Otimismo

Ilustração: Otávio Tersi

7:15.

7:30.

7:45.

8:00.

8:47.

“Maldita função soneca”, era o bom dia dele pro celular. Não que alguém diga “maldita função soneca” na vida real; a gente fala palavrão na vida real.

A gente acorda e levanta e vai pro trabalho na vida real, e todas essas coisas de vida real. Toma um banho, escova os dentes. Come alguma coisa, às vezes. Daí a gente abre a porta, fecha a porta e sente as calças leves demais. “Maldita carteira”. A gente tateia, sente que a carteira ficou na mesa. Daí a gente entra e — olha só — a porta estava aberta. E a carteira no bolso da gente.

9:34.

“Maldita função soneca”. Ele achou melhor levantar antes que começasse a sonhar de novo. Virado pra cima, feito defunto (quem dorme assim?), defunto atrasado.

Daí o corpo levanta, mas a cabeça não. Literalmente, mesmo. “… que… PUTA QUE PARIU!” — olha só, a vida real -, exclamou quando viu o próprio corpo, sem cabeça, levantar na sua frente. Ou melhor, na frente da própria cabeça, ainda no travesseiro.

- “Caralho, caralho, ca…”, não adianta. Resolveu ficar em silêncio. Corpo e cabeça imóveis.

Pensou se não dormia de novo. Mas a gente nunca sabe que está sonhando, então não.

Pronto. Ainda em choque, sempre tem um pouco de curiosidade. A gente pode ficar assustado, mas vai cutucar pra ver. Mexe um dedo, o dedo mexe. Mexe o braço, o braço mexe. Toca a barriga, a barriga sente. O corpo sem cabeça vira pra cabeça, estica a mão e enfia o dedo no olho sem querer, “ai”. Parece difícil, movimentos espelhados. Toca a testa. A testa sente, a mão sente. O olho ainda arde, mas agora já passou.

9:40.

E agora? Ele já sentiu no olho que não dorme mais. Precisa ir trabalhar.

Quanto pesa uma cabeça? Pôs as mãos em volta da própria, mas pareceu bizarro demais. Não ergueu. Que agonia, não dá pra virar a cabeça sozinho, o corpo ficou com quase todo o pescoço.

“Ok, calma”. Vamos lá, racionalidade. Hoje é terça feira, ele foi dormir cedo ontem. Pensou — só agora, veja — se não podia ser alucinação. Poder, sempre pode. Tateou o pescoço do corpo, tateou o resto de pescoço que ficou com a cabeça.

“Não tem sangue…”, e resolveu pegar a cabeça de uma vez. Levantou com cuidado a própria cabeça e caminhou até o banheiro. As coisas ficam diferentes quando a altura da cabeça é outra.

No banheiro, ele se viu segurando a cabeça entre as mãos, como se a cabeça fosse uma bomba sensível (ou uma criança com dejetos), um pouco distante do corpo. Surgiu a conclusão: “…”

Boquiaberto entre os braços, a criatividade surgiu. Afinal, ainda pensava e se movia, apenas tinha o corpo solto da cabeça.

* * *

“Podia estar mais frio” — a mente paliativa pensou, buscando justificar o cachecol.

Desceu as escadas com cuidado. Elásticos, panos. Barbante, gaze, esparadrapo. A cabeça estava no lugar. “É o que tem”, precisava virar todo o corpo pra enxergar se dá pra atravessar a rua, agora. Feito aquele batman do George Clooney. Deu, atravessou a primeira rua. Depois atravessou as outras onze ruas e até chegar nos elevadores do escritório.

“…”, era o bom dia do porteiro. Elevador, décimo oitavo.

“PUTA MERDA, NÃO!”, sozinho, ainda no andar zero. Tirou a mão do bolso pra apertar o botão redondo com o “18”, mas a mão ficou. A palma, os dedos e a lesão por esforço repetitivo, todos guardados no bolso esquerdo do casaco, com as chaves. “Que diabos está acontecendo?!”, falados na realidade do “que porra é essa?!”.

Cuidando pra não perder a cabeça — e a mão direita -, respirou fundo. Conseguiu que toda ela saísse do bolso, “ufa”, e fechou a porta do elevador. Com a destreza que tem, retirou a mão esquerda do bolso. “Isso não faz o menor sentido. Isso…”. Pensou mais um pouco e mexeu a mão esquerda. Ela mexeu. “Isso não faz o menor sentido”. Teria balançado a cabeça em negação, se pudesse. Olhou pro espelho com a mão nas mãos e mexeu a esquerda. Deixou cair no chão do elevador, “que estranho”. Uma sensação nova, olha só. A gente não costuma sentir a mão em queda livre.

Tentou então fazer a mão caminhar, que nem naquele desenho da família estranha. “Tá no inferno, abraça o capeta”, pensou. Não deu certo. Parecia um bicho agonizando. “Deixa pra lá”, não queria ter a visão de sua própria mão fritando quando tudo voltasse ao normal.

“Quando tudo voltar ao normal…”

Alguém chamou o elevador, “opa”, mão guardada no bolso outra vez. “Pelo menos foi a esquerda”.