MINHA IRMÃ QUE MORREU

Éramos uma família numerosa mas infelizmente nem todos os meus irmãos estão vivos, alguns já morreram por motivos diversos mas o que mais me deixou traumatizado foi a morte de minha irmãzinha Penélope, que morreu porque se recusou a fazer cocô.

Hoje temos todas as facilidades até papel higiênico preto, mas antigamente era osso. Só quem tem mais de 60 anos se lembra disso, mas naquele tempo o papel higiênico nem era em rolo, era quadrado isto é retangular. Vinha uns pacotes com umas 200 folhas com um furinho em cima. Que era pendurado num prego e a gente ia pegando as folhas pra se limpar. Nem tinha grife de papel higiênico, se chamava simplesmente “papel sanitário”. E como a família não nadava em dinheiro papai economizava em algumas coisas.

Quando saiu o papel higiênico em rolo foi uma revolução. Agora sim havia mais conforto. Mas papel higiênico em rolo só apareceu lá em casa quando a Penélope morreu. Na verdade nós só ficamos sabendo que existia papel higiênico em rolo graças a ela. Um dia ela chegou em casa e comentou que tinha ido na casa de uma amiga precisou usar o banheiro e viu que na casa dessa amiga o papel higiênico era em rolo e macio, e perguntou pro papai por que o nosso não era assim, eram aquelas folhas quadradas e que pareciam uma lixa. Papai explicou que éramos pobres, e as despesas eram controladas, papel higiênico em rolo era um item caro demais para nossas posses e tínhamos que nos conformar. Se ele comprasse papel higiênico de melhor qualidade faltaria dinheiro para os selos de correio que usava para mandar as suas famosas cartas pros jornais, Penélope chorou muito dizendo que na casa da Ritinha* (nome fictício) era tudo melhor. Papai deu um soco na mesa dizendo que o pai da Ritinha era rico porque era dono de um cartório, e por isso não faltava dinheiro e disse aliás vou escrever uma carta agora mesmo para os jornais denunciando a máfia dos cartórios e saiu para a máquina de escrever. Vovó Otília falou que na época que ela era criança nem papel higiênico tinha, só nos Estados Unidos, aqui as pessoas usavam folhas de bananeira pra se limpar.

Bom, enfim, o papel higiênico lá em casa continuou quadrado e daquela marca vagabunda. Penélope resolveu o problema indo fazer cocô escondido na casa da Ritinha, onde podia usar e abusar do papel higiênico macio de lá. Ou seja em vez de fazer cocô em casa esperava pra ir na Ritinha e fazer cocô lá.

Entretanto quando chegaram as férias aconteceu uma desgraça. A família toda da Ritinha viajou para conhecer a Disneylândia e Penélope não tinha mais onde fazer cocô. Então simplesmente parou de fazer cocô. Eu fui o primeiro a perceber, e reparei que a Ritinha estava passando mal e com a barriga muito inchada. Falei com a mamãe que havia algo estranho com ela, seria melhor levá-la ao médico. Mamãe foi no posto de saúde e demorou muito para ser atendida, os postos de saúde nos sabotavam porque papai tinha escrito cartas denunciando a máfia dos atestados médicos e com isso eles faziam operação tartaruga para se vingar. Finalmente depois de ir três dias e ficar na fila com a Penélope elas foram atendidas por um médico bondoso que disse minha senhora sua filha está assim porque não faz cocô há mais de duas semanas, Dê este purgante pra ela que fica tudo resolvido e puxou da gaveta uma amostra grátis. Entretanto o socorro veio tarde demais. Penélope desmaiou e morreu.

Ficamos todos abalados. Mamãe teve uma discussão séria com papai eles se trancaram no quarto para conversar mas dava pra escutarmos os berros. Mamãe dizia por causa dessas suas malditas cartas você não comprou papel higiênico e nossa filha morreu. Ou vai na farmácia agora pra comprar papel higiênico em rolo ou pego todos os meus filhos e saio desta casa. Enfim papai saiu cabisbaixo do quarto, foi na farmácia e voltou com os tão sonhados rolos de papel higiênico. Eles não se tocaram de que tínhamos ouvido a conversa e ele explicou. Crianças temos que fazer sacrifícios na vida. Eu serei o primeiro a dar o exemplo. De hoje em diante em vez de cem cartas para jornais escreverei apenas cinquenta por semana, e com a economia comprarei papel higiênico em rolo para usarmos ao invés daquela lixa horrível.

Foi uma festa, ficou mais prazeroso fazermos cocô. Se Penélope fosse ainda viva, teria adorado.