Fundamentos da Educação ao Ar Livre

Thiago Paiva Brito
Sep 2, 2018 · 26 min read

Por quê escrever um post tão longo e tão detalhado sobre o FEAL depois de três anos?

Primeiramente, eu queria algo para me ajudar a lembrar de tudo isso já que eu acabei não escrevendo diário nessa expedição. Em segundo lugar, eu julgo que, depois do movimento escoteiro, o FEAL foi a experiência mais importante e poderosa que me guiou para o caminho que estou percorrendo atualmente. E por último, gostaria de deixar essa descrição para todos aqueles que estão reticentes em fazer um FEAL porque, realmente, é uma experiência extremamente marcante.

Desculpem, lá vai textão…


Eu não poderia começar a falar do FEAL sem mencionar como eu cheguei a conhecer a Outward Bound Brasil.

Em meados de 2014, o Dragões do Mar já tinha reaberto e a Região Escoteira da Paraíba promoveu um curso de canoagem para os escotistas. O curso era ministrado por um instrutor de uma famosa (e até então desconhecida por mim ) escola americana de liderança ao ar livre (e foi aí que eu descobri que tinha gente boa o bastante pra fazer grana com educação ao ar livre). Caí dentro, e lá eu conheci o Edmilson Montenegro Fonseca (que algum tempo mais tarde veio a se tornar um grande amigo).

O cara era (ainda é) fera! Na época eu fiquei impressionado com a presença de espírito, a personalidade entusiasmante, a qualidade técnica do conteúdo e a paixão que ele demonstrava com que ele estava ministrando pra nós. Era coisa de outro mundo, desconhecido pra mim até então. Mas eu pensei: “esse cara é Paraibano, ele deve ter começado de algum lugar…”

Por falta de intimidade, fui stalkear ele no Google alguns dias depois e encontrei um curriculum outdoor dele disponível em domínio público. Além de ser fundador da Neblina (que era uma conhecida loja de artigos e operadora de turismo de aventura em João Pessoa), ele também tinha tomado um curso em um ponto inicial da carreira como instrutor com uma tal de Outward Bound Brasil chamado FEAL, ou “Fundamentos da Educação ao Ar Livre” (que o próprio site dizia que anteriormente se chamava “Formação de Educadores ao Ar Livre”). Fui buscar mais informações sobre o curso e decidi me inscrever.

Corta pra fevereiro de 2015. Depois de várias tratativas, estou eu na cidade de Itanhandú/MG saindo de um ônibus depois de cerca de 5hs de viagem para encontrar meus companheiros e começar o FEAL. Ficamos hospedados por uma noite na Tropical de Altitude, uma agência de ecoturismo da cidade. Eles também operam uma espécie de hostel por lá, e a OBB faz parcerias com eles pra receber a galera. O pessoal foi chegando ao longo da tarde e da noite, e fomos trocando algumas conversas ainda bem tímidas. O tirinete começou mesmo no dia seguinte quando os instrutores chegaram. Os instrutores fizeram uma rápida dinâmica de apresentação em que eramos estimulados a refletir, não sobre o que fazemos, mas sobre o que somos. Depois disso a fazer o preparativo para a saída, separando comida e montando mochilas e equipamentos segundo um esquema bem comum pra esse tipo de expedição.

Depois de uma viagem de +/- uma hora chegamos até uma estrada no bairro de Ribeirão, na cidade de Pouso Alto. A van não conseguiu mais subir na estrada devido ao peso e às condições meio úmidas da estrada de terra, mas nos deixou a uns 300 metros do nosso destino: A fazenda da Dona Marieta, uma simpática senhorinha chegada a dar bananas fresquinhas tiradas do pé; e queijo para os montanhistas visitantes.

Que lugar é esse!

Montamos nossas barracas nas imediações da casa dela, um pouco afastado pra não incomodar. Foi nesse setting que os instrutores iniciaram praticamente as nossas instruções pelo básico do básico. Algumas dicas sobre montagem da barraca que íamos usar, como usar o toilette utilizando técnicas de mínimo impacto (Leave no Trace) e como utilizar os fogareiros MSR (que não são tão triviais, mas são super práticos). Depois do jantar também tivemos mais algumas instruções de como lavar a louça e dispor da água utilizada na lavagem de forma a não deixar o local impactado nem atrair animais, mais dicas de LNT.

Os maestros do nosso FEAL, Fernando Zara e o Fernando Aranha, em ação.

Na manhã seguinte, depois de um café da manhã reforçado com banana e de uma breve instrução sobre o básico de mapas e orientação, começamos nossa jornada.

