Sobre a graduação

Encontrei um amigo um dia desses na faculdade. Conversamos durante um bom tempo, ele me contou entusiasmado sobre o grupo de estudos que faz parte. O espaço aberto da faculdade em que estudamos estava lotado. Barracas e tapetes no chão expondo produtos que ninguém tinha a menor intenção de comprar. Meias, sapatos e sutiãs usados. Em meio a isso, alguns LPs, livros e artesanatos. Algumas coisas pareciam propositalmente mal feitas, como se tivesse algo belo no relapso. O ambiente estava estranho. Resolvemos sair para comer. Enquanto caminhávamos pelo campus, continuamos conversando sobre os mesmo assuntos de sempre. Nada de muito novo, mas em meio aquela estranheza que tinha sido momentos antes naquela feira bizarra, o usual era confortável. Entramos no restaurante em outra faculdade, enquanto ele preparava seu prato, fui comprar um café. O preço de cafés em faculdades sempre me impressiona. Entreguei minha ficha para o senhor no balcão e aguardei. Eis que reparo que a máquina de café é uma daquelas máquinas italianas de se fazer café expresso. Uma máquina aparentemente cara, e que mesmo para dominar suas utilidades é necessário certo conhecimento. O mais interessante vem a seguir: o café, tirado de tal máquina, me foi servido em um copo de plástico descartável, desses que consultórios médicos e secretarias de escola usam para servir água. Isso me acertou como um trem.

O café desceu um pouco torto, apesar de estar delicioso. Quase gritei eureka e corri pelado ao terminar tal iguaria. Finalmente havia encontrado a metáfora perfeita para a vida em uma universidade pública.

Você não perde as regalias da classe média alta paulista, você apenas as muda de forma. Tomas um café expresso em um copo de plástico. Você se fantasia de operário. Finge estar cansado e abatido. A forma é operária, mas o conteúdo é característico de uma elite.

Claro, me sinto especialmente babaca dizendo isso, principalmente por fazer parte dessa elite. Mas às vezes sinto que esse é o tom da vida universitária. Você usa o espaço como um sandbox, em que arrisca e experimenta de tudo. Faz suas revoluções e seus cadeiraços. Todo dia é como se fosse Paris em 1870.

Enfim, você se forma, e se vê apanhando constantemente. Ainda bem que tenho dois anos para isso.

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