Jacó, Lia e as Cotas

Por Otávio Damichel

“Quando o Senhor viu que Lia era desprezada, concedeu-lhe filhos; Raquel, porém, era estéril.” — Gênesis 29:31

Hoje pela manhã, ao fazer minha leitura matinal, me deparei com esse texto que conta a história de Jacó, Lia e Raquel. Jacó, filho de Isaac, vai até Labão e pede sua filha mais nova, Raquel, como pagamento por sete anos de trabalho. Labão concorda e Jacó começa a trabalhar para ele, e ao fim de sete anos Jacó exige a Labão, seu sogro, o pagamento, ou seja, Raquel, a filha mais nova. Porém, Labão o engana, enviando-lhe Lia, a filha mais velha, para que se cumprisse um velho costume de se casar antes a filha mais velha.

O resultado disso são mais sete anos de trabalho por Raquel. Jacó a amava demais, a novinha parecia ter um belo corpo, segundo o texto. E quando Jacó finalmente a possui, passa a desprezar Lia, sua primeira e mais velha esposa.

Vendo Deus esta situação injusta e como Lia não era amada, concedeu-a um ventro fértil, enquanto a Raquel, a esterilidade. As duas são irmãs, as duas têm o mesmo direito ao marido, as duas são casadas com o mesmo homem; porém, uma é amada (novinha), e outra deprezada (mais velha). E aí o Senhor interfere!

Quando Deus abençoa Lia com a fertilidade, Ele não a está privilegiando, apenas igualando sua oportunidade de atenção do marido, pois se sabe que naquele tempo os filhos representam uma grande bênção de Deus e a mulher estéril sofria muito mais do que hoje, não àtoa que mais pra frente Raquel oferece sua serva Bala em seu lugar para que seu marido tenha filhos para ela.

É importante afirmar que igualdade de oportunidades nem sempre representa justiça, pois se proporcionalmente Lia tem 40 e Raquel tem 70, é necessário que Lia receba 60 e Raquel 30 para que as duas cheguem a 100. Reconhecer no outro uma necessidade maior que a sua é no minimo generosidade de quem reconhece que na vida teve mais oportunidades.

E o que isso tem a ver com cotas?

Todos os programas de bolsa, assistência ou ação afirmativa são vistos como privilégio para quem não se esforça. Esse pensamento mundano de meritocracia nos soa natural, e adoramos ter nossos esforços reconhecidos. Mas nos esquecemos das oportunidades que nos foram dadas para chegar até aqui.

Por exemplo, até hoje o mercado de trabalho é reflexo da opressão sobre os negros, pois exercendo as mesmas funções, eles recebem cerca de 40% a menos que os brancos (2013). Em 2014 o IBGE apontavao percentual dos alunos negros que concluem o ensino médio, 45% vão pra universidade; enquanto que dos brancos, 71% vão pras universidades. Segundo o Mapa da Violência, dos 56 mil homicídios que ocorrem por ano no Brasil, mais da metade ocorrem entre os jovens. E dos que são assassinados, 77% são negros.

Agora reflita, crente, se as cotas são privilégio ou reparação e igualação de oportunidades? Se for avaliar a vida pelo mérito de cada um, pode começar rasgando sua Bíblia.