Hannah Baker (Katherine Langford)

Hannah Baker e o dilema narcísico

Narcisismo: O mal da contemporaneidade?

“13 Reasons Why” é uma série que tem dado o que falar. Lançada no dia 31 de Março de 2017, a nova trama da Netflix conta a história de Hannah Baker, uma garota de 17 anos que comete suicídio, deixando para trás 7 fitas nas quais ela explica os 13 motivos que a levaram a cometer tal ato. A série tem dividido opiniões na crítica. É aclamada por trazer à tona a questão do suicídio no universo adolescente, mas, ao mesmo tempo, taxada de irresponsável pela maneira como conduz essa empreitada.

Contudo, o grande acerto da série, ao meu ver, é mostrar como Hannah é afetada pelo contexto sociocultural em que está inserida. Para melhor entender esse raciocínio, é necessário falar um pouco sobre como os valores da nossa sociedade vem mudando. Isto é, como ideias meritocratas e individualistas reverberam intensamente mundo à fora e como essa proposta de autonomia coloca uma pressão enorme sobre cada um de nós.

Ficamos perdidos, à medida que temos que arcar com as consequências de cada escolha e ainda somos condenados por uma sociedade de padrões rígidos, que retalia toda e qualquer ação considerada inadequada. Eis que, para aliviar um pouco desse peso, encontramos um refúgio na nossa própria imagem. Ou seja, percebemos que não precisamos ser exemplares em todos os âmbitos de nossas vidas, basta que pareçamos pessoas corretas aos olhos do outro e tudo ficará bem.

No entanto, o que não estava no script é a descoberta de que, tal como ser julgado é doloroso, ser adorado por todos, é maravilhoso. Com essa novidade, a satisfação do ego desponta definitivamente como uma nova forma de prazer a ser explorada. Inicia-se uma obsessão desenfreada do indivíduo com si próprio, não para evitar as vaias de seus semelhantes, mas para conseguir seus aplausos. É o que a psicanálise chama de transtorno de personalidade narcisista- em uma analogia ao mito de narciso.

Com a internet e a Web, esse comportamento só se prolifera. A quantidade de likes no Facebook, no Instagram ou no Twitter, agora, passa a ser uma preocupação diária socialmente condicionada e, em meio a tanta masturbação de ego, esquecemos de nos perguntar: Estaríamos passando limite?

É justamente sobre isso, que a história dos estudantes do Liberty High School vem nos dizer. A série coloca, na maioria dos episódios, o problema da imagem individual como palco dos conflitos entre os adolescentes- Justin não mede suas atitudes para parecer pegador em frente aos amigos, Courteney só se preocupa em manter a pose de heterossexual e Alex objetifica quem quer que for desde que, com isso, consiga a aprovação dos outros garotos. Todavia, ninguém olha para Hannah e para todas as consequências que aqueles eventos geram para ela- ter sua reputação destruída, perder contato com Jéssica, sua melhor amiga, ser julgada por toda a escola, assediada por Marcus e perseguida por Tyler. Ninguém nota que o quadro depressivo da jovem vai se agravando aos poucos. Ninguém se atenta para o quão desamparada e sozinha, ela se sente, até ser tarde demais.

Em suma, “13 Reasons Why” é importante também por ir além da questão do suicídio. A obra escancara o fato de estarmos imersos em uma cultura narcisista, apontando, aos seus espectadores, a necessidade de se exercitar a alteridade e a empatia. É uma série que faz refletir acerca das dificuldades, das pressões e desse novo dilema inerente aos homens e às mulheres contemporânexs.

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