Carpeaux

Manuel Bandeira | Jornal do Brasil, 1960
H á muitos anos, quando o fato não tinha ainda importância nem para ele nem para nós, contou-me Otto Maria Carpeaux ter nascido em 1900. Desculpe o meu querido amigo esta indiscrição: era-me impossível deixar passar a data de hoje, que é a do seu sexagésimo aniversário, sem a celebrar publicamente. Não sei se doerá a Carpeaux fazer sessenta anos. A mim não doeu: havia muito que eu já começara a pôr em prática os conselhos do folclore pernambucano:
Quem tem sessenta anos
Não pode beber,
Não pode dançar,
Não pode namorar.
Na verdade, só me doeu mesmo foi fazer os trinta: é o fim da mocidade, e como eu não a tive, me senti roubado.
Disse atrás que Carpeaux me fez a revelação da data de seu nascimento quando o fato não tinha importância nem para ele nem para nós. Para nós tem agora muita, pois quer dizer que Carpeaux está com vinte anos de Brasil, o que já lhe daria direito de cidadania brasileira ainda sem carta de naturalização. Não é nada fácil ser brasileiro naturalizado. Vinte anos de luta ao nosso lado pela nossa cultura, pelo nosso progresso, devem dar a todo estrangeiro, mesmo não naturalizado, o direito amplo de crítica, o que nem sempre acontece. Carpeaux, homem de caráter, natureza franca e polêmica, tem feito inimigos. É evidente, porém, que os amigos são sem conta, e entre eles estou inscrito desde o primeiro momento em que o conheci. Devo-lhe muito. A sua acuidade crítica, a sua imensa cultura foram uma espécie de finishing touch na minha formação de poeta; por ele vim a tomar contato com poetas de cuja grandeza não havia ainda suspeitado — um Camphuis, um Hoelderlin, um Liliencron, dos quais me fez ele traduzir poemas. Deu-me consciência de meus acertos melhores, ajudando-me a escolher na minha própria obra. Estimulou-me inúmeras vezes com o seu aplauso, e não se limitou ao aplauso: mais de uma vez honrou-me com exegeses penetrantes… anteriores ao New Criticism. Minha dívida para com ele é enorme.
Esse Kulturkaempfer, como lhe chamou o jovem mestre da Fantasia exata, tem sido nestes vinte anos de Brasil um extraordinário fator de nosso esclarecimento, de nosso enriquecimento intelectual. Fortaleceu-nos em nossa admiração pelos nossos gênios. A sua vida é um exemplo de inteira dedicação às letras, de absoluta dignidade como escritor e como homem. É, sem sombra de dúvida, o que o nosso inesquecível Ovalle considerava “um grande brasileiro”.

Jornal do Brasil, 9 mar. 1960, 1.º caderno, p. 3. — Reproduzido no Correio da Manhã, 10 mar. 1960, 1.º caderno, p. 2.