O primeiro dia foi praticamente de subida. O objetivo era chegar até o Pico da Bandeira. Pelo mapa, uma distância curta não fosse o desnível. Subimos e subimos e continuamos subindo. Eu estava com um preparo físico moderado, mas nunca tinha caminhado com uma mochila monstra como aquela (com pedaços da barraca, parte do material de cozinha e uma parte da comida para 7 dias que estávamos levando). Foi duro, mas devagarzinho o cara sobe. Nesse momento, a técnica para subir com passos pequenos e sem forçar o joelho ajuda bastante, mas o que mais ajuda sem dúvida são os bastões de caminhada. Sem eles, eu estaria ferrado…

A galera cuidando dos calos

Paramos algumas vezes para remendar os calos e comer, e aí mais uma novidade: a comida de trilha era feita basicamente por frutas secas (e doces), castanhas, queijo e salaminho. Ki-suco também estava no cardápio, já que ajuda a repor o açúcar tão necessário para a tomada de decisões, pesa pouco e é só misturar com a água que já levamos e pronto.

Depois de um dia quase todo de subida, chegamos à crista que nos levaria até o pico pretendido. Mas até chegar lá, ainda tinha uma densa mata para passar. Fomos mata a dentro literalmente “varando mato” (bushwacking) devido à falta de trilha, com os cipós se enroscando na mochila e frequentemente tendo que parar para o companheiro de trás ajudar a soltar das agarras da mata. Pra coroar o dia, o último passo era uma escalaminhada numa pedra meio complexa, mas depois disso já estávamos no dito pico.

Lá, haviam vários esqueletos de vacas mortas. Os instrutores disseram que provavelmente elas se desgarraram e foram atingidas por um raio ali em cima. Na época do verão, a região da mantiqueira (que é muito úmida) funciona como uma panela d’água evaporando o dia todo, até que uma hora no final da tarde a chuva cai com toda. E assim foi naquele início de noite…

Incoming…

Do outro lado do vale já conseguíamos ver as nuvens chegando e os raios caindo. Os instrutores rapidamente nos deram instruções sobre posição de raio e quais os procedimentos que deveríamos seguir caso a coisa ficasse preta. Os raios chegaram mais perto, e quando o tempo entre o flash e o boom diminuiui pra 4seg, entramos em posição de raio na barraca para diminuir o risco. Houveram alguns momentos de pânico por tudo ser novidade para a maioria dos que estavam ali, mas a chuva passou e o ceu abriu para uma noite estrelada e fria onde todos capotamos devido ao cansaço.

Escoteiros se reconhecendo, e os novos amigos bombando a foto 😂

No dia seguinte, logo após o café que foi bem demorado e de uma dinâmica com pequenas mensagens de sabedoria que o Aranha carregava para momentos difíceis, os instrutores fizeram um briefing sobre o caminho a seguir, o ponto onde deveríamos acampar e sobre os processos de liderança no grupo. Começaram a nos dar mais autonomia, mas ainda estavam no grupo para nos direcionar sempre que necessário. Antes de sair, o Zara deixou uma reflexão para fazermos silenciosamente enquanto caminhávamos: “O que nos motiva a continuar na dificuldade?”. Pra mim, até hoje uma pergunta difícil de se responder…

As mensagens do Aranha

Neste dia começaram a surgir os conflitos no grupo, já que as opiniões sobre onde deveríamos parar, a melhor direção a tomar, quanto tempo de scout fazer e etc; começaram a entrar em jogo. O Jota (que também é escoteiro como eu) sumiu por quase 1h fazendo um scout nesse dia, o que já gerou um certo pânico na galera que, parada, esfriou e estava preocupada com o sumiço dele.

Depois de muita confusão, um banho de rio “forçado” e muita discussão sobre se a posição no mapa estava certa os melhores caminhos a se seguir (mais curto ou longo e menos inclinado era sempre uma discussão braba), chegamos ao famosíssimo curralzinho, mas decidimos acampar um pouco mais à frente para diminuir o impacto já que o local era frequentemente utilizado por grupos que passam ali. A água ficou meio longe, mas não impraticável.

Rolou uma instrução sobre Feedback e outra sobre Zona de Conforto (que até hoje talvez seja a coisa que se tornou mais intrínseca em mim de todo o curso).

Sala de aula

O clima começou a ficar meio tenso, e no dia seguinte foi a primeira vez que os instrutores nos largaram pra fazer a navegação sozinhos. O local do próximo acampamento acordado com eles era até próximo, mas enquanto nós decidimos dar uma volta pelo contraforte do morro por onde era mais plano, os instrutores chegaram lá em menos de 1h subindo morro acima de onde estávamos. Demoramos muito, mas também passamos por locais lindíssimos e conseguimos achar os instrutores no local certo depois de um tempo. Isso ajudou a limpar as nuvens no grupo por um tempo.

