Velhas ideias articuladas por velhas pessoas: o novo ensino médio

“O Brasil, último país a acabar com a escravidão, tem uma perversidade intrínseca na sua herança, que torna a nossa classe dominante enferma de desigualdade, de descaso.” Darcy Ribeiro

O governo golpista de Michel Temer [PMDB], junto ao Congresso Nacional, empurram para nós (sem nenhum debate com a sociedade, com as estudantes, professoras ou pesquisadoras em educação) uma “nova” proposta de ensino médio, autointitulada como novo ensino médio.

Já é de prática desconfiarmos de tudo que tenta ganhar nosso apoio com o renome de “novo” ou “livre” (vide certos movimentos sociais e partidos), devemos sempre nos questionar que liberdade e renovação é essa que está sendo oferecida. Por exemplo, o que de novo pode ter num ensino médio reformado única e exclusivamente por políticos, que além de velhos, são considerados os mais conservadores desde a ditadura militar?

Bom, vamos analisa-lo: falando na ditadura, eis que surge uma coincidência: este “novo ensino médio” lembra muito as reformas educacionais feitas pelos militares, principalmente a de 1971, com vários pontos parecidos (principalmente ideológicos).

Durante o período militar, foram banidas completamente as disciplinas filosofia e sociologia de qualquer currículo escolar, e, além disso, passaram um “pente fino” em todas outras matérias, retirando coisas que a ditadura considerava inadequadas, principalmente dentro da história. Enquanto isso, Temer e o Congresso eliminam a obrigatoriedade do ensino de história e geografia (ambas matérias recheadas de discussões sobre a sociedade), transformam a exigência das disciplinas filosofia, sociologia, artes e educação física em apenas “estudos e práticas”, e as únicas que passam a ser realmente obrigatórias nos três anos do ensino médio são português e matemática.

Também, igualmente à proposta do Temer, naquela época o ensino foi dividido entre uma base comum e outra diversificada, pensando, entre outras coisas, na “iniciação e habilitação profissional em consonância com as necessidades do mercado de trabalho local ou regional, à vista de levantamentos periodicamente renovados”. Essa medida, além de ser um agrado ao mercado financeiro (que financiou amplamente o golpe militar), foi o começo do sucateamento do nosso ensino público, que somada a outras medidas como a eliminação do gasto mínimo para educação e o corte de gastos, deu-se espaço para as empresas privadas de educação se instalarem e fortificarem no território nacional.

No novo ensino médio, Temer facilita (ou melhor, prioriza) o ensino profissionalizante: as professoras e os professores precisam apenas do notório saber para lecionar as aulas, as escolas podem firmar acordos com institutos de educação técnica ao invés de oferece-la dentro da própria instituição e a aluna ou o aluno podem inclusive preencher o currículo cursando qualquer escola de ensino técnico, até mesmo se for de educação à distância.

Dai ficam duas perguntas: com toda essa facilidade para com a educação técnico-profissional, as gestões educacionais (do Estado e da instituição de ensino), que hoje já não conseguem contratar professores qualificados pela falta de verba, vão preferir esse percurso para oferecer às alunas e aos alunos ou de outras formações que já estão precarizadas atualmente nas escolas? E a estudante, vivendo num país que é jogado cada vez mais pra dentro da crise pelas políticas neoliberais do governo, onde o desemprego só cresce, vai preferir escolher uma formação que pode talvez garantir um emprego para ela no futuro ou uma formação em humanas ou biológicas?

O rolê desta reforma é justamente fazer com que as escolas prefiram a educação profissional pela facilidade e nossas juventudes a escolham pelo desespero e o medo. Afinal, é isso que a “educação bancária” quer: gente calada e com a carteira de trabalho assinada (mas sem seguro desemprego, sem férias, sem abonos, sem direito trabalhista nenhum).

Os atores dessas reformas “de ontem e de hoje” são os mesmos. São comandados pela mesma classe dominante e têm os mesmos medos: um ensino que ajude as pessoas a pensar, se conscientizar e se libertar. Ano passado Temer e o Congresso sentiram na pele o resultado de uma juventude conscientizada politicamente com o movimento de ocupação de escolas, institutos federais e universidades, pelas estudantes secundaristas e universitárias, contabilizando mais de 1100 instituições de ensino ocupadas, contra esta mesma reforma e contra a PEC55/241, e foi apenas uma faísca do incêndio que nossas juventudes ainda causarão no país.

Esta reforma foi uma resposta à tudo isso que passamos: conscientização, empoderamento, lutas, greves e as faculdades sendo pintadas de povo: as classes dominantes estão desesperadamente com medo de perderem seus privilégios.


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