Sobre a chuva no fim do mês

Lá fora chove e chove forte. Aqui dentro tem um temporal. Dentro de mim há um temporal e estou sendo atingida, estou ensopada, disto que me consumiu a alma toda.

Porque não sei mais dividir as prateleiras da vida, não sei de onde brotou essa enorme nuvem que me assola, mas sinto o frio de cada gota e de cada lágrima que nunca escorreu; me parece que o caminho dá uma reviravolta a cada passo que dou. Estou impotente e pequena, mas ainda carregando todos os pesos que tenho e que me deram. Hoje senti forte que é preciso ser mais grande, sim “mais grande” pra assumir o futuro vivendo o presente, é necessário ser mais grande pra dar um passo pausado de cada vez, com pés firmes, mesmo quando teu corpo está sendo levado pra trás.

Eu estou cansada e não há novidade nisto. Perdi o sentido, a vida e o centro. Perdi ou nunca tive e isto também não é nenhuma novidade. A novidade está aqui: alguma coisa tem me feito ficar. Sem saber por que nem onde. Alguma coisa, que tem raiz dentro de mim, está me segurando à terra e eu me esforço pra viver e florescer e frutificar, porque soa como natureza.

Certo? Não sei.

Eu sempre desisti, mas continuo. Me sinto como quem cumpre a missão — da forma dolorosa que é cumprir quando a missão te dói. Não sei por que eu, mas sei que sou eu. Sei e me sinto e sou forte em mim e ao mesmo tempo sumo de tudo e não me encontro e me vejo fugindo e diluindo e brilhando e sendo tudo que sou e prosseguindo, não sendo.

Eu quero tanto tanto ir embora (eu só quero ficar).