Como chegamos bem cedo, os instrutores aproveitaram pra fazer algumas dinâmicas sobre comunicação e coordenação de grupo e o Beto Pavani fez a primeira aula ministrada pelos alunos e fizemos nossa primeira pizza de fogareiro.

Como o FEAL é um curso com enfoque em técnicas de educação ao ar livre, cada aluno é solicitado a levar uma instrução para apresentar para o grupo e, posteriormente, todos (inclusive os instrutores) dão feedback sobre metodologia utilizada para transmissão do tema proposto.

Nesse dia também foi o aniversário do Arthur, então o Zara usou toda a sua perspicácia de culinária outdoor para simplesmente fazer um fuckin’ BOLO pra ele!

Quero ver a Ana Maria Braga fazer um desse sem forno, no meio do mato.

O local do acampamento era próximo ao Pico do Garrafão, então a galera combinou um alpine start para subir o pico e ver o nascer do sol lá de cima. Eu ia, porém a noite foi uma das mais frias da minha vida até então. Então na hora H, lá pelas 3:30 ou 4hs da manhã, eu bati pino e fiquei na barraca dormindo.

E foi isso que eu perdi… Até hoje, o segundo maior arrependimento dessa expedição (o primeiro foi não ter feito diário).

Com a galera no pico, eu acabei acordando bem cedo e encontrando com os outros “dorminhocos”. Ficamos 4 no total. Acabei indo buscar água num riacho logo abaixo para deixar o café da manhã pronto quando a galera chegasse. O Zara falou depois que em um dos FEALs por ali, a galera avistou uma onça tomando água bem aonde eu fui buscar água e, como por coincidência eles estavam contra o vento, conseguiram ficar observando ela por alguns bons minutos até que ela percebeu a presença do animal mais perigoso da terra (humanos) e saiu correndo.

Antes de sair, rolou uma aula massa sobre tomada de decisão e lá fomos nós pela crista da Serra dos Coelhos em direção ao local onde iríamos encontrar com o Dian Delmonte da Tropical de Altitude, que ia trazer nosso re-supply. Ainda durante esse dia o Aranha fez uma outra dinâmica com umas foto de poltronas, que revelavam alguns traços da personalidade de quem as escolhia. Achei bem interessante. Também foi nesse dia que encontramos os primeiros seres humanos (e um cachorro) desde que nos despedimos de Dona Marieta com as mochilas excessivamente cheias de bananas.

Foi uma travessia sem maiores problemas, mas já perto do fim do dia, na última descida, começou a chover uma chuva pesada. Apesar de estar com o anorak e a calça de chuva que a OBB me emprestou, comecei a ficar bem molhado e descobri que a impermeabilização deles não estavam tão OK quanto o pessoal da OBB esperava. Quando chegamos ao local do acampamento bem no meio de uma estrada antiga, a chuva torrencial se juntou ao frio de fim de tarde com o por do sol. Estendemos a tarp e colocamos todo o nosso material embaixo para comer um pouco para esperar a chuva passar, porém ela não passou e decidimos começar a montar as barracas na chuva mesmo enquanto havia luz.

Nunca ignore os sinais

Nesse momento, vale a pena parar para salientar a péssima decisão que o grupo tomou por falta de input meu: eu era o único nordestino, desacostumado com frio, tinha parado a mais de 40min de caminhar, portanto, estava com o corpo frio; e tinha comido e bebido basicamente coisas doces. Estava molhado e, enquanto estava dentro da tarp com todo mundo tava tudo razoavelmente quente, mas quando saí na chuva para montar a barraca, óbvio que tinha que dar merda.

Comecei a tremer incontrolavelmente enquanto finalizava de ancorar os espeques da barraca e o Vandeko foi avisar aos instrutores, que rapidamente vieram e sacaram a jogada: início de hipotermia.

Foi uma instrução seca a simples do Zara: Entre na barraca, troque essa roupa por uma roupa seca e entre no saco de dormir que eu já volto. Quando eu entrei no saco, eu não conseguia sentir o frio indo embora, então o Zara chegou com um par de garrafas de água quente e me instruiu a colocá-las entre as pernas e me abraçar com a outra. Ele fechou meu saco de dormir completamente, junto com a barraca e eu simplesmente apaguei por quase 2hs. Acordei com alguém me chamando para ir jantar e eu me arrumei pra sair da barraca, me sentindo meio culpado por não ter ajudado em nada no jantar.

A chuva já tinha passado e eu tava com um frio mais controlado. Ainda ajudei a lavar a louça. Durante o debriefing rolou um stress entre o Jota e o Danilinho, não lembro bem porque, mas lembro que foi tão sério que os instrutores tiveram que tirar eles da tarp pra gerenciar isso longe do resto do grupo.

