Childlike Wisdom [Sabedoria de Criança]

Sobre os problemas da Igreja, a nossa falta de amor, unidade e maturidade

Ser maduro é ter um relacionamento com Cristo, no qual o adoramos, amamos, confiamos e o obedecemos. — John Stott

Um dos maiores desafios para a teologia moderna é lutar pela sã doutrina e pela pureza do evangelho que nos foi deixado por Jesus e guardado a preço de sangue pelos apóstolos. A falta de maturidade espiritual cristã tem nos levado a enfrentar problemas relacionados a sincretismo religioso, misticismo, heresias e falsas doutrinas.

Temos vivido um evangelho moderno “ao gosto do cliente”, um “cristianismo de consumo”, cujo objetivo tem sido satisfazer demandas pessoais daqueles que se dizem cristãos. Nosso cristianismo imaturo tem sido absurdamente antropocêntrico.

Há quem diga que estamos bem, devido ao explosivo crescimento numérico que temos atravessado ao longo das últimas décadas. Num âmbito global, as religiões cristãs tem tido um crescimento abismal, porém sem profundidade. Há quem diga que subitamente estamos com problemas. É possível enxergar problemas na Igreja que somos hoje. Não sejamos hipócritas. Como Igreja temos problemas que se estendem a décadas, e se formos sinceros, na maior parte do tempo nós não parecemos muito interessados em solucionar esses tais problemas. Os problemas que enfrentamos hoje como Igreja são resultado da nossa falta de maturidade espiritual cristã. Se eu for ousar, diria que o cerne de todo o sincretismo, misticismo, antropocentrismo e consumo é resultado da nossa sociedade da experimentação.

“Experimentar o novo” resume de maneira chula o que tem sido apregoado pela sociedade e cultura de massa desde o liberalismo dos anos 60 até os dias de hoje. Inicialmente na luta pela liberdade de expressão e opinião, contra as reprimendas de uma dominação aprisionadora, e logo após a luta pelo individualismo coletivo. Vivemos numa sociedade na qual todo indivíduo quer ter suas vontades e crenças satisfeitas e respeitadas pelo outro, não necessariamente respeitando o sentido de coletivo.

O Evangelho do Coletivo

Numa era de experiências individualistas, como praticar um evangelho de vivência coletiva?

O dilema é que o evangelho de Cristo é um evangelho de vivência coletiva. Numa era de experiências individualistas, como praticar um evangelho de vivência coletiva?

O cerne do desafio, acredito, está na falta de amor. Somos uma sociedade, Igreja e indivíduos que não sabem amar. Isso se evidencia no temível “terceiro mandamento”. Os dois maiores mandamentos segundo Jesus Cristo são: 1) Amar a Deus sobre todas as coisas; 2) Amar o próximo como a ti mesmo. Pois me parece que alguns de nós acreditamos existir um terceiro mandamento que John Stott chama de algo parecido com “Amar a si mesmo”.

Se formos honestos, na maior parte do tempo, não amamos a Deus (amar a Deus é obedecê-lo), não amamos o nosso próximo (amar o próximo exige sacrifício pessoal em benefício alheio), mas amamos imensamente e cegamente a nós mesmos.

Mas é claro que se eu não amo nem a Deus acima de todas as coisas jamais conseguirei amar o meu próximo. E se não amo o meu próximo a quem consigo ver, jamais amarei a Deus — que não vejo — sobre todas as coisas. O meu amor egoísta por mim mesmo me distancia da realidade do amor a Deus e de Deus para com os outros. Quanto mais eu amo a mim mesmo, menos eu receberei o amor de Deus por mim, e menos serei capaz de apresentar o amor de Deus ao outro.

Se não aprendermos com Cristo como amar, jamais seremos cristãos. Sem o amor verdadeiro de Deus, não há solução para nossos problemas de imaturidade cristã.

Mas o que é maturidade espiritual cristã?

A maturidade espiritual cristã está ligada diretamente ao amor. Um amor que não se compra, nem se merece, mas sim, é gerado pelo Espírito em nós — pela graça o recebemos — para agirmos em favor do Reino e do próximo.

Não há Reino sem amor (e essas talvez sejam minhas palavras finais sobre o amor nessa fase). Não há Evangelho sem amor. Não há Cristo sem amor. Talvez estejamos vendo Cristo do jeito errado. Talvez estejamos encarando Cristo pelos nossos próprios interesses e não pela revelação divina de Cristo. Talvez estejamos vendo Cristo pela ótica popstar, pela ótica milagreira, pela ótica da prosperidade, pela ótica do positivismo.

Maturidade é enxergar o Cristo das Escrituras, o verbo encarnado, o Cristo que nos foi revelado divinamente, não o Cristo de nossa vã filosofia.

Maturidade espiritual nada tem a ver com inteligência adulta, mas sim com sabedoria de criança.

Logo, se formos sinceros, assumiremos que maturidade espiritual nada tem a ver com inteligência adulta — derivada do pensamento crítico — mas sim, tem a ver com sabedoria de criança. A sabedoria de criança é capaz de amar, obedecer e confiar em Deus como devemos para que possamos cultivar um relacionamento com Ele. A sabedoria de criança nos permite cultivar relacionamento íntimo Pai e Filho, e é somente cultivando nosso relacionamento íntimo com o Pai que alcançamos maturidade. A sabedoria de criança nos permite enxergar o Reino em sua pureza, encanto e grandiosidade. A sabedoria de criança nos permite amar o nosso próximo — amar sem olhar a quem — ao ponto da entrega. A sabedoria de criança nos permite ser unidos uns com os outros. A sabedoria de criança não faz tempestade em copo d’água e não permite que problemas relacionais se tornem um empecilho ao próprio relacionamento.

O Reino do Amor

No Reino de Deus, quem não for [sábio] como uma criança, não encontrará lugar. Não há lugar no Reino para a presunção do conhecimento empírico, teológico, filosófico. Não há lugar no Reino para o ódio escondido em sarcasmo, para a soberba escondida em falsa modéstia, para a carma disfarçado de caridade. O Reino de Deus pertence àqueles que são sábios como uma criança, capazes de viver irmandade e igualdade, capazes de amar com sinceridade, capazes de obedecer e receber correção, amor e graça.

Se não nos tornarmos como criança em sua sabedoria simples jamais entenderemos que o amor é simplesmente quem Ele é. Se não entendermos que o amor é tudo o que Ele é, não seremos capazes de viver o Reino. Se não vivermos o Reino, nunca seremos a Igreja que Ele espera ter. Tudo se resume ao amor.

Quando tudo estiver dito e feito, a única coisa que realmente importará é o amor — real, eterno e pleno. Então que amor tome conta e assuma a frente e totalidade de nossa realidade. O amor é ação. O amor é o próprio Deus. Não apenas em parte, mas em tudo o que Ele é. Então que o amor seja o centro. Sem amor, nós nada seremos. Sem amor, nós nunca seremos (1 Coríntios 13).

Sem amor, nós nunca seremos.