Sob as bombas

por Sandoval Matheus
fotos Nicola Iannuzzi
edição Amanda Audi


"A Casa
É do povo
Nós vamos entrar de novo"
Grito de um grupo de manifestantes
na segunda-feira, 27,
primeiro dia de protestos

Na quarta-feira, 29 abril, momentos antes da tentativa de ocupação da Assembleia Legislativa do Paraná por servidores públicos estaduais, um grupo de jovens estava na linha de frente, muito próximo ao cordão de isolamento formado pela Polícia Militar (PM). O local estava cheio, mas não apinhado, e era possível se movimentar com relativa facilidade. Eram quatro, e se destacavam dos demais — a maioria, mais à frente, formada por estudantes; os professores haviam ficado na retaguarda. Apesar de todos que estavam próximos ao cordão usarem máscaras ou algum tipo de proteção para as vias respiratórias — todos sabiam o que estava parada acontecer — o grupo chamava a atenção. Parecia mais bem preparado para enfrentar a reação da PM. Um deles, que empunhava um escudo improvisado com arame e uma placa de compensado e usava na cabeça uma camiseta escondendo a maior parte do rosto, os olhos à mostra pela abertura da gola, aconselhou outro: “Tem que tomar cuidado com a hora das bombas, porque o pessoal dispersa; alguém pode cair. Tem que tomar cuidado”.

A fala chamou a atenção de um jornalista que estava próximo, que questionou: “Você parece ter bastante experiência com isso. Já fez antes?”. “Aqui, não. Participei dos protestos pelo Passe Livre em São Paulo. Agora, estou estudando em Ponta Grossa. Vim ajudar no protesto”, foi a resposta.

Não houve tempo para mais nada. Dentro do prédio da Assembleia, uma comissão do Senado Federal tentava um último esforço de negociação para convencer o Governo Beto Richa (PSDB) a retirar o projeto que alterava o fundo de previdência dos servidores. Do caminhão de som, veio o anúncio: “A palavra do governo é uma só: não retira”. Vaias.

Deveria haver um sinal para o início da tentativa de ocupação, mas não houve. A massa empurrou as grades móveis de contenção para cima dos PMs, e consequentemente empurrou os próprios policiais, que recuaram alguns passos. Quem estava atrás empurrava quem estava na frente, e quem estava na frente empurrava os policiais. Por um momento, pareceu que os manifestantes levavam certa vantagem, e talvez conseguissem romper o primeiro cordão, apesar das cacetadas desferidas pelos militares.

Não durou um minuto. E então choveram as bombas.

“Chover” não é exagero. Em alguns momentos, o espocar lembrava fogos de artifício. A dispersão foi rápida. A resistência, mínima. Era impossível. A fumaça do gás lacrimogênio tomou tudo. Uma parte das pessoas tentou escapar pela Praça Nossa Senhora da Salete, na direção de onde estava o acampamento dos professores estaduais; mas a fumaça já estava ali, penetrando pelas vias respiratórias, queimando a garganta, fazendo com que respirar fosse um esforço. “Eu achei uma hora que ia morrer. Eu não conseguia respirar”, contou alguém mais tarde.

Operários montam palco para a festa do Dia do Trabalhador.

No meio do caminho, uma estrutura para shows atrapalhava ainda mais a movimentação. Durante os dias de protesto, o governo às portas de um conflito previsível com servidores públicos, operários haviam montado na praça o palco que iria abrigar as comemorações do Dia do Trabalhador — uma ironia metálica de nove metros de altura. A estrutura foi desmontada já no dia seguinte; a festa, cancelada — o governador não quis se expor à multidão poucas horas depois do que viria a ocorrer naquele 29 de abril.

Era custoso manter os olhos abertos, por conta da ardência. As pessoas tateavam às cegas, torcendo para não tropeçar em ninguém — o jovem do início do texto estava certo. Apoiadas em árvores, tossiam desesperadamente, tentando libertar os pulmões da intoxicação. Desnorteadas, surpreendidas pelo efeito rápido das bombas.

Um idoso ilogicamente sentou-se na calçada, segurando os óculos, com os olhos vermelhos de um demônio. “O senhor está bem?”, perguntaram. “Meu olho. Arde muito.” Alguns, com maior presença de espírito, começaram a ensopar panos — máscaras, camisetas, trapos, echarpes, cachecóis — em vinagre, que ajuda a cortar os efeitos do gás. Os mais afetados deitavam-se no chão, ou caíam, incapazes de continuar em pé, o corpo temporariamente envenenado. Precisavam ser carregados por colegas solidários. E quando todos haviam recuado e esperavam que o bombardeiro cessasse, ao menos por um tempo, ele continuou.