No dia seguinte recebemos nossos alimentos e os instrutores nos reuniram para fazer a separação da comida. Depois de tudo separado e pronto, rolou uma reunião. Os instrutores disseram que o Dian estava pronto para levar e hospedar os que desejassem interromper a viagem por aqui, e que ninguém deveria se sentir culpado por querer sair, mas que cada um deveria avaliar em face do que viveu se valeria a pena continuar. Não vou negar que naquele momento pensei no banho quente, numa caminha fofinha com lençois quentinhos. Mas também pensei em todos que estavam torcendo por mim, minha família, namorada, escoteiros… foi uma decisão mais complicada do que eu imaginava naquele momento, mas decidi que eu precisava viver aquilo até o final, assim como todos os outros companheiros.

Depois do momento, fui arriscar um banho com o Beiço num rio que passava ao lado. Geladíssimo! Depois rolou a aula da Giana sobre a Jornada do Herói nas ruínas de uma fazenda próxima. Quando ela já estava terminando, sem aviso algum, sem chuva nenhuma, pipocou um relâmpago que deu pra ser visto a olho nú, de dia, a menos de 4seg de onde estávamos.

Saímos correndo feito loucos para as barracas para pegar os isolantes e parar na posição de raio, mas fora dois outros raios mais distantes não rolou mais nada. O Jota aproveitou a deixa para fazer a aula dele sobre o protocolo do Sistema de Avaliação do Paciente e Primeiros Socorros (que é parte do programa do WFA, curso também oferecido pela OBB aqui no Brasil). Apesar da aula de PS muito bem dada, ela não nos preparou para o que rolou naquela noite…

Todos na cozinha felizmente preparando as comidas para começar a cozinhar. Alguém acende um fogareiro. O fogareiro rapidamente perde pressão…

Quem já usou um fogareiro MSR sabe que quando a garrafa de combustível está cheia, sobra pouco espaço para o ar fazer pressão, então precisamos bombar ela com mais frequência. Quem não sabe, faça um curso da OBB e aprenda a usar as ferramentas de gente grande.

:)

Alguém bomba o fogareiro, de repente uma bola de fogo sobe. Todo mundo levanta assustado, o fogo começa a derreter a tampa da garrafa de combustível. O Beto, like a hero, pega a garrafa em chamas com a mão e arrasta pra fora da tarp sob risco dela explodir. Sorte que não, os instrutores que a essa altura já estavam chegando ao ouvir nossos gritos, rapidamente tem a ideia de usar a lama que se juntou por causa da chuva que caiu para apagar o fogareiro antes que a benzina exploda. Um rastro de mato queimado ficou no caminho que o Beto passou com a garrafa na mão, então usamos nossos sit pads para extinguir o resto do fogo. Risco real, um baita susto.

Como a bomba estava completamente destruída, chegamos a uma conclusão coletiva no debriefing que o incidente foi causado por um mal encaixe da bomba na boca da garrafa de combustível. Quando a garrafa foi bombeada, a pressão escapou espirrando combustível em cima do fogareiro aceso e causando todo o problema. Daí pra a frente, começamos a checar duplamente se a bomba estava posicionada corretametne na garrafa. Foi só o primeiro incidente de alguns que eu já tive com MSR ao longo dos anos.

Para a segunda metade do curso, os instrutores sugeriram que dividíssemos e designássemos algumas responsabilidades no grupo (como quem ia cozinhar, ou quem ia lavar as louças, adicionalmente às responsabilidades como líder e navegação que já tínhamos).

Na manhã seguinte, antes de sairmos, a Tati fez um jogo pra quebrar o gelo da galera e rir um pouco e a Fernanda fez sua aula onde nos ensinou um pouco sobre alongamento estático e dinâmico e suas aplicações corretas pra maximizar nosso aproveitamento. Em seguida, caímos mais uma vez na trilha, subindo morro com as mochilas pesando uma tonelada.

Here we go again

Eu estava na navegação com a Giana nesse dia, com mais uns curiosos que nos acompanhavam o tempo todo na tomada de decisão. Em um determinado momento do dia a galera achou que estávamos em um morro e eu tinha certeza que estava em outro. Numa das paradas também, eu sugeri para a galera parar do lado do morro protegido do vento, mas ninguém deu ouvidos. Nesse momento, o Zara me chamou num canto e disse que todas as minhas avaliações estavam corretas, e que eu precisava ser mais assertivo com o grupo e persistir nas minhas ideias. Levei isso como uma mudança de comportamento para a vida.

Mais na frente, o Danilo que tava de líder meio que tomou o mapa e começou a navegar no nosso lugar. Rolou um pequeno stress nessa hora, mas a gente conversou com ele, ele esfriou um pouco e pudemos continuar.

