BICHO PAPÃO

Quando a mente de uma criança é mais perigosa que a própria realidade…

Oliver descia a escada da casa cuidadosamente, a meia branca que calçara escondia o som de seus passos enquanto ele caminhava em direção ao banheiro, sua respiração estava desregulada, acabara de acordar de um sonho ruim, daqueles em que você anda calmamente e cai em um buraco escuro, mas desta vez foi diferente, ele não acordou de imediato, ficou caindo por alguns segundos enquanto um riso grave aumentava de volume, só quando o som ficou perto demais que Oliver acordou, seu travesseiro estava molhado de suor, sua mãe o mataria de manhã pois tinha urinado nas calças, por sorte não molhara o colchão novo.

O corredor estava escuro, possuía um sensor de presença que apagava a luz quando não havia ninguém, ele caminhou a passos rápidos para o banheiro, a luz demorou alguns instantes para perceber que ele estava ali, mas acendeu, a tenebrosa risada ainda rodeava os pensamentos do pequeno garoto, não queria acordar seus pais para falar que teve um pesadelo, sua mãe veria as roupas molhadas de xixi e ficaria brava, melhor seria correr até o banheiro para trocar de roupa e voltar para a cama de fininho, no outro dia de manhã contaria para a mãe o acontecido, com ela descansada talvez não brigasse tanto.

Ele acendeu a luz e procurou uma cueca e seu outro pijama no cesto de roupas sujas, preferia não sujar outra roupa nova caso o incidente acontecesse novamente, subiu na ponta dos pés para se olhar no espelho, ser baixinho tinha lá suas dificuldades, mas com certeza espicharia como o pai, com apenas nove anos de idade não se pode dizer que você será baixinho para sempre, lavou o rosto para limpar o suor, enxugou o rosto e foi saindo do banheiro em direção à cozinha.

Foi caminhando novamente para o fim do corredor, a risada ainda persistia na sua cabeça, talvez um pouco de agua com açúcar o ajudasse a esquecer. Chegando lá foi diretamente para o armário para pegar um copo e o açúcar, deixou os dois na mesa e voltou para pegar uma colher na gaveta e a agua numa geladeira inox enorme, suprimiu um espirro de frio ao abrir a porta da geladeira, seu pai acordava com qualquer barulho, voltou até a mesa e preparou a bebida, tomou em goles pequenos com pequenas paradas para respirar, a água estava bem gelada.

Foi quando a luz do corredor acendeu, Oliver se abaixou no balcão na tentativa de se esconder, mas nada ouviu, se levantou lentamente espiando o corredor procurando que se movera por lá, por um tempo ele encarou a luz que se cansou de iluminar um corredor vazio e se apagou novamente, mas junto com a escuridão veio algo a mais, uma sensação ruim estava alojada naquele breu fantasmagórico, todos os seus nervos diziam para não voltar por ali, mas era o único caminho de volta ao quarto, ou enfrentava o corredor ou deitava no chão da cozinha esperando mais alguém acordar, não chamaria seu pai ou sai mãe dali, com certeza o seu irmão Tomas ouviria e usaria isso como motivo de chacota do irmão mais novo.

A luz do corredor acende novamente, e não há nada lá, novamente a luz apaga, e agora tem alguma coisa lá, Oliver tremeu de medo, e se o bicho-papão estivesse lá pronto para pegá-lo, o levaria para longe de seus pais e nunca mais traria de volta, o faria ficar dias e mais dias com saudade de casa sussurrando no seu ouvido que foi um menino mau por ter feito xixi na cama, Oliver não queria que isso acontecesse. A risada continuava em seu ouvido, agora mais alta, ele tremia de medo, travado no meio da cozinha em frente ao corredor escuro, não sabia se ficava ou corria, se realmente o bicho-papão estivesse no corredor o pegaria em um instante e o levaria embora.

A luz acendeu, Oliver correu pelo corredor direto para a escada, subiu pelos degraus de dois em dois como uma bala, quanto mais rápido chegasse em seu quarto mais rápido estaria em sua cama em segurança, passou pela porta do quarto de seus pais em disparada, chegou na porta do seu, entrou e desviou de todos os brinquedos espalhados pelo chão, serviriam de armadilha para o bicho-papão, ele pulou para cima da cama e se escondeu em baixo do cobertor, agora estava seguro, ali o bicho papão não o pegaria, mas a risada continuava em sua cabeça, a sensação de perigo ainda não havia cessado, a luz do corredor em frente o seu quarto tornou a se apagar, a presença voltou ainda mais forte do que antes.

Oliver não dormiu naquela noite, ele ficou acordado até o amanhecer ciente do bicho papão no corredor, com a luz chegando a tenebrosa presença se arrastou lentamente de volta para atrás do guarda roupa, o relógio desperta e Oliver não aguenta mais o sono, saiu de baixo do cobertor e desligou o som do aparelho, um pequeno calafrio passou pela sua nuca, ele olhou para trás e nada viu, se escondeu novamente e tentou dormir um pouco, por sorte era sábado e sua mãe não acordaria para ir trabalhar. Oliver fechou os olhos e voltou a dormir, a risada continuou por todo o sono, só que desta vez mais baixa.

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