Progresso pra poucos, ordem pra muitos na nova cena republicana…

Depois da abordagem inicial sobre o pontos a serem investigados nessa leitura critica sobre a produção do espaço no subúrbio carioca, é necessário observar os acontecimentos e processos que deram suporte ao discurso ideológico do positivismo no Brasil, no Rio de Janeiro e no bairro de Bangu.

O século XVIII, chamado de século da luz, trouxe com a ideologia iluminista, o suporte necessário para crítica a igreja e ao discurso construído ao longo da idade média. A razão e a retomada do homem como protagonista de sua própria existência eram os principais tópicos desse novo movimento ideológico. A aplicação do discurso iluminista foi financiada por burgueses e príncipes, que na orientação de seus negócios ou reinados praticavam a independência do discurso dogmático e servil da igreja.

A partir do seculo XIX, o positivismo foi uma linha filosófica decorrente do iluminismo, que ampliou a discussão sociológica e reforçou o papel do homem na produção da sociedade. A religião ou discurso não pautado no conhecimento cientifico era repudiado pelos defensores da ideologia positivista.

No Brasil em 1889 a partir da proclamação da república, o ideário de uma nação moderna e ordenada tomaram o discurso e a prática da governança brasileira. A fala positivista difundida entre os republicanos trazia o amparo para a mudança de uma monarquia pautada no direito divino por uma república amparada na razão e na valorização do homem. Na prática, apesar do discurso, a nação ainda era um cenário de diferenças e privilégios para as classes mais abastardas. As ações do novo governo republicano foram no sentido de resguardar os privilégios das classes dominantes, implementar meios de controle para a população mais pobre e para o contingente de escravos libertos no período imperial. Associado a questão de ordem, o governo traçou na produção de novos bairros industriais e cidades o ideário positivista.

Ocupação do Moro da Providência. Apesar da nova constituição republicana afirmar que: “ Todos são iguaes perante a lei.
 A Republica não admitte privilegio de nascimento, desconhece foros de nobreza, e extingue as ordens honorificas existentes e todas as suas prerogativas e regalias, bem como os titulos nobiliarchicos e de conselho
”, a atuação do então governo provisório nunca pautou a mitigação das diferenças sociais

Belo Horizonte foi o exemplo de capital que foi concebida como simbolo da ordem e razão positivista. A mudança da antiga capital Ouro Preto trazia um peso simbólico de abandono dos antigos valores e referências da monarquia. A nova capital foi projetada pelo Engenheiro Aarão Reis com uma área urbana bem delimitada, traçado geométrico com vias radiocêntricas que faziam referência as tribos indígenas e aos estados brasileiros. Sua construção teve suporte em uma comissão destinada a tornar realidade o empenho desse novo modelo de governo.

Planta da Cidade de Ouro Preto . 1888
Planta Geral de Belo Horizonte . Plano da capital mineira desenvolvido por Aarão Reis e sua equipe

Além de Belo Horizonte haviam outros exemplos de urbanismo que traziam em suas propostas os conceitos da república. A capital fluminense era a maior vitrine do Brasil para os demais países da comunidade internacional. O Rio de Janeiro precisava ser uma cidade ordenada, limpa e acima de tudo em sintonia com as cidades da Europa. Os preceitos higienistas do positivismo foram amplamente reforçados pelo Prefeito Pereira Passos que remodelou a a cidade expulsando a população mais pobre e construindo uma paisagem que reproduzia a modernidade.

O Plano de Pereira Passos para a cidade do Rio de Janeiro.
A Avenida Central e sua perspectiva à francesa

Junto com a construção da moderna paisagem, houve um processo de perseguição a ociosidade e a valorização do trabalho, conforme nos relata Freitas (2005) em sua fala:

“O regime republicano nascente tinha como projeto político mais urgente a transformação do homem livre em trabalhador assalariado, de acordo com a onda de modernização que assolou o país. Entretanto, tal projeto esbarrava em muitos obstáculos, como, por exemplo, o preconceito contra o trabalho braçal, herança da escravidão. Mudar essa mentalidade era uma das tarefas da Primeira República. Cabia então ao novo regime dar nova forma a essa realidade, redefinindo o conceito de trabalho, dignificando-o. Precisava também transformar a ociosidade num vício, num defeito, numa contravenção. Ao mesmo tempo, a República promovia a marginalização da vadiagem, que entendia como o oposto ao trabalho, associando-a ao homem pobre que não trabalhava. Era o vadio, pertencente às classes perigosas.”
Cortiço da Rua do Senado . 1906

Junto com a ação nos centros das principais capitais, a república definiu algumas áreas para a criação de bairros industriais planejados. Bangu foi um dos bairros que foram produzidos para receber a atividade industrial, com um pacote inicial da unidade fabril, vila operária com 95 casas, igreja, clube, estação ferroviária e rede de abastecimento de água.

A unidade fabril
A igreja e as casas da vila operária

Segundo Oliveira (2004) antes da fabrica e do bairro planejado para a atividade industrial, a localidade era formada por parte da Freguesia de Realengo, que antes era parte da Freguesia de Campo Grande, onde na Fazenda do Bangu eram cultivadas lavouras e cana de açúcar.

Registro de Tomas Solo que demonstra a região de Bangu ainda com aspecto rural

Na próxima abordagem iremos falar sobre a consolidação urbanística do bairro a partir de sua fundação, evolução da ocupação e aspectos da estrutura urbana.

Bibliografia

  1. Adriana Oliveira de Freitas . Abalou Bangu! A Fábrica Bangu E A República Nascente
  2. http://bdlb.bn.br/
  3. http://biblioteca.ibge.gov.br/
  4. http://blogs.odia.ig.com.br/
  5. http://g1.globo.com/
  6. http://portalarquitetonico.com.br/
  7. http://www.rdvetc.com/
  8. http://www.rio.rj.gov.br/
  9. http://www.wikimedia.org
  10. Luciana da Cunha Oliveira . Fábrica Bangu: Um Estudo de Caso do Fordismo no Brasil
  11. www.google.com
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