Encontramos com os instrutores no local combinado para o novo acampamento no meio da tarde. Era um descampado na crista de um contraforte, com água próximo e um cucuruto que protegia as barracas e a tarp. Foi a primeira vez que montamos a tarp sem nenhuma árvore por perto, usando só os bastões de caminhada e ancoramentos.

O Zara deu uma aula sobre a Janela de Johari no final da tarde, que foi outro assunto que impregnou em mim de um jeito pesado até hoje. Fizemos também uma troca de grupos de barraca nesse dia também. Novos parceiros, novas conversas antes de dormir :).

Novo dia, novo objetivo: iriamos passar pelo morro do chapéu e teve uma galera que queria dar uma escalada. Eu fiquei conversando no pé do morro com as meninas e o Guilherme nesse dia, não tava afim de subir, tava afim de interagir.

A galera foi lá, escalou e voltou. Seguimos curso para o nosso acampamento que era em uma baixa, mas quando estávamos começando a descer o céu fechou feioso. Então eu vi o primeiro sinal de que o treinamento surtiu efeito: quando percebemos que a casa ia cair, rapidamente tomamos uma decisão de parar, armar a tarp rapidamente para ficarmos secos, se agasalhar, entrar em posição de raio acima da mochila e comer alguma coisa pra nos manter quentes. A chuva chegou e os raios também, caindo em toda a nossa volta, mas ao invés de entrar em pânico, ficamos cantando a música do sapo que o Wandeko tinha nos ensinado e rindo litros.

Tão rápido quanto chegou, a chuva foi embora e pudemos seguir para o nosso novo local de acampamento perto de um riacho. Montamos acampamento perto de um bosque de araucárias, fizemos jantar e no debriefing contamos aos instrutores sobre o que aconteceu quando a chuva caiu, e eles ficaram bem orgulhosos de nós. Nessa noite o Aranha abriu o coração pra nós e nos contou sobre como ele gostava do que estava fazendo e sobre a vida dele antes e depois de começar a trabalhar com a OBB. Foi bem emocionante, me senti realmente inspirado pelo tanto que ele gostava daquilo e como ele considerava o trabalho dele bem mais que trabalho e o relacionamento dele com o Zara bem mais que coleguismo.

Essas noites…

Mais um dia raiou, e com ele o Aranha fez uma dinâmica sobre estilos de liderança usando os elementos da natureza. De acordo com respostas que dávamos, fomos entendendo melhor qual o nosso alinhamento com um determinado estilo. Foi bem bacana.

Em seguida, atravessamos o bosque e encontramos a casinha branca, que era um abrigo de caça. Ficamos meio absorvidos pela casinha por um tempo, as histórias escritas nas paredes, a foma como ela estava. Não foi uma vibe boa na verdade, uma energia meio pesada rolava lá, não sei bem porque. Os instrutores logo nos avisaram para não nos determos muito tempo por lá porque não havia sentido.

Olha o naipe da cilada…

Uma neblina começou a descer, e eu estava de líder, então comecei a atiçar a galera pra se mover. O Gui tava na navegação, então fomos na confiança. Subimos um bom tempo por um morro, sem ver muita coisa devido à neblina. Tentamos fazer uma triangulação do caminho que achávamos que era o certo, mas depois de umas 2hs quando descemos e chegamos próximos de um rio e olhamos pra a nossa esquerda, a neblina limpou e vimos a mesma casinha. Andamos em círculos por 2hs!

O Guilherme ficou nervoso porque a responsabilidade da navegação era dele e quis desistir depois de ter feito a galera andar em círculos, eu fui conversar com ele para tranquilizá-lo e dizer que a responsabilidade era compartilhada por todos, e principalmente por mim como líder do dia. Que todos nós sabíamos que estávamos aprendendo e o dia estava especialmente difícil por causa da neblina, mas que eu não ia deixar ele desistir e que eu precisava dele.

A confiança dele se abalou um pouco, e pelo resto do dia ele precisou que a galera fizesse um double check em todas as decisões de navegação que ele tomava. Mas quando acabamos encontrando os instrutores no final do dia, ele pareceu mais aliviado e um pouco mais seguro também.

Os instrutores nos levaram para o local do acampamento que era cruzando um rio meio profundo, mas sem muita correnteza. A parte engraçada era que a água chegava até a barriga em mim mas ainda ficava no meio da perna no Aranha. 😂

O fim de tarde foi bem chuvoso e frio e tivemos que armar as barracas debaixo de chuva e nos espremer pra comer na tarp sem nos molharmos, mas o próximo dia seria uma dia de descanso.

