A festa (um pouco caída) da democracia

Acompanhamos três candidaturas a cargos proporcionais com campanhas modestas em Curitiba: Goura Nataraj (PV, de camisa aberta na foto), Xênia Mello (PSOL) e Diogo Busse (PPS). Nenhuma delas obteve vitória nas urnas. A democracia é, aparentemente, uma festa VIP. A matéria será publicada em partes. A seguir, a primeira.

Texto: Sandoval Matheus
Fotografia: Nicola Iannuzzi

Exatamente sob a lâmpada de luz branca no cômodo que cheirava levemente como uma oficina mecânica, Goura, um homem alto e de cabelos longos, encarou por alguns momentos a “máquina do tempo”. Sereno, com os olhos claros pousados sobre toda aquela papelada, a luz sobre a cabeça se refletindo na camiseta amarela, os cabelos longos amarrados como um coque no topo do crânio, a barba por fazer. E então ele se cansou de olhar a máquina do tempo e foi fazer outra coisa.

Não posso dizer o que ele pensou, mas posso dizer o que eu estava pensando naquele momento, e eu pensava que as coisas estavam feias.

A “máquina do tempo” era um invenção de Cris (Cristhian Stange, o publicitário da campanha de Goura Nataraj), que passara o dia ajustando-a. Chegara dentro de uma caixa e causara certa expectativa no início daquela noite.

— O que tem nessa caixa, Cris?

— Uma coisa que vai ajudar a gente a enxergar o passado e o futuro.

Depois de improvisar uma mesa longa, ele estendeu sobre ela uma lona de mais ou menos dois metros, impressa de forma transversal com longos e estreitos retângulos. Cada retângulo simbolizava uma semana, e havia retângulos suficientes para cobrir os meses de julho a outubro, o período da campanha eleitoral. Estávamos em fins de agosto.

Naquela noite, Cris gastou uma hora e meia posicionando pequenos triângulos de papel vazados, à maneira dos calendários de mesa, ao longo da lona. Cada triângulo simbolizava uma postagem de bastante repercussão na página do candidato no Facebook. Eram as vinte mais, e ele as distribuiu na lona de acordo com a época adequada.

“Eu escolhi as 20 postagens que tiveram mais repercussão, que é pra gente pensar em fazer de novo, concentrar nisso. Até agora nós temos 2,5 mil likes na página do Goura. Se continuar assim, vamos precisar de mais 30 semanas pra chegar nos 50 mil votos que o Goura precisa. Esta lona aqui ia precisar ter uns 40 metros. E não tem, tem só dois. É esse o tempo que a gente tem. Precisamos concentrar energia no que dá certo. Eu já virei quatro noites, tem gente que já virou mais duas, ou uma. Desse jeito, vamos precisar ficar sem dormir pelos próximos 30 dias. Precisamos pensar.”

Em palavras de menor peso dramático, Cris queria avaliar o que a campanha fizera até ali e projetar as ações futuras. O problema é que não parecia haver muita campanha para avaliar em termos práticos. Cris pensava em “likes” e “shares”, estritamente em ambiente virtual. O tempo todo, falou-se apenas no Facebook e no que poderia ser feito para “bombá-lo”. É difícil mensurar isso em votos. Adesão virtual não significa comprometimento com a causa. Qualquer um que já tenha tentado organizar um churrasco pelo Facebook sabe disso.

Cerca de um mês depois, na sexta-feira antes da eleição, o coordenador de uma outra campanha, a de Diogo Busse (PPS) a deputado estadual, me falou em um bar sobre suas tentativas de diversificar a agenda da candidatura e extrapolar o ambiente virtual. Assim como a campanha de Goura Nataraj, a de Diogo Busse centrava fogo principalmente nas redes sociais. “Por mais que a gente respeite esse nicho virtual, nessa caminhada nada substitui o olho no olho”, disse. “O candidato que não tem agenda tá fodido.”

