Você já ouviu falar no designer taxista?

O designer taxista costuma ser um padrão no mercado e isso é um problema para a profissão. Em síntese, o trabalho de um taxista é composto em três processos: coleta, locomoção e entrega. Um designer taxista costuma incorporar esses três processos como únicos em uma profissão estratégica. Nesse momento, o designer começa a perder valor no mercado para empresas e empreendedores que ainda não tem consciência do que realmente é design. E:

Design é uma disciplina que soluciona problemas, Paul Rand.

DESIGN NÃO É ARTE

Eu estudei o suficiente sobre design, mas mais do que isso, estudei sobre a aplicabilidade do design em ambientes empresariais, tanto externa como internamente. Foi o momento em que aprendi o verdadeiro poder e valor do design, onde hoje consigo transmitir tudo isso em qualquer projeto que eu idealize ou com qualquer cliente que eu trabalhe.

No ambiente empresarial, o maior problema é quando design é confundido com arte e quando o designer é confundido com o artista — até os próprios profissionais fazem essa confusão. Quando pensamos em artistas, lembramos de alguém que esteja preocupado com a expressão através da essência que ele captura. Se o empresários percebem design como arte é quando designers assumem o papel do “toque final”.

Se você é um designer que se presta a esse tipo de serviço, então você não é estratégico… mas apenas um mero e habilidoso desenhista.

DESIGNERS NÃO SÃO ARTISTAS

Designers são sim artistas, mas no mundo empresarial esqueça sobre isso. Todo design trabalha com arte de diversas formas, mas, como eu disse, esqueça sobre isso. Designers são estrategistas que utilizam do universo criativo para encontrar estratégias de soluções possíveis para resolver uma necessidade.

Um bom designer atua como parceiro estratégico na solução de problemas.

A REALIDADE

Querendo ou não, design é uma profissão que sofre falta de reconhecimento a cada nível dentro do mundo dos negócios. Principalmente devido, já discutido anteriormente, a relação arte e design. Por tanto, é comum observar dezenas e mais dezenas de profissionais que reclamam da situação atual presente em sua profissão. Como um perfil traçado, é comum observar designers que: reclamam sobre a falta de valorização na profissão, reclamam sobre as alterações solicitadas, reclamam sobre clientes não compreenderem o que realmente precisa ser feito, etc.

Designer, seja ele formado ou não, desde que estude bastante sobre teoria das cores, tipografia, diagramação, imagens e afins, sabe o que precisa ser feito para que um projeto consiga atingir sua máxima e resolver uma necessidade. O problema é que 80%, ou mais, dos novos designers no mercado, não sabem agregar valor estratégico ao seu projeto, ou seja, traduzir o seu conhecimento em resultados tangíveis para seus clientes. Processo que afeta diretamente a percepção de valor da profissão.

Nesse momento tive uma espécie de revelação onde a principal causa da desvalorização acontece por designers que tendem a ser meros “taxistas”, seguindo um caminho linear sem defender suas ideias e entregando um produto final em um processo rápido de “coleta de dados, produção e entrega”— aqui nem incluo os “micreiros”, que apenas trabalham com as ferramentas de design. O cliente solicita um projeto, o designer produz e entrega o resultado do seu trabalho. Fim.

O PROBLEMA

O designer taxista costuma mostrar o reflexo, resultado de seu trabalho, com valores intangíveis, onde geralmente também associa seu trabalho a uma visão artística e criativa do mundo. Supondo que o projeto fosse a execução de um logotipo, seria algo como: “a mudança de um logotipo afeta a percepção dos clientes para sua marca”, “fazer esse projeto trará a possibilidade de conquistar mais clientes”, “com um novo logotipo, você poderá ganhar mais destaque em relação em seus concorrentes”, “um belo logotipo torna a marca mais atrativa”, etc.

Todos esses argumentos de defesa para que um designer capture um cliente são ultrapassados, são subjetivos e são, principalmente, intangíveis, tal como nada estratégicos. Para um empreendedor, que costuma ter os gastos na ponta do lápis, não acrescenta nenhum valor a não ser uma promessa de um sonho encantado de um futuro melhor. Passa a percepção que o designer não sabe o que está fazendo e vive apenas de suposições. Assim, a terceirização do “toque final” acontece, pois o designer é visto como incapaz de resolver problemas mesmo que possa fazer isso. É quando nasce o pensamento “se o designer pode supor, eu como cliente também posso”.

Perguntas mais relevantes ficam sem respostas, como: de que forma a percepção dos clientes irá mudar? Qual o impacto em vendas que trará? Como afetará, em termos práticos, a receita da empresa? Como agregará em valor econômico para empresa? Qual a expectativa de retorno financeiro para o investimento?

RESULTADO

Quando algo tão intangível como “você conseguirá atrair ainda mais clientes” entra em jogo, o cliente começa associar o sonho de conquista ao apelo visual. Por tanto, relaciona o trabalho do designer a um trabalho puramente estético. Fazendo o resgatar a si mesmo a seguinte pergunta: “por que contratar um projeto tão caso, se posso apenas contratar alguém que faça algo bonito?” — quanto os “micreiros” se tornam viáveis.

Tanto o designer, quanto o empreendedor ficam em um jogo sem vencedores. Para o designer, a ausência de habilidade em apresentar resultados, defender seu projeto e conquistar posicionamento estratégico, prejudicam a percepção da profissão. Para o empreendedor, a ausência de percepção da profissão do designer não possibilita que ele enxergue o real valor que o design traz para o seu negócio.

SOLUÇÃO

Tudo começa com o fim das reclamações. Como designer, é preciso deixar de reclamar e remoer pela desvalorização do serviço e começar a agregar valor na profissão, independente do cliente que será preciso lidar. Também é necessário parar de reclamar sobre os micreiros, eles existem para preencher espaços que os próprios designers deixam vazios: clientes que não sentem que o projeto vale o alto custo de desenvolvimento e clientes que ainda não estão em condições de investir tanto dinheiro em algo que não parece ter tanto valor.

O próximo passo é começar traduzir projetos em números. Os números são a maior defesa que existe, são tangíveis e tornam-se mais visíveis para os clientes durante a apresentação e elaboração de um projeto. Se o designer, sabe a importância da aplicação da cor vermelha, mas o cliente insiste na cor roxa. O designer, precisa deixar de ser o taxista — fazendo o que mandam fazer… quando sabe qual o caminho certo, afinal essa é a essência da profissão: levar projetos ao sucesso estratégico. Como designer, é preciso apresentar dados reais que comprovem o uso da cor vermelha como fundamental, números que projetem o impacto do seu uso no projeto e números que demonstrem o impacto de sua ausência no projeto.

Por isso é muito importante que para designers construírem cases de sucesso, onde eles assumiram a liderança, com base em números. Identificando os indicadores de desempenho do que é executado, ou seja, valores numéricos capaz de traduzir o sucesso do projeto. E no fim, é muito simples: se o designer quer que a profissão tenha valor, é preciso começar a demonstrar o valor. Por experiência própria digo que é possível e já tive excelentes resultados utilizando mais o lado estratégico do design do que o lado artístico dentro do universo empresarial. E, espero, que tudo isso transforme a vida de qualquer designer que esteja lendo tal artigo.

Artigo também publicado no meu Linkedin.