Estou numa aula.

É um professor convidado. Ele está falando sobre a música e o sentimento de unidade latino-americana na segunda metade do século XX.

Começo a pensar.

Penso em uma pergunta.

Agora é só esperar o momento perfeito para fazer a pergunta. Espera um pouco… ah, tudo bem, a pergunta daquele cara começou de um jeito que… bom, pensei que ele iria para a seara da minha pergunta. Mas não foi. Mas acho que o professor já respondeu indiretamente a pergunta que eu faria. Se bem que minha pergunta seria de um caso específico. Será que é muito específica a ponto de me fazer parecer um babaca? Aquele cara que faz uma pergunta tão específica que ninguém sabe ou sequer pretende saber. É, acho que não vou fazer a pergunta. Vou ficar quieto. Eu deveria perguntar. Acho que estou um pouco ansioso. Será que é o remédio que eu voltei a tomar? Sinto o susto permanente no meu peito. O frio na barriga. Agora, definitivamente, não vou perguntar, não vou me submeter passivamente à minha ansiedade. Agora, não perguntar faz parte da minha cruzada ideológica contra minha própria ansiedade e em defesa da minha integridade mental. Não vou me torturar. Mas se bem que eu já estou me torturando. Que situação ridícula que eu mesmo estou provocando. Nada mais revolucionário e libertador que do que perguntar me expor ao ridículo da minha ignorância. Eu consigo até ver as pessoas virando os olhos para cima diante da estupidez da minha pergunta. “Nossa, mas esse imbecil não prestou atenção na primeira pergunta ou na aula?”. É, vou ficar quieto. Espera um pouco, a aula já está encerrando? Eu poderia perguntar para o professor em particular no final da aula. Nossa, coitado do cara, vai ter que aguentar aquele cara mala que vai perguntar no final da aula e impedindo ele de ir embora. Deixa, amanhã eu já vou ter esquecido a pergunta. Não é como se minha vida dependesse disso. Se bem que faz parte do meu papel como aspirante a historiador e de pessoa que tem apreço ao saber a função de sempre perguntar. Por outro lado, eu sou bem prepotente e distraído, existe a possibilidade de repetir uma pergunta já feita com outras palavras. Mas, não posso esquecer que o professor tem aquele dever pedagógico de em relação à perguntas de alunos. Mas entretanto, eu poderia…

Like what you read? Give Mário Rezende a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.