Mas ninguém na sala (o número 226 da Rua Presidente Faria, a Bicicletaria Cultural) naquela noite de fins de agosto parecia atentar para uma coisa: campanhas eleitorais são ambientes selvagens; são disputas por poder, um jogo para pessoas embrutecidas.

Aquela reunião, a iniciativa de Cris ao bolar a máquina do tempo, tudo era uma tentativa de organizar a campanha. Da última vez que haviam se reunido, um dos correligionários, conhecido como Carlão, fora responsável por chacoalhar toda a equipe e fazer alguns sacos de vômito sobrevoarem a mesa. Se Cris era o publicitário, Carlão era o diretor, a entidade responsável por aparecer de vez em quando na sala de criação e dar um esporro geral. “Carlão foi responsável por sacudir a gente, tirar a gente da zona de conforto. A gente aqui tá muito em sintonia”, alguém observou.

De fato. Durante toda a noite (Carlão obviamente não estava presente), o grupo esteve em sintonia. Não houve uma discordância sobre os rumos da campanha. Nem discussão, nem debate. As cinco pessoas, o núcleo duro da campanha, pareciam muito bem sintonizadas. Apenas algumas vezes, quando Cris ressaltava a importância de se divulgar no Facebook apenas o que realmente gerava alguma repercussão, Goura objetou, serenamente (Goura nunca se altera, nunca levanta a voz, nunca discute acaloradamente, é um homem monocórdio; afinal, ganha a vida como professor de yoga e de sânscrito; e para um candidato, fala pouco): “Mas é o diferencial da nossa campanha, essas artes que chegam espontaneamente. Nós precisamos divulgar, as pessoas se sentem prestigiadas”.

A reunião definiu um plano de trabalho: ações de rua, como o plantio de árvores, deveriam ser resgatadas; o material gerado por ações antigas (fotografias, textos, vídeos) também; fora isso, a produção de vídeos com depoimentos de apoio de lideranças e o trabalho de relacionar a imagem de Goura, o candidato, com pautas que estavam ganhando espaço na mídia.

E foi tudo.

Quase no fim da reunião, um dos apoiadores de Goura mostrou a ele um vídeo produzido pela Organização das Nações Unidas (ONU) sobre segurança alimentar. O vídeo, uma animação muito simpática e bem feita, falava de agricultura e pecuária, e mostrava animais como comida. O apoiador queria saber se o vídeo poderia ser linkado na página da campanha no Facebook (Goura é vegetariano).

“Claro que pode divulgar. Não tem nada a ver. Esses dias li que alguns vegetarianos estavam protestando no Rio de Janeiro porque religiões de matriz africana fazem sacrifícios de animais. É um absurdo dos vegetarianos. Algumas religiões têm essa característica. Você tem que respeitar.”

Para finalizar, Goura anunciou: “Apareci duas vezes na tevê hoje. Oito segundos. À tarde a minha avó viu. Agora à noite o meu pai. Ele me mandou uma mensagem”. Ergueu o celular, num gesto de oferecimento, para quem quisesse ler. “Ficou bom. Taca-lhe pau”, dizia a mensagem.


Goura pratica yoga em evento de campanha

Goura Nataraj era o que se poderia considerar uma candidatura alternativa, embora aqui e ali mantivesse relações com velhos quadros da política paranaense. No horário eleitoral, apareceu em um programa pedalando ao lado do postulante ao Senado pelo PMDB Marcelo Almeida, candidato mais rico do Brasil nas eleições de 2014 e herdeiro da CR Almeida, empresa que atua nos ramos da construção pesada, logística, mineração e concessão de estradas.

Naquela mesma reunião de fins de agosto, informou aos apoiadores que estava negociando ‘dobradas’ (termo das campanhas eleitorais para quando dois candidatos dividem o mesmo material gráfico) com outros três candidatos a deputado estadual, dois deles à reeleição: Rasca Rodrigues (PV) e Ney Leprevost (PSD), cujo irmão, o ator e escritor Luiz Felipe Leprevost, havia feito a ponte. O outro candidato, Luiz Eduardo Cheida (PMDB), já fora prefeito de Londrina e secretário estadual de Meio Ambiente. (Algumas das dobradas acabaram não se concretizando, por falta de tempo hábil.)

