Por que ainda fazemos as Olimpíadas?

(Esse texto foi originalmente publicado em um blog de educação)

Se tornou algo recorrente nas escolas fazer pelo menos um trabalho a respeito das Olimpíadas. Via de regra, nestes trabalhos, os alunos se debruçam sobre a imagem do Barão Pierre de Coubertin, que além de um pedagogo que escreve uma série de artigos sobre o sistema educacional francês e inglês do começo do século, também trabalhava como historiador nas horas vagas.

Basta um simples ligar de pontos para entendermos que nada acontece por acaso. O mundo da virada do século XIX está todo debruçado sobre o mundo clássico. Pompéia é encontrada no final do século XVII, mas os trabalhos arqueológicos se iniciam somente no começo do século XIX, a mesma coisa com Herculano. É apenas no século XIX que Roma deixa de ser a “caçamba” da Europa e passa a ser vista como um sítio arqueológico.

A Grécia neste primeiro momento não tem espaço para os pincéis e as pás do arqueólogo. Ela é cenário de algo muito mais importante: sua guerra de independência.

“Nós perdemos nossos irmãos, nossa terra natal e nossos pais/ Nossos amigos, nossos filhos, todos nossos semelhantes?/ Melhor viver uma hora de liberdade/ Do que quarenta anos em escravidão e prisão” — “Thourios”, poema típico grego símbolo da guerra de independência

O Império Otomano não passa de uma sombra do que já foi um dia. Uma série de campanhas militares vergonhosas são responsáveis pelo enfraquecimento de sua imagem como potência militar. Particularistas se espalham por todos os lados e o caos é iminente. Entre esses particularistas, temos os gregos, que após quase dois séculos de dominação otomana, encaram este momento como o mais propício para suas revoltas. De fato era: surge um amplo apoio a estes rebeldes, principalmente pela nobreza das grandes potências europeias, que passa a financiar e até lutar nestes conflitos, um ótimo exemplo disso é Lorde Byron.

Por fim, a Grécia consegue sua independência após quase dez anos de uma guerra brutal, e é considerado por muitos, a primeira rachadura do gigante de pés de barro que era o Império Otomano.

Com sua emancipação, o povo grego agora passa a ser estudado pelos arqueólogos da Europa. Uma profissão marcadamente da nobreza, um hobbie caro e para poucos.

O século XIX europeu é o arquétipo do mundo da modernidade. As luzes, os cafés, os trens e as fábricas: feiras mundiais de tecnologia são oferecidas anualmente e a preços acessíveis; linhas de telégrafo diminuem as distâncias do globo; e, o progresso é ressoado por todos os lados. Portanto, é neste momento que pessoas como N. D. Fustel de Coulanges e o Barão Pierre de Coubertin começam a olhar para a sociedade grega clássica e encará-la como o ideal máximo de progresso.

O Barão Pierre de Coubertin em seus estudos se depara com este evento religioso quadrienal da pólis grega e o reproporia na perspectiva de sua época, amenizando o sentido religioso e reforçando o sentido esportivo.

As olimpíadas servem hoje muito para entendermos o mundo em que foi criada. Ela não tem nada em comum com sua parceira helênica, com exceção de alguns símbolos, servindo mais como um símbolo mundo pseudo-multicultural que vivemos.

Fontes:

· COUBERTIN, Pierre de. “Olimpismo. Seleção de textos” Porto Alegre, ediPucRs, 2015

· “History of the Balkans, 18th and 19th Centuries”. Nova Iorque, Cambridge University Press, 1983