Passamos o dia organizando material e um bom pedaço fazendo uma pizzada, sem pressa. A OBB incentiva o lance de fazer a pizza em um processo onde todos participam, então a cozinha se torna uma linha de produção depois que a massa tá pronta: um abre a massa, o outro bota molho e queijo e depois mandam para outras pessoas que recheiam as pizzas. Com dois fogareiros (e portanto dois pilotos), as pizzas saíam muito rápido e as pessoas só começavam a comer quando todos já estavam servidos, inclusive o cozinheiro. É mais uma prática que ajudava a criar um senso de grupo e que posteriormente eu incorporei com os escoteiros (sempre que conseguia né…).

A linha de produção

Naquela tarde, os instrutores nos propuseram a experiência do “Solo”: poderíamos passar uma noite acampados em isolamento do grupo. Cada um iria pegar um azimute a partir de um ponto demarcado pelos instrutores e andar nessa direção o quanto quisesse, armar uma mini tarp e bivacar sozinho. A única restrição era que não poderíamos interferir com a experiência dos demais cursantes, então nada de contato nem por sinal de luz.

A ideia era que ficássemos fora da linha de visão um do outro, então todos teríamos apitos para usar caso algum problema acontecesse. Em hipótese nenhuma deveríamos apitar sem um real perigo ou acidente, já que instantaneamente todos iriam interromper o Solo e vir ao resgate. Para o caso de não conseguirmos ficar sozinhos ou entrarmos em alguma espécie de pânico, os instrutores disseram que estaríamos livres para voltar para o local do acampamento e acampar nas barracas, mas em hipótese nenhuma atrapalhar o Solo dos demais.

A única tarefa que os instrutores pediram nesse períodos foi: escrevam uma carta pra vocês mesmos que será enviada pra vocês em algum momento pela OBB durante o próximo ano.

Pra mim era uma experiência totalmente fora da zona de conforto: acampar sem barraca, debaixo de uma lona, com a possibilidade de formigas e aranhas entrarem no saco de dormir… Para outros, a preocupação era mais intensa: medo de onça, medo de se perder, medo de chover e a água encharcar o saco de dormir. Imagino que alguns devem ter lutado contra o medo de ficar sozinho também, mas impressionantemente, depois que eu armei minha tarp numa árvore da colina e coloquei meu isolante e meu saco de dormir no chão, todos esses medos foram embora e deram lugar a reflexões tão profundas que acho que mencioná-las aqui só iria atrapalhar a experiência de qualquer um que está lendo isso e pretende fazer um FEAL na vida. Só sei que ri, chorei, escrevi cartas não só para mim mesmo, mas para outras pessoas também.

Em algum momento eu peguei no sono e acordei com uma chuvinha caindo na tarp e, depois de ajeitar meu saco de dormir pra não molhar, fiquei me deliciando com o barulho das gotas caindo e caí no sono denovo. Uma outra hora, acordei novamente e não ouvi mais chuva nenhuma. Afastei a tarp pra ver se as nuvens tinham se dissipado e dei de cara com o céu mais estrelado que eu havia visto até então.

Foi uma noite profunda e sensacional em diversos sentidos, abriu as portas de muitas coisas na minha alma e de muitas outras experiências. Na manhã seguinte quando acordei, juntei minhas coisas e fui um dos primeiros e voltar para o acampamento. Os instrutores já estavam fazendo café da manhã para nós (olha só a mordomia!) e, depois que todos chegaram, fizemos um debriefing da experiência e rimos muito com as histórias de 13 noites bem diferentes. Porém, logo em seguida houve um momento bem triste, a hora havia chegado: iríamos ter que seguir sem os nossos mestres a partir de agora.

Os instrutores iriam seguir por uma rota diferente para o final da nossa jornada e iríamos passar dois dias na montanha sozinhos, tomando decisões, navegando e lidando com as consequências. Até agora os instrutores eram nosso porto seguro, quando os encontrávamos sabíamos que tínhamos acertado a rota, mas agora o jogo ia ser diferente.

Depois de um planejamento onde olhamos o mapa e traçamos mais ou menos uma rota e um local de acampamento para os instrutores saberem, ao menos, a região que estávamos caso algo desse errado; e de também pegar suprimentos de primeiros socorros, telefone de emergência e GPS caso a navegação ficasse sinistra, seguimos nossa rota e deixamos os instrutores para uma aventura independente.

Nessa experiência, que talvez foi a experiência pico de toda a expedição, não foi somente colocar em prática tudo o que aprendemos porque já vínhamos colocando em prática a muito tempo. Era uma questão de realmente ganhar confiança no que aprendemos: navegamos com confiança, nos comunicamos com confiança, acampamos com confiança e nos divertimos MUITO. Passamos por cachoeiras, varamos mato só por varar mesmo, sem necessidade; teve gente que levou carreira de boi, ficamos de cara a cara com a morte (encontramos um boi morto no caminho, kkkkkk), mas tudo isso com uma certeza de que o grupo ia chegar aonde queria porque o grupo era mais forte junto.

