Ilustração: Otávio Tersi

Todo Hábito Evolui

Desde um tempo tudo parece mentira. Faz um tempo. Tudo o que querem dizer está nas entrelinhas. Aquelas risadas são pra você. Aquela história sobre o primo do cara que devia dinheiro, é uma cobrança pra você. O comentário é sobre o seu mau cheiro, sobre o seu hálito. Sobre seu cabelo mal cortado e sobre seu atraso. O comentário sobre chifre é sobre você, seu otário. Aquela música é sobre você. Não, claro que não escreveram sobre você. Mas onde você ouviu? Quem pôs pra tocar? Entendeu? Entendeu, sim.

Finalmente percebeu. E as lembranças? Nem controle sobre elas você tem. É tudo distorcido — eles distorcem, você é o palhaço. Você é o recreio, O Entretenimento do Descuido
E ninguém vai nunca dizer a você. O hábito evolui; você pode fingir, amputar os braços, João. Todo mundo já sabe. A zombaria é a prova do que você não esconde de ninguém por fora da sua cabeça. É assim que funciona.

Todo hábito evolui.

Agora você entende os horários, não é? As ocasiões, as desculpas e os fervos. Tudo bem debaixo do seu nariz. Agora você está aqui.

- “Você está aqui.”

Olhos hiperativos, grandes. “Você está aqui”, mais uma vez, e a criança — que já parecia olhar pra ele — olhou pra ele. Claro que tô. Sabe que quando criança encara você, não solta o olho. Elas tão ligadas.

Mas essa não, o moleque só tava lendo (Lendo o olhar vazio? Lendo o terminal?)

Não adianta mais do que respirar fundo e entrar no bonde que já chegou. O problema é a senhora Amélia, ela estava ali e agora está aqui do lado, em pé porque dormem nos assentos, os oportunistas.

Seguiria pensando sobre como resolver — embora soubesse ser impossível -, aquela situação degradante. Não dos oportunistas, dos sarristas. Dos zombeteiros constantes. Mas se perdeu pensando se estava mesmo ali.

Claro que tô.