Por uma hora e meia.


Ambulante vende máscaras de proteção.

Todos sabiam o que aconteceria na Praça Nossa Senhora da Salete há pelo menos dois dias. O Governo Estadual sabia. O comando de greve. Os manifestantes. Provavelmente até os cães que circulavam por ali. Uma boa régua para isso é sempre o comércio. Um comerciante nunca perde a oportunidade de fazer negócios. E na manhã de quarta-feira, um ambulante apregoava máscaras inflacionadas pela praça. Vendia por cinco reais a unidade, que normalmente sai a R$ 0,20. “Prefiro spray de pimenta”, disse alguém, após constatar que o vendedor tentava lhe enganar.

A tentativa de ocupação era tão previsível quanto o Natal. Não era uma questão de se aconteceria, nem mesmo de quando aconteceria — aconteceria na quarta-feira, 29, dia em que o projeto voltaria ao plenário da Assembleia para segunda votação. Na quarta-feira, passou a haver inclusive um horário programado: entre 14h30 e 15 horas. Perto deste horário, os agentes penitenciários em greve começaram a se posicionar na linha de frente. Por conta da natureza de seu trabalho, eram de compleição física mais sólida, aguentariam melhor as bordoadas e por isso dariam o primeiro combate aos policiais militares. O governo também reforçou o segundo cordão de isolamento.

Agentes penitenciários em greve posicionados na linha de frente.

O governo estadual baseara o cerco à Assembleia num interdito proibitório dado pelo Tribunal de Justiça do Paraná (TJ-PR). A liminar judicial, porém, falava apenas que não deveria haver “turbação do ambiente” dentro do plenário durante a votação do projeto que alterava o fundo de previdência; em nenhuma parte considerava a possibilidade de impedir as pessoas de entrar, muito menos de fazer isso com uma barreira policial.

Na tarde de segunda-feira, 27, primeiro dia dos protestos, o carro de som do comando de greve anunciara: “Nós estamos em mais uma batalha, em mais uma luta. E hoje é só o primeiro round dessa luta”, disse. “Nós vamos fazer ferver esse formigueiro”, continuou. “Nós vamos entrar nessa Casa”.

Em certos momentos, o governo parecia não apenas prever, mas desejar o conflito. Na quarta-feira, pouco depois do meio-dia, um gesto de provocação deliberado: um helicóptero da polícia começou a voar baixo, o vento das hélices chacoalhando violentamente a copa das árvores. Todos pararam, olhando para o alto, tentando entender o que acontecia, usando as mãos como viseira para proteger os olhos. O helicóptero rumou para o acampamento de 150 barracas dos professores vindo dos interior do estado, dando a impressão de que varreria tudo. Ficou lá, parado no ar, o vento de tempestade açoitando a lona das barracas. Isso obviamente irritou as pessoas. “Desce, filho da puta!”, gritou um homem. “Tem criança aqui, seu filho da puta!”, berrou outro.

Apesar da tentativa clara, o helicóptero não conseguiu mais do que desmontar algumas barracas, avariar outras e encher os olhos de todo mundo de terra. “A barraca aguentou todo o vento da noite, mas não aguentou o helicóptero”, comentou uma professora de Cascavel, enquanto tentava remediar os estragos.

Uma mulher passava aconselhando a todos que vestissem as jaquetas. Dizia ter recebido uma informação: “Mudou o comando da operação; a polícia vai bater em todo mundo”. “Que dúvida que a polícia vai bater em todo mundo”, alguém respondeu. “A Tropa de Choque não veio aqui para negociar.” Um terceiro comentou: “Blusa, jaqueta, de que adianta? Não vai amortecer um cassetete”. E um quarto lembrou-se de algo: “Eu ouvi falar que isopor segura bala de borracha”.

Os manifestantes não só trocavam esse tipo de informação, como discutiam estratégia, a sério ou em tom de galhofa, que mesmo assim parecia esconder alguma seriedade de intenções. E se um grupo tentasse distrair a polícia, enquanto outro efetuava a invasão na área menos guarnecida? E por que não ocupavam o Palácio Iguaçu? Afinal, ele estava bem menos protegido.

Num ponto, todos pareciam concordar: o problema não era romper o primeiro cordão, formado por soldados da Polícia Militar. O problema era a Tropa de Choque. “O problema é que o primeiro cordão dá tempo para o Choque chegar”, resumiu um manifestante. E o Choque estava nervoso. “Se você passa no concurso militar nos primeiros lugares, você vira bombeiro. Se você tem dois e trinta de altura e mal sabe escrever o nome, você vai pro Choque. Esses caras estão sempre nervosos.”

