E a Vila, como fica?

Saiu o projeto da nova arena.O ponto aqui é: qual é o valor da Vila? Não em reais, mas sim para a torcida: qual seu impacto na identidade e história.

Direto ao ponto: o jeito que se usa a Vila vai ser transformado e muito. A proposta da Consórcio 3 — com alguma aceitação dos conselheiros — é servir também como local de eventos, assim como a nova arena. Meio como dois salões multiusos. Em termos de futebol, só os jogos com previsão de 5 ou 6 mil serão jogados na Vila, enquanto partidas de 18 mil iriam para o outro estádio. E também muda muito o custo: a previsão é de dobrar o quanto se cobra por cada partida.

O que isso muda? Mesmo sem um estudo profundo, dá pra dizer que é muita coisa. O que a Vila Belmiro é para o santista? Somente parte de sua história centenária, bem além de apenas um estádio.

Santos e Palmeiras, final da Copa do Brasil-15. SERGIO BARZAGHI/Gazeta Press

Para começar, as relações criadas no lado de fora do estádio são fortes: se come e se faz festa nas ruas que formam o famoso quadrilátero, cada um com seu lugar. As ruas ao redor fazem parte da ida ao estádio. O santista, não vai simplesmente ao Urbano Caldeira, mas vive o conjunto da Vila Belmiro por pelo menos por uma tarde.

Outro ponto da identidade: a famosa pressão da Vila. Hoje em dia, devido a proibições, aumento de preço e algumas reformas com camarotes e o atual setor 26, isso só existe em jogos decisivos, com a torcida inflamada e a casa cheia. Os jogos com pouca gente quase não trazem mais essa tal alma da Vila. Não sei se há santista que queira como legado um estádio em que se ouve mais o vendedor de pipoca que a torcida, mas é isso que faz o projeto do Consórcio 3.

Explico. Ao impor por meio do contrato que os jogos de menor público sejam na Vila e com um ingresso caro, o estádio é esvaziado cada vez mais. Assim, fica mais distante o cantado Alçapão. Em outras palavras, boa parte da história de torcer do santista, que se formou ao longo desses 100 anos, corre o risco de ser abandonada.

Final do Paulista-16. Crédito: https://blogdomunir.files.wordpress.com/2016/05/santos-1x0-audax-final-do-campeonato-paulista-torcida-08-05-2016-facebook-bruno-ulivieri.jpg?w=634

Ao invés de valorizar essa rica memória e as relações que já temos, a proposta é deixar a Vila separada da vida do clube, como apenas um museu ou um templo que não recebe jogos importantes. Na minha opinião, algo tão importante como a Vila merece um tratamento muito mais cuidadoso do que vem sido feito, e ainda mais do que se pretende fazer. Inclusive poderia servir para valorizar a história especial do clube, até mesmo financeiramente. O que vale mais: onde se criaram tantos mitos do futebol ou mais um salão de eventos?

É claro que são necessárias mudanças e melhorias no estádio, e isso é o que dá força para o projeto da nova Arena. Mas será mesmo que não é possível realizá-las sem perder tudo que já foi criado? Criar um outro espaço pode acabar deixando de lado parte da identidade e da força do Santos, onde já se conquistaram tantos títulos e se criaram tantos raios.

No fundo, cabe o questionamento se levar em conta e valorizar o que já existe — o bairro, o estádio, a torcida, isso que faz parte de ser santista- não seria a solução e a forma que essas transformações acontecessem. A torcida e clube tem todo o direito de querer mudar coisas, inclusive em lugares tão delicados e complexos como a Vila Belmiro. Fazer isso sem levar em consideração o que já existe é a questão.

Verdade seja dita, o projeto da Arena Portuários aborda alguns desses pontos que levantamos. A relação com o bairro — que apesar de nenhum investimento ou cuidado do clube respira futebol em dia de jogo — é o que motiva a criação de uma “área de integração” entre a Vila e a nova Arena. Ainda é uma questão em aberto, mas claramente não é algo central no novo projeto. O que já se disse é que seria algo em torno de aterramento de fios e pequenas reformas. Pouco custo, nada que precise de um investidor externo para ser feito.

Também seria feita uma reforma da Vila, de até 25 milhões de reais. Uma pesquisa rápida vê que é bem pouco para os padrões brasileiros. Então: o que se consegue fazer com esse valor? E será que o Santos não conseguiria bancar algo semelhante sem precisar de investidor e consórcio, já que é pouco, ainda mais perto de sua importância para o clube?

Realmente, a proximidade do campo foi mantida no projeto. Mas não só assim se faz a pressão: todas as relações de amizade que foram construídas e fazem parte da torcida nem foram levadas em consideração. Não se mudam simplesmente de um lugar para outro, ainda sem contar com o aumento no preço de se ver um jogo.

A Consórcio 3 defende que haveria uma valorização da Vila com o novo estádio. Assim como vários fatos dessa proposta, não dá para ter certeza. É o mesmo que sempre se fala de grandes obras, como as arenas da copa. Se a realidade já mostra que não é bem assim e colocando na conta o impacto na história santista, vemos ainda mais problemas.

Finalmente, a empresa tem todo o direito de propor o novo projeto. Mas pensando na identidade do que é ser santista e na história e memória — que não são valorizadas nessa proposta - é um pouco difícil de achar pontos bons para o Santos. Essencialmente, por 10 mil lugares que nem sabemos se são possíveis de serem feitos na VIla, perde-se mais que um lugar: literalmente, se arrisca uma construção centenária. O novo é necessário, mas para isso se deve perder o passado? Mais que os conselheiros, quem tem que responder é a torcida.