A estratégia era clara: os outros candidatos entravam com o dinheiro e com o trabalho de distribuição, Goura entrava com o conteúdo de sua pauta mais cara, a ciclomobilidade.

Conversei com Xênia Mello, advogada, militante feminista e candidata a deputada estadual pelo PSOL alguns dias depois. Ela tocou no nome de Goura logo no início da conversa, espontaneamente. Tinha uma teoria sobre as ‘dobradas’ e a relação dele com outras candidaturas. “O Goura é um militante fantástico, mas você vai votar nele e eleger o Aciolli”, criticou. Na verdade, Roberto Aciolli, apresentador de um programa policial e réu confesso em um homicídio, não era candidato a deputado federal pelo PV, mas sim a estadual. Mas seu filho, Cristiano Santos, era.

Xênia tinha a mesma opinião sobre outros companheiros de militância: André Feiges, que em 2012 foi candidato a vereador pelo PMDB, mesmo partido de Noêmia Rocha, pastora evangélica que acabou eleita; Toni Reis, militante LGBT com quem trabalhou no Grupo Dignidade, em 2014 candidato a deputado estadual pelo PCdoB na mesma coligação do Pastor Edson Praczyk; e Anaterra Vianna, candidata a deputada estadual em 2014 pelo PT. “Anaterra é uma pessoa com quem eu milito junto. Ela é mãe também, participa dos nossos debates, mas está num partido que não é bom”, contou. “O interesse dos partidos não é eleger essas pessoas, é alcançar um público que eles não atingiriam sem elas, pra eleger as mesmas que já estão marcadas.”

Dessa forma, os ‘alternativos’ ajudariam a captar votos para a coligação em guetos impenetráveis para os políticos tradicionais, mas não teriam força para se colocar entre os cabeças da chapa e ter alguma chance séria de eleição. Mas seus votos beneficiariam, e muito, os outros candidatos.

Goura tinha outra visão. Sua ideia era tentar conseguir o compromisso desses candidatos com as pautas da sua candidatura: ciclomobilidade, parto humanizado, mais espaços verdes dentro da urbe. Ele já aparecera em atos dos candidatos do PSDB ao governo federal e estadual, Aécio Neves e Beto Richa, respectivamente, segurando uma placa que reivindicava o IPI zero para bicicletas. “E vou fazer isso com todos os candidatos que puder. Me falaram que por conta disso eu estava com o Richa, mas a ideia é que as pautas se sobressaiam.”

Um princípio igualmente pragmático guiou sua candidatura pelo PV. “Eu não tenho interesse nenhum em fazer política de partido”, garantia no início da campanha. Seu pai, o jornalista Jaques Brand, fora candidato a vereador pelo PSOL em 2012 (no portal dos candidatos do jornal Gazeta do Povo, inclusive, o filho Goura Nataraj é citado por ele como a pessoa que mais admira) e inicialmente foi contra a candidatura do filho. “Ele achava que a gente iria queimar as conquistas que já tem, como militantes”, comentou Goura.

Um dia depois de manifestar contrariedade, porém, o pai mudou de ideia, e deu o toque: “Se você for candidato, tem que ser pra federal, e com o apoio do Fruet.” O prefeito Gustavo Fruet (PDT), de Curitiba, de quem Goura já era próximo por conta da militância em prol da bicicleta, então fez a ponte com o PV e puxou Goura para sua base aliada. (Ele e a primeira-dama, Márcia Fruet, também gravaram vídeos de apoio à candidatura de Goura durante a campanha.) A favor do PV também pesava uma questão prática envolvendo quociente eleitoral e uma possível maior facilidade para obter a eleição, que acabou não se confirmando de maneira nenhuma.

“E eu também não me encaixo muito no discurso socialista, comunista, apesar de meu pai ter sido candidato pelo PSOL”, dizia Goura. “Mas eu sei que falta muito V dentro do PV.”