Encontramos um lugarzinho pra acampar no pé de uma colina quando a tarde já ia virando noite. Fomos tomar banho de rio, montamos a tarp, fizemos comida e tivemos mais algumas aulas que faltavam. O Guilherme fez a aula dele sobre bicicletas e a minha aula sobre Total Leadership (que foi baseada no curso Leading the Life You Want que eu havia terminado a pouco tempo no Coursera, foi o início do meu interesse nesse tema que acabou virando uma área de estudo) foi nesse dia, já à noite.

Sem os instrutores, acabamos quebrando algumas regras mais puritanas da OBB. Nada que ofendesse o que aprendemos, só circulamos de toalha, sem camisa e descalços pelo acampamento em alguns momentos 😂. Também engajamos em conversas mais acanalhadas nesses dias, e pudemos conversar livremente sobre as nossas impressões dos instrutores, da experiência e da OBB em geral.

No último dia estávamos a menos de 6km do nosso ponto final, então embromamos no acampamento o quanto pudemos pra sair mais tarde. Fomos seguindo um platô em direção à saída da montanha e depois descendo uma trilha onde já estávamos encontrando sinais de civilização: vacas, cachorros, depois pessoas montadas, algumas casinhas até que, por fim, demos de cara com o Zara e o Aranha nos esperando no meio da estrada. Fim de jogo? Claro que não!

Dispersando o impacto por uma área sem trilhas demarcadas, mais uma prática do LNT.

Depois que montamos o acampamento, o Zara nos deu talvez a aula mais importante de todas no FEAL: Formação de Grupos. Enquanto ele falava, eu via claramente todas as fases que o nosso grupo passou até chegar ao momento que os instrutores, que já tinham certeza da nossa capacidade, nos soltaram para que pudéssemos construir nossa confiança. Um grupo que saiu de picuinhas por causa da navegação pra um processo de decisão azeitado e conciso. E quanto mais ele falava, mas eu via o quanto isso aconteceu com praticamente todos os grupos em que eu fiz parte, e quais atitudes dos instrutores em cada momento facilitaram para que o grupo chegasse mais rápido ao performing. Nesse momento eu entendi que, pra ser educador não basta vomitar técnicas, é necessário entender o grupo e o processo pelo qual, necessariamente, ele precisa passar.

Fomos apresentados à nossa base para os próximos dois dias: O Biosítio Pedra do Gavião; e aos anfitriões: afamília Bayer, que são vegetarianos e vivem praticamente do que produzem no sítio (mel, frutas, hortaliças). A casa deles parecia muito com a casa de um Hobbit: feita na encosta de uma colina, utiliza técnicas de construção sustentáveis (bioconstrução) que a filha, Lakshmi, aprendeu numa especialização. A casa tem painéis solares, iluminação por LED e as paredes são encrustadas de garrafas que, além de aumentar a iluminação interna da casa durante o dia, inumdam a casa com as mais diversas cores.

Olha só essa casa! 😮

Uma família muito simples, simpática e acolhedora, nos receberam com um banho quente (viabilizado por painel solar e uma caldeira acima do banheiro), muita conversa boa, uma sopa de couve com queijo parmesão meia cura feito no fogão a lenha(delíciosaaa!!!), pão de orégano feito no forno à lenha que fica em cima do fogão e aproveita da mesma brasa; e, pasmem, muita música no violão caipira que o Seu Renato toca muito bem.

“Esse ano vou fazer umas coisa louca. Vou pro mato, vou plantar batata roxa…”

Em todo o FEAL, ao final do curso somos convidados a participar de uma atividade comunitária. Eu sempre fui meio tenso com esse tipo de atividade porque acabo ficando mais triste pela situação dos necessitados do que feliz por ajudar, mas a nossa atividade não foi por essa linha e eu fiquei muito feliz com a ideia proposta: iríamos revitalizar uma nascente que foi degradada pelo desmatamento e pela pecuária!

Adoro plantar, adoro ajudar o meio ambiente e nunca tinha visto como se revitaliza uma nascente. Basicamente o que precisávamos fazer era plantar árvores pra restaurar a cobertura vegetal e a permeabilização do solo em torno da nascente, e proteger a área do gado de pasto com cercas. Foi um trabalho bem cansativo, mas extremamente gratificante pra mim.

Plantamos árvores nativas, frutíferas e alguns pés de café no entorno que reduzem alguns tipos de pragas. Árvores altas de raízes profundas, médias e arbustos e forma que em alguns anos provavelmente vai estar uma mata fechada protegendo a nascente. Muito bacana.