Poucos manifestantes arriscavam ficar próximos da Tropa de Choque.

Uma fonte dentro da organização militar confirma essa impressão. “O que eu posso perceber é que a maioria absoluta condena a ação. Muitos policiais se declaram envergonhados de ter participado dela. E os que apoiam, se você pesquisar, vai ver que ou ocupam postos de comando ou tem um histórico no Choque, que é uma tropa isolada e aquartelada, que tem muito pouco contato com o cidadão”, diz.

“Tudo o que a gente queria é que houvesse ali 100 mil servidores e que eles passassem pela gente. Mas a gente se decepcionou, e o movimento foi bem mais fraco do que em fevereiro. A maioria queria que o cerco fosse rompido.”

Em fevereiro, quando professores da rede pública ocuparam o plenário da Assembleia e impediram a votação de uma versão mais drástica do projeto, a presença do Choque fora menos ostensiva e, segundo os próprios servidores, a PM não parecia muito estimulada a defender o prédio. Houve um enfrentamento, mas um tanto protocolar, e os cordões foram rompidos com relativa facilidade.

Mas o Choque mudava tudo. E na quarta-feira, enquanto o gás lacrimogêneo enchia a praça como a fumaça de um incêndio, e a raiva contra a polícia — uma fúria viva — transbordava dos manifestantes em gritos e xingamentos impotentes, as palavras do escritor americano Norman Mailer pareciam se encaixar terrivelmente bem no cenário. Em “O Super-Homem vai ao Supermercado”, ele escreve sobre o cerco a Chicago na convenção democrata de 1968, e diz, a respeito da polícia:

“É essa minoria — os policiais e os bandidos — que busca uma saída para a violência que hoje atrai nossa atenção. O criminoso tenta reduzir a tensão que existe dentro de si manifestando na linguagem direta da ação o que existe de mais violento e ultrajado no seu íntimo; como não é um homem poderoso, sua violência é meramente anti-social, como o atentado ao pudor, a fraude ou o estelionato. Já o policial tenta resolver sua violência dando-lhe a cobertura de um uniforme. Isso é virtualmente um lugar-comum, mas explica por que os policiais aguentam salários baixos, a antipatia pública, as condições desconfortáveis de trabalho e uma sensação generalizada de má consciência. Sabem que têm sorte; sabem que obtiveram uma licença para dar vazão impune à criminalidade cujo gosto sentem no próprio sangue. Esse gosto é praticamente primordial na mente de qualquer policial; transpira suor fétido e abundante sempre que entra em ação; pouco tolera insultos e quase nenhuma contradição; mente com uma simplicidade e uma confiança que chocam qualquer cidadão decente que se confronte com elas pela primeira vez. A diferença entre um bom policial e um mau policial é que o bom policial se limita a uma versão modificada dos fatos — o mau policial inventa a sua versão.
[…]
O que mais abalou os delegados que assistiram ao ataque — melhor chamá-lo de massacre, porque foi súbito, total e sem provocação — da Michigan Avenue foi que ele revelou todo o espectro do que pode significar para a polícia tomar a sociedade a seu encargo. Nesse caso, ela pode se comportar não como um força de promoção da lei e da ordem nem como uma força de repressão da desordem civil, mas como uma verdadeira força criminosa, caótica, dada ao improviso, indisciplinada e finalmente — quando excitada além de certo ponto — incontrolável”.

Talvez muitos achem hoje, na segurança de casa ou do trabalho, que Mailer tenha exagerado; mas se alguém lesse esse trecho para qualquer pessoa não fardada na Praça Nossa Senhora da Salete no fim da tarde do dia 29, ela concordaria com ele.


O sangue começou a aparecer nas roupas. Cacetadas, lacerações por balas de borracha ou estilhaços de bombas de efeito moral. Um homem passou com a boca muito inchada, como se a estivesse pressionando internamente com a língua. “Soldado Fulano de Tal, 3º sargento. Me deu uma porrada”, explicou. “Vou buscar ele na casa dele”, planejou, a raiva ainda quente.

Manifestante atingido no rosto por uma bala de borracha.

Dos lançadores, as bombas cortavam o céu como pássaros e então despencavam como pedras, com um rastro de gás. Manifestantes tentavam devolvê-las para a polícia, lançando-as com as mãos ou com um pontapé. Algumas ficavam presas nas árvores, os galhos parecendo fumegar. Correu o boato de que a polícia poderia cercar o local, e as pessoas procuraram se posicionar de modo a ter uma área de escape. É possível que a polícia jamais tenha cogitado isso, mas dá uma boa ideia do que todos a achavam capaz naquele momento.