A decisão de alçar voo mirando diretamente uma candidatura federal, sem escalas, tinha dois motivos, segundo ele: as pautas de sua campanha só poderiam ser mexidas no âmbito do Congresso Nacional. “É como se eu já tivesse fechado um ciclo com a cidade. Por isso saio pra federal. Se você parar pra pensar, vai ver que o trabalho de um vereador a gente já fez, mesmo sem mandato.”

Goura durante a construção da Praça de Bolso do Ciclista

Goura Nataraj nasceu Jorge Gomes de Oliveira Brand, em 05 de novembro de 1979. Como todo homem contemporâneo, na juventude foi vitimado pelas inquietações e pela porra-louquice da adolescência. Fez a primeira viagem à Índia aos 16 anos (posteriormente, faria outras duas). Lá, num templo hare krishna, parou de comer carne. Foi também na Índia que decidiu mudar de nome; Goura é um dos nomes de Krishna, na parte mais oriental da Índia.

Inteligente, calmo e articulado, Goura debate sem tentar impor seus pontos de vista e convicções. Formou-se em Filosofia pela UFPR, onde também concluiu um mestrado sobre Arthur Schopenhauer, autor que tem uma visão um pouco pessimista da história, mas que faz uma ponte com a filosofia hindu. Tem também um livro publicado, O Grande Meio-Dia. O título remete a uma figura importada de Assim Falou Zaratustra, livro do filósofo alemão Friedrich Nietzsche, que transmite a ideia do momento em que o homem alcança o grau máximo de clarividência, um momento sem sombras ou ambiguidades.

Depois que voltou de sua segunda viagem para a Índia, em 2004, Goura se envolveu mais ativamente nos movimentos militantes e no final de 2005 ajudou a organizar a Bicicletada de Curitiba. Um bosque às margens do Rio Belém e nas proximidades do Palácio das Araucárias também é fruto de sua atividade militante – o espaço foi batizado como Jardim de Sofia, nome de sua primeira filha; Goura foi pai duas vezes. O grupo de Goura também foi o responsável por pressionar o poder público para a instalação das ciclovias e ciclofaixas que enfim começam, aos poucos, a aparecer na cidade.

Mas a maior realização, e ele concorda com isso, é a Praça de Bolso do Ciclista, um enclave no centro da cidade, na Rua São Francisco, um espaço para atividades culturais numa região na qual orbitam prostitutas velhas, travestis baratas, alcoólatras e usuários de crack.

A praça foi inaugurada oficialmente durante a campanha eleitoral. Isso gerou alguns desgostos para Goura. Numa ocasião, enquanto distribuía panfletos, ele abordou uma senhora que foi logo lhe passando um sabão:

— Já tá usando a praça, não é?

— Como, minha senhora?

— Já tá usando a praça pra se promover, não é mesmo?

O ranço existente entre a classe política e o restante da sociedade brasileira amuava Goura. “Esses dias encontrei um cara com um carrinho de bebê. Pensei: ‘Ah, um pai, um cara mais sensível e tal’. Entreguei o jornalzinho pra ele e o cara: ‘Ah, político? Não quero’. Eu até entendo, mas as pessoas se negam ao diálogo.”

Mas a praça era, enfim, “a realização mais séria e contundente do que temos feito nos últimos dez anos”, nas palavras do próprio Goura. A praça, um pequeno terreno da prefeitura, foi construída pela mão de obra dos próprios militantes, com material fornecido pela administração pública e também pela Construtora e Incorporadora Thá. “Apesar de a gente ter sérias ressalvas a isso, eles ofereceram uma ajuda”, justificava Goura. “E o Ippuc topou, para nossa surpresa, e acho que para a deles também.”

Agora, Goura tentava uma eleição, em primeira tentativa, para a Câmara Federal. E movimentava a militância da urbe. “Quantos votos a gente tem? Eu não sei, eu não faço ideia. Mas tem eco. Existe uma possibilidade geral.”

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