nunca tive coragem de me jogar nessa imensidão, eu que tenho tanto medo de água, me joguei a deriva, mas você não pôde se agarrar a mim. Eu não fui capaz de salvar você.
Estou aqui escrevendo mais uma das incontáveis analogias que tenho escrito, pra dizer me repetindo que eu também quis, com toda a minha vida, que você fosse o solo que fixasse a minha raiz.
Eu quis ser a sua sustentação, sabendo que o cerne da árvore é formado também de morte, desejei com toda força poder nutrir e frutificar. Quis ser forte e dar flores lindas que te abençoassem a cada queda. Eu não consegui. Não passo de um pedaço de madeira morta, inútil, encostada num canto qualquer, esquecida, desencaixada, pedaço de qualquer coisa que se desmontou, qualquer coisa que se quebrou – ou que quebraram. Estou apodrecida, morta, apagada. Sobrevivi a todas essas fogueiras da vida toda e quando você me tocou senti que tinha resistido para render alguma escultura bonita de jardim, segui em frente vendo minhas cinzas no chão, vendo o vento levar os restos de mim, porque sequer pude enfeitar nada em você, eu só pesei e doí. Estou esfarelando, tenho machucado tanto, tenho sido instrumento de destruição e a cada pancada eu me desfaço. Me fixaram pregos porque pareço rígida, mas não sou tão firme, sinto cada furo, cada marca. Quero me desmanchar cada vez que penso que não sou capaz, sigo e sigo sem que nada me prenda, sem ser vida nem pra mim nem pra ninguém.
Eu queria ser algo leve e macio, mas não é minha natureza. Eu quis tanto ser diferente, quis tanto ser suficiente, mas não sou.
Tenho tentado me fazer porta para o seu retorno.
Você não volta e eu desmorono.