Alguns manifestantes começaram a atirar pedras na Tropa de Choque, um bloco humano posicionado com os escudos muito juntos — sólido, espartano, instransponível. Do caminhão de som, o comando de greve pediu que os revides cessassem. “Acha que vou ficar aqui embaixo só apanhando?”, alguém gritou, irado. Sempre que o bombardeio atenuava, um grupo mais jovem tentava se aproximar. “Resistência! Resistência!”, cantavam. “Uma hora a bomba acaba! Uma hora a bomba acaba!”, gritavam. E então a coisa toda recomeçava. O helicóptero da polícia voava baixo contra o céu de chuva, o barulho das hélices misturando-se ao espocar das bombas de efeito moral.

Do carro de som, vinha um reiterado apelo: “Por favor, polícia. Nós já recuamos. Os trabalhadores já recuaram. Parem de atirar bombas. Nos deixem recolher os feridos. Tem gente ferida aí, e nós não conseguimos chegar. Nos deixem tratar dos feridos”. Era como solicitar a um bêbado que parasse de dar vexame.

Nos jornais, o governador do Estado atribuiu a reação desproporcional da polícia a “baderneiros” e “black blocs”. Se realmente haviam “black blocs” infiltrados no movimento, eram os quatro citados no início do texto. Se você pertence a um grupo que quer derrubar o Estado, vai ficar na linha de frente, puxando o enfrentamento. E o jornalista estava lá, na linha de frente, quando tudo começou. Se houvesse mais, ele os teria visto.

Jamais se vira a polícia empregar tamanha força nem contra grupos historicamente violentos, como torcidas organizadas ou presídios em rebelião. O próprio secretário de Segurança Pública, Fernando Francischini (SD), sobrevoava o local dos protestos de helicóptero, durante os três dias, como um general avaliando uma estratégia.

Na quarta-feira, o líder da oposição ao governo Richa na Assembleia, Tadeu Veneri (PT), estava irritado com isso. Num microfone, declarou para quem quisesse ouvir: “Nós não podemos entrar no jogo de quem, até por questões mentais, fica rodando de helicóptero, achando que é o Rambo”.

Para garantir a votação, em segunda tentativa, do projeto que altera a previdência dos servidores públicos, o governo movimentara uma estrutura sem precedentes no Estado até onde a memória alcança. Cerca de dois mil policiais participaram do cerco à Assembleia Legislativa, o que dá um terço de todo o contingente da Polícia Militar da capital, concentrado numa área diminuta.

Segundo relatos, de 200 a 400 policiais da Tropa de Choque ocupavam, com cães, o interior da Assembleia. Policiais de diversas cidades do interior foram convocados: Umuarama, Guarapuava, Londrina, Maringá, Cascavel e mesmo Foz do Iguaçu, a 700 quilômetros de Curitiba. Guarda Florestal, Batalhão de Fronteira, policiais alocados no serviço administrativo e até mesmo integrantes da Banda Marcial — que até então parecia unicamente destinada a tocar nas comemorações do Sete de Setembro — integraram o cerco.

Na tarde de segunda-feira, o cordão de isolamento em frente ao prédio, que ia em arco da entrada secundária da Assembleia até o Largo Melvin Jones, tinha cerca de 450 policiais militares — lado a lado, com suas fardas castanhas e capacetes brancos, lembravam de longe uma fileira de cogumelos. “O governo ia impedir a entrada dos manifestantes a qualquer custo. A votação estava garantida. Isso ficou bem claro”, diz uma fonte dentro da estrutura militar.

Mesmo os funcionários da Assembleia eram revistados, e alguns chegaram a ser impedidos de trabalhar. “O policial me pediu um cartão. Nunca me deram um cartão”, contou um deles. “Mostrei meus documentos, ele disse que não valiam nada. Não me deixou entrar.”

Os manifestantes também tentaram o seu cerco. No dia da segunda votação, a partir do meio da manhã, fecharam 15 pontos que davam acesso ao prédio da Assembleia. Todo carro era vistoriado — inclusive de moradores, funcionários do Tribunal de Justiça e de escritórios das redondezas –, do interior ao porta-malas, na tentativa de barrar a entrada de deputados e impedir a votação. Alguns parlamentares, no entanto, haviam chegado muito cedo. Os demais devem ter acessado o prédio pelo Palácio Iguaçu e percorrido o corredor formado pela PM até a Assembleia. Às 12h30 já havia quórum.