Depois do trabalho, fomos tomar um banho de cachoeira GELADO pra curar os músculos. A cachoeira fica bem pertinho da propriedade dos Bayer. Comemos pêra do pé, interagimos com os bichos do sítio (que tem nome e são quase da família).

Também fizemos nesse dia as últimas aulas do curso: O Beto fez a aula dele sobre manutenção do fogareiro MSR que usamos no curso, o Vandeko fez uma dinâmica sobre comunicação (Ator, Treinador e Vítima) e o Beiço fez a aula dele sobre atividades outdoor para portadores de deficiência, que seria muito pouco dizer que foi FANTÁSTICA e bem eye opening.

O Danilinho também se ofereceu pra fazer uma massoterapia na galera nesse dia, ele praticamente me desmontou e montou novamente. Muito punk!

Desceu a noite, e com ela mais conversas ao redor da mesa, mais música e até uma fogueirinha pra embalar a cantoria noite à dentro.

Alvorada do último dia de curso

No dia seguinte, levantamos acampamento e seguimos a estrada do biosítio em direção à cidade. A van da OBB já nos esperava num estacionamento próximo, mas antes de entrar na van acabamos comprando uma Coca-Cola 2L pra matar a sede depois de 14 dias longe da civilização, mas deu meio errado pra mim. Acho que a bomba de açúcar e sódio depois de tantos dias de alimentação balanceada e saudável me detonou, fiquei enjoado e passando mal um bom tempo. Só a Heineken que tomamos no almoço patrocinado pela OBB fez o enjoo passar 😄.

Repondo as proteínas na churrascaria

Durante o almoço, rolou a graduação: entrega de diplomas e compartilhamentos sobre as impressões do curso e o que aprendemos. Também comparamos o que vivemos com as expectativas que tínhamos antes do curso e, sem dúvida nenhuma, todos chegamos à conclusão de que o curso foi muito mais do que esperávamos, tecnicamente, espiritualmente e pessoalmente.


Essa é a Blue ‘P’eter Flag, a bandeira P do alfabeto no Código Internacional de Sinais náuticos. A origem do nome “Outward Bound” veio da tradição marítima de hastear a Blue Peter flag em barcos que estavam “outward bound”, ou seja, indo para fora do porto rumo ao desconhecido. O Kurt Hahn criou a escola Outward Bound numa época em que marinheiros jovens e fisicamente hábeis sucumbiam aos perigos do mar por puro pânico e falta de treinamento para lidar com condições adversas tão comuns no mar, mesmo fora de batalha. A Outward Bound veio de encontro a essa necessidade desenvolvendo as habilidades técnicas necessárias, mas principalmente desenvolvendo as habilidades humanas: resiliência às dificuldades, trabalho em equipe e o espírito de que se pode ser muito mais, alcançar muito mais, viver muito mais.

Nós carregamos nossa Blue Peter no FEAL e nela escrevemos palavras que serviam para identificar nosso grupo, por isso ela está toda riscada (no final ficou mais ainda, mas infelizmente não tenho fotos). Com esse grupo, eu aprendi muito mais do que ter pró-atividade, confiança, coerência com meus valores, a ser sincero e a tratar as dificuldades com alegria. Eu ganhei amigos para a toda a vida, que viveram uma experiência única sensacional nas montanhas da “Serra que Chora” comigo.

Com os instrutores eu aprendi muito mais do que eles me ensinaram intencionalmente: aprendi uma forma nova de educar, a paixão por uma vocação que é ajudar as pessoas a serem o melhor do que elas achavam que poderiam ser; e a quererem mais que isso.

Meu posicionamento como educador dentro do movimento escoteiro mudou completamente e, o cara introvertido da computação se tornou uma pessoa que quer compartilhar, viver ao ar livre e projetar experiências para as pessoas descobrirem dentro de si mesmas a força que elas tem e o quanto elas podem fazer.

Por causa do Ed e da energia que ele me transmitiu em um curso de caiaque, quando nem éramos amigos ainda, eu conheci uma profissão. Não, uma vocação. Um chamado: finalmente entendi qual era o meu papel no mundo e qual a marca que eu quero deixar nas pessoas.

A Outward Bound Brasil foi responsável pelo começo de uma jornada que abriu a minha visão para a minha verdadeira vocação: transformar a vida das pessoas através da educação (ao ar livre). E por isso eu serei eternamente grato, tanto aos que projetaram essa experiência pra mim, como aos que me ajudaram a vivenciá-la. Vocês mudaram minha vida!

Muito Obrigado,

  • Fernando Zara (Instrutor)

Thiago Paiva Brito

Written by

There and back again: Lessons from a dual life between office and wilderness

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade