Flash: Otto Maria Carpeaux

João Condé | Letras e Artes, 1949


Nome: Otto Maria Carpeaux.
Nasceu em 1900 na cidade de Viena.
Casado, sem filhos; “não transmitiu a nenhuma criatura o legado de nossa miséria”.
Altura, 1,71.
Colarinho: variável, conforme o grau de mal-estar íntimo.
Sapatos: não sabe o número, mas sabe onde lhe apertam.
É muito míope; não usa óculos porque não é preciso ver tudo.
Cabelo com entradas, mas ainda não pode economizar o cabeleireiro.
É católico romano.
Gosta dos seus vizinhos de edifício: Coronel Olímpio Mourão Filho e Jorge Lacerda.
Fuma; não diz à mulher quantos maços por dia.
Gosta muito de uísque escocês, conhaque francês, mas ainda mais do cafezinho nacional.
Quase nunca come frutas nem legumes.
Não gosta de fazer visitas; mas faz.
É nervoso, mas não controlado.
Dorme a madrugada e levanta-se cedo.
Gosta de viajar de avião, e gostaria mais se fosse barato.
Entre os meios de condução, prefere o táxi.
Nunca deixa sem resposta uma carta, embora responda com atraso.
Tem paixão pelos cachorros, especialmente basset, que não considera como bichos.
escreve a mão.
Gosta muito de tomar remédios e injeções; não acredita em vitaminas, mas “que las hay, hay”.
Seu maior amigo: Álvaro Lins.
Não gosta de crianças.
Usa exclusivamente gravatas listradas.
aprendeu a jogar no bicho, mas nunca acertou.
Julga-se organizado, entretanto não tem fichário.
Detesta rádio e não aprecia cinema sonoro.
Poetas brasileiros de sua predileção (sem preocupação de ordem): Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, Augusto Frederico Schmidt, Dante Milano, Cecília Meireles e Jorge de Lima.
Gosta muitíssimo do poeta paulista Juó Bananére.
Romancistas brasileiros de sua predileção: José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Octavio de Faria.
Santo de sua devoção: Santa Teresa de Ávila.
Dos seus livros prefere os que não publicará nunca.
Se pudesse recomeçar a vida, faria provavelmente as mesmas bobagens.
Pintor brasileiro de sua predileção: Portinari.
É um devoto profissional da música.
Seus compositores preferidos: Bach e Beethoven.
Detesta música popular de qualquer país.
Seus escritores preferidos: Dante e Shakespeare.
Acredita não desconhecer nenhum livro essencial da literatura brasileira; mas desejaria desconhecer alguns que leu.
Aprendeu a língua portuguesa só por meio de leitura e dos conselhos de Aurélio Buarque de Holanda.
Sua leitura predileta: poesia.
Línguas: fala 5, escreve 4, lê 11.
Formou-se em Matemática, Física e Química, e depois em Letras e Filosofia.
escreveu scripts para o cinema mudo.
Não gosta de escrever; escreve porque precisa — e porque gosta.
O primeiro livro brasileiro que leu: Páginas recolhidas, de Machado de Assis.
Perdeu em Viena sua biblioteca; vendeu em São Paulo os últimos objetos para comprar alguns livros nacionais; reconstituiu no Rio sua biblioteca.
Tem medo da agonia, mas não teme a morte.
Sente particular afinidade espiritual com Carlos Drummond de Andrade.
É brasileiro por naturalização e por afeto; além da possibilidade de viagens, não pretende mais deixar o país, ficando enfim enterrado no São João Batista.
Não gosta muito de biografias; mas admira especialmente as obras biográficas de Lúcia Miguel Pereira.
Dos poetas brasileiros do passado, o poema que mais o impressionou é “Último credo”, de Augusto dos Anjos.
É supersticioso; acredita em assombração, sobretudo na política.
Espera morrer aos 58 anos de idade, conforme lhe predisse uma cigana.


João Condé, ‘Flash: Otto Maria Carpeaux’, Letras e Artes, Rio de Janeiro, 10 jul. 1949, pp. 8–9.