O equipamento e o modo com que ele foi utilizado para reprimir os manifestantes também é questionado dentro da Polícia Militar: o uso de helicópteros, os tiros de bala de borracha à altura do rosto (a doutrina manda os alvos serem alvejados da cintura para baixo), a combinação de spray de pimenta e jatos d’água do caminhão do Choque (cuja reação eleva a ardência para níveis intoleráveis) e o despejo de bombas sobre os manifestantes. “Pode-se dizer que foi realmente uma lógica de guerra”, diz um militar.

Fora isso, o uso de um novo equipamento, uma espécie de sirene destinada a confundir os manifestantes. “Eu nunca tinha visto aquilo”, diz a fonte militar. “A sirene não é capaz de por si só causar um tumulto. Na hora, pode causar um desconforto. Mas abafava as orientações do caminhão de som, que ficava sempre dizendo: ‘Pessoal, sem violência. Mão pra cima’. Quando você tira isso, o controle do comando de greve, abre espaço para pessoas e grupos mais violentos.”

Durante os dias de protesto, todos os embates que precederam a grande repressão da tarde de quarta-feira parecem ter tido esse objetivo: tirar o controle do movimento do comando de greve. Na madrugada de segunda para terça-feira, a PM tentou guinchar o caminhão de som dos grevistas enquanto os professores acampados na Praça Nossa Senhora da Salete dormiam; o movimento acabou por despertá-los; o caminhão foi guinchado, com um saldo de oito feridos.

Professores acampados em frente à Assembleia na madrugada de terça para quarta-feira se protegem do frio.

No fim da manhã de terça-feira, novo enfrentamento com a PM, quando os servidores tentavam levar um novo caminhão de som para o local. O veículo acabou passando, mas só depois de deixar para trás quatro feridos entre os manifestantes. “O contato de terça-feira foi um erro muito claro do comando da PM. Ali, havia espaço para negociação”, diz o militar.

Mas a margem estava se estreitando.


O bombardeio cessou completamente mais ou menos na mesma hora em que o senador Roberto Requião (PMDB) subiu no caminhão de som do comando de greve. Ele estivera dentro da Assembleia Legislativa, para tentar negociar a retirada do projeto a respeito da Previdência. Lá fora, fez basicamente proselitismo político. Mas tinha uma informação: disse ter visto uma van com 1,5 mil bombas de gás e efeito moral endereçadas aos manifestantes.

A essa altura, o prédio da prefeitura de Curitiba havia sido aberto para receber os feridos durante os protestos. O primeiro andar e o subsolo ficaram lotados, não só de feridos, mas também de pessoas procurando proteção contra o frio, banheiros e alguma segurança.

Naquela tarde, o ambulatório da prefeitura tratara de cerca de cem feridos; 40 precisaram ser encaminhados para hospitais. O mais grave, com uma perfuração no olho, causada pelo estlilhaço de uma bomba de efeito moral.

Do lado de fora, em frente ao prédio, uma ambulância fizera outros 150 atendimentos: lacerações por bala de borracha, mordidas de cães, braços, dedos e crânios fraturados, pessoas nervosas e morrendo de medo. Um jovem tremia a ponto de não conseguir beber um copo d’água; era asmático e com o gás lacrimogênio tivera a certeza de que morreria.

Passado das 18 horas, a situação estava controlada. Dentro da prefeitura, num ambiente seco, iluminado, aquecido e seguro, o prefeito Gustavo Fruet (PDT) recebia os cumprimentos pela iniciativa de abrigar os feridos e posava para fotos. Conhecido por sua razoabilidade por vezes irritante, deu uma declaração: “Jamais imaginei isso numa democracia. A democracia tende a radicalizar. É do jogo bruto da democracia. Mas cabe ao gestor absorver a pancada. Você não usa a força desproporcional”, disse. “Jamais imaginei que a prefeitura um dia se transformaria na área de segurança de uma zona de guerra.”

Lá fora já era noite. Chovia uma garoa fina, como polvilho d’água, ventava e fazia frio. Do chão, manifestantes recolhiam souvenirs — cápsulas e estilhaços de bomba, principalmente. No dia seguinte, muitos acordariam doentes. Garganta inflamada, ouvido zumbindo, um mal-estar semelhante ao de um gripe forte, que derruba — efeitos retardados das bombas e do gás.

A sessão na Assembleia Legislativa que modificava as regras da previdência ainda não havia terminado, mas naquele momento qualquer um seria capaz de prever o futuro.

É detestável o cheiro de gás lacrimogêneo ao cair da tarde. Cheira a derrota.

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